segunda-feira, 13 de maio de 2013

HITLER, STALIN E A UCRÂNIA: ESTRATÉGIA CRUEL

Ukrainska Pravda (Verdade Ukrainiana) 09.05.2013
Yurii Shapoval
 
Chocado com ofensiva nazista, Stalin estava pronto para propor paz a Hitler: Vyacheslav Molotov durante seu encontro com o embaixador búlgaro pediu-lhe apresentar a proposta em Berlim, para parar com as ações de combate. Neste caso, Stalin estava pronto para dar aos nazistas a Ukraina e a Bielorrússia.
 
"Bloodlands" - com este neologismo o historiador americano Timothy Snyder denominou as terras afetadas pelas ditaduras nazista e comunista. A "terras sangrentas" (exatamente assim traduziram para o ukrainiano o conceito de Snyder) ele, particularmente, incluiu Polônia e Ukraina.
 
Quando as pessoas falam da Ukraina, habitualmente, com acerto enfatizam, que o implacável turbilhão varreu a Ukraina - de oeste para leste e de leste a oeste.
 
Na Ukraina estavam envolvidas 60% das divisões da Wehrmacht, quase metade das unidades de combate dos Vermelhos/Exército Soviético, que infligiram uma série de ataques estratégicos aos alemães. E foi na Ukraina que abriu-se o caminho às tropas soviéticas para Europa Central e Balcãs.
 
Nos planos de conquista de Adolf Hitler Ukraina ocupava um lugar especial. Realmente, esses planos construíam-se considerando a captura da Ukraina, que devia se tornar uma parte importante da realização "Plano de Fome" (Der Hungerplan). Este plano previa subalimentação dos povos de territórios ocupados da URSS a fim de obter alimentos para o exército alemão e população da Alemanha.
 Em relação a Ukraina Hitler e Stalin atuavam com similitude.
 
Na estratégia de Stalin Ukraina esteve sempre presente. O ditador vermelho nunca esquecia a aspiração dos ukrainianos à independência, demonstrada em 1917-1920. Ele lutou ferozmente não apenas com os adversários explícitos dos bolcheviques. Entre a elite ukrainiana constantemente procurava "separatistas" e "reticentes-nacionalistas", expressava desconfiança em relação ao Partido Comunista da Ukraina, enfim aproveitou a complicada situação do início dos anos 1930 para submissão da Ukraina com o auxílio do Holodomor.
 
Condenada a encontrar-se entre duas potências totalitárias, Ukraina, durante a Segunda Guerra Mundial estava destinada sobreviver ao confronto de exércitos regulares, genocídios, deportações, mobilizações, deportações para trabalhos forçados na Alemanha, colisões de guerrilheiros e movimentos clandestinos e muitos outros acontecimentos, que verdadeiramente fizeram o solo ukrainiano sangrento.
 
Isto foi claramente demonstrado pelos acontecimentos ainda antes da II Guerra Mundial. Em 15.03.1939 o exército húngaro (Hungria era aliada de Hitler) invadiu os Cárpatos ukrainianos, que recentemente proclamaram sua independência. Ao preço de sangue e vítimas o Transcarpathia foi anexado a Hungria.
 
A luta da Sich (Sich, no tempo dos cossacos era o centro militar e administrativo de Zaporizhzha - daí o nome - OK) dos Cárpatos foi a primeira resistência militar, embora não contra Hitler diretamente, mas contra o seu satélite. Em troca Stalin mostrou publicamente sua simpatia para com Hitler.
 
Ainda em 10 de março de 1939, no XVIII Congresso do PCUS(b) Stalin ironizava sobre Ukraina dos Cárpatos dizendo que "inseto que quer agregar a si um elefante." - E ainda, neste discurso, Stalin disse que a Grã-Bretanha, França e EUA estavam muito interessados para que Hitler declarasse guerra contra URSS.
 

O pacto de Hitler e Stalin foi assinado em 23.09.1939 em Moscou. Stalin sorri sinceramente na companhia de ministros, do Exterior da Alemanha - Ribbentrop (esquerda) e da URSS - Molotov (direita).
 
Em 22 .08.1939 em um discurso perante os comandantes de todas as forças armadas da Alemanha, Hitler disse: "Desde outono de 1938, decidi ir com Stalin... Stalin e eu - os únicos que olham apenas para o futuro. Assim eu, nos próximos dias na fronteira germano-soviética estenderei a mão a Stalin e com ele começaremos a nova divisão do mundo..."
 
E assim aconteceu em 23.08.1939. Neste dia assinaram o pacto "Hitler - Stalin (o qual até hoje, por algum motivo ainda é chamado "Pacto Molotov - Ribbentrop"). Ditadores dividiam a Europa e cada um tinha os seus próprios cálculos. No entanto, em seus planos não havia lugar para Ukraina independente.
 
Conversas amigáveis. Oficiais do Exército Vermelho e da Wehrmacht durante a campanha de setembro de 1939.
 
Uma anotação característica fez em seu diário no outono de 1939, o famoso escritor alemão Heinrich Mann:  Stalin - igual a Hitler, ele por muitos anos depreciava Hitler e seu país, embora provavelmente, o invejava. Um traidor construiu toda sua carreira no antibolchevismo. De repente, ele dá uma volta, e aqui outro igual traidor dá-lhe um abraço? Eles encontraram um ao outro para levantar-se contra o mundo civilizado. Finalmente os dois juntos".
 
Em 17.09.1939 a União Soviética entrou na Segunda Guerra Mundial. Tropas da Frente Ukrainiana entraram no território Ocidental da Ukraina e Ocidente da Bielorrússia.
 
Em 22 de setembro o Exército Vermelho estava em Lviv, e em 27 de setembro os nazistas ocuparam Varsóvia.
 
Nikita Krushchev, o então líder partidário da URSS, lembrava o cuidado dos alemães e russos na realização dos acordos anteriores e passavam por linhas divisórias anteriormente estipuladas de territórios ocupados. Sabe-se, que realizavam-se desfiles comuns de militares Nazi-Soviéticos. Tornaram-se disponíveis alguns fatos de cooperação Gestapo e NKVD, embora esta questão, até agora não recebeu cobertura elucidativa.
 
Desfile conjunto em Brest, 22 de setembro de 1939.
 
Setembro de 1939 - propaganda stalinista apresentava como "campanha de libertação" do Exército Vermelho, "setembro de ouro" e para Ukraina Ocidental, como "associação fraternal". Esses clichês repetem às vezes na Ukraina de hoje (principalmente os comunistas), especialmente na Rússia.
 
Mas será que é possível em tais categorias avaliar o conluio de duas tiranias? Tiranias que dividiram entre si as esferas de influência do Báltico ao Mar Negro, da Finlândia a Bessarábia, em particular planejaram destruir o Estado polonês.
 
Não convém dissimular. URSS entrou na Segunda Guerra Mundial ao lado dos nazistas, e já depois, em junho de 1941, a um preço verdadeiramente terrível foi necessário liquidar as contas e "corrigir" as falhas da diplomacia secreta de Stalin.
 
Não houve nenhuma "associação fraternal". Como evidenciam nos últimos anos os documentos descobertos, tratava-se em estabelecer nas terras ocidentais ukrainianas a ditadura comunista, criação de estruturas administrativas adequadas e destruição da anterior administração polonesa (e seus representantes), e destruição sequencial de organizações nacionais ukrainianas e inteligência ukrainiana (a priori para Moscou "nacionalista").
 
Forças - tarefa de grupos da NKVD e guardas-fronteira (no início de outubro de 1939 contavam-se na frente da Bielorrússia aproximadamente 90 mil, e na frente ukrainiana aproximadamente 105 mil pessoas) realizavam prisões totais.
 
Soldados soviéticos e alemães. Lviv, setembro de 1939.
 
Como resultado de acordos com os nazistas URSS apossou-se de parte considerável do território e população do então Estado polonês.
 
Do ponto de vista do direito internacional isto foi declarada agressão que violava uma série de acordos internacionais. Não foi "áureo", mas castanho-cor de sangue para Ukraina foi setembro de 1939.
 
"Setembro áureo". Cartaz soviético apresenta os acontecimentos de outono de 1939, como libertação de terras ukrainianas da ocupação polonesa.
 
É por isso que os patriotas poloneses e patriotas ukrainianos tornaram-se vítimas do "áureo setembro". Já em dezembro de 1939 começaram os preparativos para a deportação da população das províncias ocidentais ukrainianas e bielorrussas para regiões remotas da URSS.
 
Os primeiros habitantes foram deportados em 1940, juntamente com as famílias de militares, colonos e silvicultores poloneses. A segunda deportação em abril de 1940 foi principalmente de famílias repressadas. Terceira e quarta em junho de 1940 e abril-maio de 1941 - na maioria de refugiados.
 
No total foram deportadas cerca de 320 mil pessoas. Até presente data não foi estimado o número de mortes em transportes, prisões, campos e execuções com base em diversas sentenças.
 
Além disso, após o início da guerra nazi-soviética, em 1941 foram executados milhares de prisioneiros de guerra (Sobre o extermínio de prisioneiros diversos artigos já foram publicados neste blog - OK).
 
O mais famoso crime de guerra soviético durante a Segunda Guerra Mundial foi Katyn - fuzilamento de militares poloneses, prisioneiros de guerra, perto de Smolensk, Kharkiv, Kyiv e Kalinin. Na foto - exumação alemã na primavera de 1943.
 
Por exemplo, com o início da guerra nazi-soviética em 1941 em Bykivnia, próximo a Kyiv, NKVD executou um grande número de prisioneiros ukrainianos e poloneses. Os sinais desses crimes foram cuidadosamente escondidos.
 
Na véspera da guerra germano-soviética Polônia e Ukraina foram divididas entre dois ditadores. Parte das terras, às quais em 1940 Stalin ainda acrescentou a retomada da Romênia, Moldávia e Bessarábia com população ukrainiana, e incorporou-a à URSS. As terras limítrofes ocidentais do território etnográfico ukrainiano foram subjugadas diretamente ao Terceiro Reich ou aos seus subordinados Berlim, Romênia e Hungria.
 
Não tendo seu próprio Estado independente, os ukrainianos tiveram que cumprir obrigações cívicas dos países, cidadãos dos quais eles eram. Para maioria dos ukrainianos isto significava servir nas fileiras das forças armadas soviéticas, e o restante - nos exércitos alemão, romeno ou húngaro.
 
22.06.1941 pôs fim no acordo criminoso de Hitler e Stalin, mas não na provação dos ukrainianos. Com o início da guerra começou a implantação de atividades de mobilização. Recursos da Ukraina exportavam-se para o Oriente da URSS e regiões da Ásia Central.
 
Para lá foram evacuados 3,5 milhões de cidadãos da Ukraina. Para o leste levaram equipamentos de 550 maiores empresas industriais ukrainianas, e o restante os alemães saquearam.
 
Lviv, junho de 1941. Os moradores locais saúdam as tropas alemãs. Foto do arquivo nacional polonês.
 
Com o avanço das tropas alemãs o PCUS(b) e o governo soviético deram instruções aos governos locais e organizações partidárias para destruir tudo o que não conseguiram evacuar: instalações das empresas, fábricas, máquinas agrícolas das fazendas coletivas, ferramentas, queima de cereais, vegetação agrícola. Isto constou na diretiva dos Comissários do Povo da URSS e do PCUS(b) em 29 de junho de 1941, em discurso de Stalin pelo rádio em 3 de junho de 1941, em um decreto especial da Comissão de Defesa do Estado de 22 de julho de 1941, e em outros documentos. Como é de conhecimento, eles falaram sobre a criação da zona de "terra arrasada".
 
E mais um "libertador" das terras ukrainianas. Cartaz alemão de 1941.
 
Na antiga URSS permitia-se mencionar de que ao inimigo nada deixaram. No entanto não se podia lembrar os crimes do regime comunista, incorridos na realização (e pode ser diferente em qualquer totalitarismo?!) da política de Stalin da "terra arrasada", quando o regime comunista fugia para o leste.
 
Por exemplo, não foram os nazistas, mas as autoridades comunistas em evacuação, no Zaporizhzhia, que explodiram Dniprohes. E sobre isso nada sabia a população civil, e nem mesmo as parcelas militares de escalões inferiores.
 
Dniprohes. Zaporizhzhia, 1941.
 
Em Dnipropetrovsk explodiram fábrica de pão com os trabalhadores. Em Odessa inundaram bairros inteiros com moradores, e soldados vermelhos (note bem, seus compatriotas! - OK) feridos jogaram ao mar, juntamente com as ambulâncias. De Kharkiv retiraram representantes intelectuais - para queimá-los em prédio fechado. Em Uman torturam pessoas vivas num porão.
Tais exemplos podem ser multiplicados. E tudo isso faziam não os nazistas, mas os comunistas durante a retirada, ou melhor, durante a fuga perante o inimigo. Às vezes as pessoas se opunham a esta política de "terra arrasada". Por exemplo, os aldeões tentavam interromper a destruição da propriedade coletiva, instalações, alimentos, animais, etc.
 
Em Lviv e outras cidades da Ukraina Ocidental NKVD, sem julgamento, fuzilou vários milhares de presos políticos. Os nazistas aproveitaram este fato para provocar destruição de judeus no início de julho de 1941. Lviv, pátio da prisão Nº 1, 1941. Arquivo da TSDVR (Organização científica independente para estudar os aspectos da libertação da Ukraina).
 
Eis porque pode-se escrever com racionalidade e utilidade não apenas os crimes do regime comunista contra os seus próprios cidadãos. As pessoas que sobreviveram a esta catástrofe, sabiam, que a nação ukrainiana sofreu de ambos sistemas totalitários, tanto do nazismo quanto do comunismo.
 
Outro crime da URSS foi denunciado pelos nazistas em Vinnytsia, e... usado para justificar o Holocausto. O cartaz alemão tem conotações anti-semitas.
 
No território ukrainiano os nazistas realizavam essencialmente dois Holocaustos - o extermínio total dos judeus (mataram mais de 1 (um) milhão e Babi Yar em Kyiv tornou-se o símbolo da tragédia dos judeus na Ukraina, como também o extermínio dos eslavos - ukrainianos, russos, poloneses, bielorrussos.
 
Kyiv, Babi Yar. Soldados alemães procuram objetos de valor nos corpos dos fuzilados judeus. Foto de Johannes Gole. Início de outubro de 1941.
 
Uma enorme "fábrica de morte" devia tornar-se a planejada pelos nazistas construção de Totenburh nas margens do rio Dnieper perto de Kyiv. Menores em espaço físico, tais "complexos" os nazistas construíram em toda Ukraina. Muitos ukrainianos foram enviados a campos de concentração fora da Ukraina.
 
Em uma rua de Stalino (Donetsk-ua) vem um judeu com braçadeira na manga, 1941.
 
A guerra que começou na União Soviética chamaram de "Grande Guerra Patriótica". Já em 22 de junho de 1941 o acadêmico stalinista Omelian Yaroslavskyi escreveu um artigo que, já no dia seguinte foi publicado no "Pravda", sob o título de "Grande Guerra Patriótica do povo soviético". Originalmente as três palavras foram escritas com letras minúsculas. Posteriormente introduziram letra maiúscula para a palavra "Patriótica". No final da guerra começaram escrever com letra maiúscula também as duas primeiras. No entanto, após 22 de junho começaram as dúvidas sobre a palavra "patriótica" em relação a guerra, entusiasmo legendário e à passividade da população na questão da defesa "pátria socialista", revelaram uma profunda divisão da sociedade em pelo menos três grupos:
 
- Aqueles que, por várias razões (inclusive em virtude de crenças) lutaram no Exército Vermelho;
 
- Aqueles que não queriam o retorno dos comunistas e abertamente se posicionaram contra;
 
- E a maioria silenciosa, que estava pronta/forçada a adaptar-se a diferentes regimes.
 
Monumento a Stalin e Lenin em Artemivsk (Donetsk-ua).
 
A falta de confiança dos comunistas em seus próprios cidadãos confirma-se com muitos fatos. Por exemplo, para evitar que fossem ouvidas informações sobre ações nas frentes de batalhas de fontes não controladas pelo governo conduziam-se requisições de receptores de rádio, da população próximas das frentes de batalha. E no mundo foi criado o Bureau Informativo Soviético".
 
Ninguém outro, senão o próprio Stalin em seu famoso brinde em 25.06.1945, disse: "Nosso governo cometeu muitos erros. Tivemos momentos de situação desesperada em 1941-1942, quando nosso exército recuava... Outra nação poderia ter dito ao governo: Vocês não corresponderam às nossas expectativas, vão embora, nós colocaremos outro governo, o qual acordará a paz com Alemanha e garantirá nossa tranqüilidade".
 
Moradores de Kharkiv observam cartazes alemães.
 
O que fazia naquele sangrento junho o "pai das nações", ainda têm de investigar, apesar de que hoje, muito do que parece inverossimil já sabemos. Por exemplo, confirmado que chocado com o ataque nazista, Stalin estava pronto para propor a Hitler uma nova variante de paz de Brest: Vyacheslav Molotov durante seu encontro como embaixador búlgaro pediu-lhe para propor a Berlim parar as ações de luta. Em vez disso, Stalin estava pronto para dar aos nazistas a Ukraina e a Bielorrussia. Mas, no momento, dados os sucessos militares, Hitler rejeitou estas propostas.
 
Cartaz da propaganda alemã, 1941 (dentro do cartaz: assassino e incendiário Stalin perdeu-se. No cartaz menor: Programa do ávido de sangue Stalin!)
 
A sociedade soviética estava esterilizada e comportada, mas, uma parte considerável esperava a chegada dos alemães, na esperança de se livrar da tirania bolchevique. Como lembrava Demian Korotchenko (não um propagandista, mas secretário do Partido Comunista da Ukraina), nos primeiros dias da guerra, "a grande maioria da população civil da Ukraina não queria continuar a luta contra os alemães, mas tentava por vários meios ajustar-se ao regime de ocupação".
 
Cartaz de propaganda soviética, 1941 (o escrito dentro da foto: rosto do hitlerismo).
 
Isto é, a guerra dividiu a sociedade. No entanto, houveram forças que entendiam, nem Berlim, nem Kremlin darão liberdade a Ukraina. E tendo isto em vista, este princípio exige uma interpretação diferente do fato, de que em 30 de junho de 1941, no dia da ocupação nazista de Lviv, os ativistas da OUN (Organização dos Nacionalistas Ukrainianos), sob a liderança de Stepan Bandera anunciaram a renovação do Conselho regional do Estado da Ukraina (governo local, liderado por Yaroslav Stetsko), sem informar sobre isso os alemães.
 
Isto não foi uma ação colaboracionista de ukrainianos - do governo, mas um reflexo da situação existente na sociedade. (Uma boa parte dos ukrainianos do oeste e também os que são pró Rússia em geral, acusam os demais ukrainianos desse tal colaboracionismo, quando o que houve foi somente o desejo de conseguir a independência. Colaboracionistas são os que até hoje procuram aliar-se a Moscou. - OK) Agora voltemos mais uma vez às palavras de Stalin pronunciadas em 25,06,1945. Então: "Outra nação poderia ter dito ao governo: vocês não corresponderam à nossas expectativas, vão embora... No entanto o povo russo não foi por este caminho... e essa confiança do povo russo ao governo soviético revelou-se aquela força decisiva, que garantiu uma vitória histórica sobre o inimigo da humanidade, - sobre o fascismo. Obrigado a ele, ao povo russo, por essa confiança!"
 
"Obrigado, ao povo russo, por essa confiança!" (Dentro da foto: Amado Stalin - Felicidade da Nação!)
 
A escala de perdas durante a guerra é a seguinte: a perda na URSS compõe 40% do total das perdas causadas a todos os participantes. Na Ukraina, as perdas alcançaram 40% das perdas totais da URSS. Em 1940 Kyiv tinha 930 mil moradores, em 1943 - 180 mil.
 
Ao todo, de acordo com atuais estimativas, URSS em 1941-1945 perdeu 32 milhões de pessoas. Elas eram, como contavam nos tempos soviéticos, "filhos de diversas nações".
 
Os dados oficiais de perdas da Ukraina são de 10 milhões de pessoas. Mas Kremlin enfatizava (como, aliás, agora Rússia também enfatiza) apenas o papel da nação russa.
 
Lutas de rua em Kharkiv, fevereiro de 1943.
 
Isto não profetiza nada de bom a outras nações e, bem entendido, aos ukrainianos, aos quais o Partido Comunista não confiava porque estiveram sob ocupação alemã. Então o regime stalinista usava vários sistemas de punição. Indicativo era o destino dos ukrainianos, aos quais chamavam "chornosvytkamy". (Chorno - preto; svytka é uma espécie de jaqueta comprida usada antigamente pelos aldeões pobres, cujo tecido era de fabricação caseira, de cor acinzentada), porquanto eles lutavam em roupas caseiras, sem nenhum preparo militar. No outono de 1943 o poeta e diretor de cinema Oleksandr Dovzhenko escreveu em seu diário."Contam, que na Ukraina começam a preparar para mobilização jovens de 16 anos, que às batalhas os conduzem mal treinados, que os consideram "shtrafnyky" (militar da unidade disciplinar -OK), ninguém se importa com eles".
 
De fato, em 1943, surgiu uma diretiva especial, que exigia maior utilização de elementos para aumento dos exércitos, como mobilização ao serviço militar das anteriormente ocupadas áreas. Foram implantados, literalmente, desde os primeiros dias do retorno do regime comunista na terra ukrainiana as medidas de mobilização extensa.
 
De acordo com os especialistas, nos anos 1943 - 1945 na Ukraina ao exército soviético foram mobilizados 3 milhões de pessoas.
 
Pátria-mãe. Cartaz soviético de 1943. (Dentro do cartaz: Soldado, responsável pelo triunfo da Pátria!)
 
Em 1944 cada terceiro soldado era ukrainiano. Nos exércitos 1-4 das frentes ukrainianas, principalmente nas unidades de infantaria e formações, os ukrainianos eram 60-80%.
 
No entanto, a estratégia militar anti-humana de Stalin, que não se preocupava com as vítimas, levou a grandes perdas da população masculina na Ukraina. Não menos de um terço dos mobilizados da República Socialista Soviética da Ukraina morreram neste período. O vácuo etno-demográfico de pós-guerra na Ukraina preenchia-se com pessoas de outras regiões da União Soviética (Deve ser também por isso que muitos da população atual não se esforçam pela construção de uma nação ukrainiana, eles não possuem origens ukrainianas - OK).
 
Interessante que durante a guerra o regime stalinista flertava com os sentimentos nacionais da Ukraina para estimular o seu patriotismo. Entre todas as repúblicas da URSS só a República Socialista Soviética da Ukraina permitiram ter "sua" ordem (condecoração). Trata-se da ordem de Bohdan Khmelnytskyi, introduzida em 10.10.1943, pelo decreto do Soviete Supremo.
 
Lembro também, que os participantes de ações de combate em 1941-1945 receberam 7 milhões de ordens e medalhas. Destes, 2,5 milhões couberam aos nativos da Ukraina. A participação dos ukrainianos entre os heróis da União Soviética representou 18,2% (russos - 71%, bielorrussos 3,3% e representantes de outras nacionalidades - 7,4%).
 
Finalmente, não se esqueça que foi o ukrainiano, literalmente, que pôs fim à Segunda Grande guerra. Foi um jovem general de nacionalidade ukrainiana Kuzma Derevianko, que em 02.09.1945, em nome de União Soviética assinou a bordo do cruzador "Missouri" a rendição do Japão.
 
General Kuzma Derevianenko assina o ato de capitulação do Japão.
 
No entanto, Stalin até seus últimos dias prosseguia sua estratégia antiukrainiana, não confiava nos ukrainianos, sancionava periodicamente campanhas "antinacionalistas". Por exemplo, ainda em janeiro de 1944 em uma reunião do Politburo do PCUS(b) Stalin, pessoalmente discursou: Sobre erros antileninistas e distorções no filme de Oleksandr Dovzhenko "Ukraina no fogo". O texto do filme não apenas criticaram  mas declararam antissoviético, expressão viva do "nacionalismo, estreiteza e limitação nacional". Foi um sinal claro para a próxima, em grande escala, campanha antiukrainiana cujo formato tornar-se-ia visível nos anos pós guerra.
 
Considerando isto, e também outras ações repressivas, dá base para rever um dos pilares de princípios comunistas - sobre a libertação da Ukraina. Em 1944 tal libertação não ocorreu, mas houve a expulsão dos nazistas da Ukraina.
 
Mas, guerra após guerra, que o regime stalinista desencadeou desde as terras ocidentais da Ukraina e levou até meados dos anos 1950 - um dos argumentos mais convincentes em favor de tal definição. Entretanto há muitos outros.
Um deles, particularmente indica o ex-comunista iugoslavo Milovan Djilas em seu livro "Conversas de Stalin". Ele recorda, como participante da delegação da Iugoslávia em 1945, voltando de Moscou passou por Kyiv. Djilas escreve sobre Nikita Krushchev, um russo, que liderava Ukraina desde 1938.
 
"Isso foi incomum até para nós, os comunistas, que poderíamos justificar tudo o que pode desacreditar a imagem ideal de nós mesmos, que entre os ukrainianos, nação tão numerosa quanto a francesa..., não se encontrou uma única pessoa competente para desempenhar o cargo de primeiro-ministro do governo".
 
Nikita Krushchev conforta uma mulher na rua de Kyiv libertado em novembro de 1943.
 
Em seguida Djilas diz que não se pode explicar o sangrento conflito no oeste da Ukraina somente com teimosia do nacionalismo ukrainiano, porque surge a pergunta de onde vem esse nacionalismo se todos os povos da URSS são realmente iguais?
 
Mas, na verdade, a acusação dos ukrainianos no "nacionalismo" tem um significado mais amplo que, às vezes, pensam. Não apenas Stalin, também Hitler usava com sucesso essas acusações para destruir a própria idéia sobre a realidade ukrainiana como um Estado verdadeiramente independente.5
 
Soldados soviéticos conduzem prisioneiros de guerra alemães pelas ruas de Kyiv. Agosto de 1944.
 
Como observa Timothy Snyder, o qual eu mencionei no início, a dinâmica da destruição em massa, no caso da União Soviética e Alemanha nazista foi causada pelo fato de que ambos os regimes baseavam-se em utopias ideológicas, orientadas para um curso imperial-político.
 
Agora o momento é diferente. É tempo de interpretar o passado, especialmente o período da II Grande Guerra Mundial, não esquecendo o que aconteceu na União Soviética depois de agosto de 1991.

 

 

Tradução: Oksana Kowaltschuk

Fotoformatação: A.Oliynik

 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

UCRÂNIA ENTREGA SISTEMA DE TRANSPORTE DE GÁS À RÚSSIA

Começaram a transferência do Sistema de Transporte de Gás da Ukraina - GTS (¹)
Economichna Pravda (Verdade Econômica), 26.04.2013
Serhii Liamets
 
Putin (E) e Yanukovych (D)
Complicado era decidir. Tema do Sistema de Transporte de Gás (GTS) é o mais politizado na Ukraina de hoje.
E, no entanto  eles o fizeram. Talvez, esperar mais não era possível. O atual governo da Ukraina resolveu dá-lo à Rússia. 
O projeto correspondente está registrado no Conselho Superior, no dia 26.04.2013.
Agora, quando o último bastião da consciência foi superado, tudo seguirá o mesmo caminho. Consideração do projeto de lei - protestos da oposição para aparências - distribuição de saquinhos com dinheiro - rostos saciados e deputados satisfeitos - grande maioria "a favor" - o GTS passa para Rússia através do mecanismo de consórcio e concessões pelas dívidas, mais em troca de desconto.
A data da publicação do projeto de lei - 26 de abril - não foi escolhida por acaso - é a sexta-feira anterior a semana da Páscoa (Segundo o calendário Juliano este ano a Páscoa é no dia 5 de maio -OK). Na próxima semana, por cerca de dez dias quase todo país entra em férias. A ressonante notícia sobre a concordância do governo em entregar a GTS "resolve-se" conforme as leis do gênero.
Isso acontecerá apenas porque qualquer notícia negativa "vive" uma semana. Depois , em princípio, ela não afeta ninguém. Mesmo que isto seja como o assassinato de Kennedy. Ou seja, o governo deliberadamente empregou um ardil-tecnologia. No entanto, não pela primeira vez.
Eventos relacionados? Tomada da TVi e silêncio da oposição (TVi era o único canal de televisão pró Ukraina - OK). Tudo indica, agora é evidente, que exatamente a este acontecimento coincide o assenhoreamento do canal TVi. Passaram-se algumas horas da publicação da "Verdade Ukrainiana" da mais ressonante notícia dos últimos três anos (A transferência da GTS), e o novo diretor da TVi Artem Shevchenko sentado, conta sobre os planos futuros do canal. Nisso o tema da entrega do GTS não foi ao ar no noticiário da noite! Este é o elemento chave de seu assenhoreamento.
 
Tal nossa política foi sentida desde o primeiro dia. Na foto o "investidor" do canal Oleksandr Altman e o novo diretor Artem Shevchenko.
Para aqueles que não estão em curso. É muito provável que alguns senhores, em benefício de vice-primeiro-ministro Serhii Arbuzov a alguns dias atrás apossaram-se do controle do único canal oposicionista do país - TVi
Por que Arbuzov? Bem, talvez, nem seja ele. Talvez seja "encenação sob Arbuzov" Mas o próprio processo de captura foi formalizado tão grosseiramente e às avessas, que surge exatamente este nome. Há também um renque de pequenos detalhes, os quais sugerem esta suposição. Por exemplo, sobre os funcionários do canal "derramam" dinheiro. E os comentaristas de Arbuzov, com todas as forças desejam elevar o encantamento a TVi como conflito corporativo. Como se fosse desentendimento entre Kniazhytskyi e Kahalovskyi, e não há nada a comentar.
Também essa visão promove Mykola Kniazhytskyi, e a chamada oposição ukrainiana. Onde estão os manifestantes do partido "Liberdade" e "Bloco Klychko"? Cadê "maidan" (praça onde ocorriam os protestos da Revolução Laranja - OK) devido o fato de fechamento do último canal dissonante do ponto de vista oficial do poder?
 
Vice-primeiro-ministro Serhii Arbuzov (no centro).
 

A posição do Partido "Pátria" (Yulia Tymoshenko) ao qual aderiu a "Frente de Mudanças" (Yatseniuk) - é, em geral, uma canção. Kniazhytskyi (anteriormente diretor do canal TVi) é deputado pelo partido "Pátria" e, portanto, tem imunidade a ataque dos "seus". No primeiro dia da captação do canal, veio o aliado de Arsenii Yatseniuk (líder do Partido Pátria") - Andrii Pyshnyi. Olhou, olhou e foi embora, reação da "Pátria" não houve. Talvez, também, com toda sua alma sustentam a versão do conflito corporativo.
Igualmente, o Partido "Pátria" não emitiu nenhum parecer sobre o projeto referente à privatização do GTS. Embora para isto há, pelo menos, uma razão significativa. O projeto de lei foi submetido ao Comitê da Política Econômica, dirigida por Andrii Ivanchuk que é o mais próximo amigo de Yatseniuk.
Comentários sobre o projeto de lei não expressaram nem Yatseniuk, nem Ivanchuk, nem Pyshnyi. Talvez, haja necessidade de aconselhar-se com alguém.
 
Andrii Ivanchuk e Arsenii Yatseniuk diante de colegas.

Estranho, mas nada disseram também do partido "Liberdade". Pedimos a eles sua opinião, mas nos responderam algo como: "nossa posição anunciaremos amanhã". Aos partidários do "UDAR" de Klychko nem perguntamos. Aqui farão o que o "Papa" mandar, sem variante. Bem, é claro, o campeão mundial de boxe será, oficialmente, oposição. Ele é um homem de princípio, não é controlado por ninguém.
Haverá oposição na Ukraina? A resposta para esta pergunta já a muito é conhecida. Mas no assunto de importância como a entrega do GTS para Rússia, poderiam pelo menos, em prol da decência, dizer alguma coisa.
O que acontecerá a seguir

É fácil prever. O Partido das Regiões e o Partido Comunista votarão "sim". Diante dos deputados, anteriormente aparecerão pessoas com saquinhos recheados. Serão pessoas do Arbuzov - ele costuma "regar" os parlamentares com dinheiro, eles o adoram por isso. Para maior confiança na vitória - a votação é sempre importante, e é necessário o apoio de  muitos deputados - pagarão a alguns "traidores". Encontrar-se-ão deputados que têm pontos de vista diferentes, do ponto de vista oficial da oposição. Tal é a sua posição humana. Pode, afinal, o deputado ter sua própria opinião?

 
A oposição, provavelmente, tentará bloquear a tribuna - apesar de ter prometido não fazer mais isso. Em todo caso, ela será "contra", ou não votará.
É natural, haverão comícios, vovozinhas com lágrimas nos olhos. Caminhada à Administração Presidencial, ao Gabinete de Ministros: "Chega!", "Prezados amigos!", "Vergonha!" - Bem, toda essa retórica.
 
 

Os líderes da oposição precisarão "lutar" novamente.

Klychko usando camiseta branca, Yatseniuk com megafone, leituras públicas de carta aberta de Yulia Tymoshenko da prisão. Talvez até ovos e tomates voarão sobre os deputados "traidores". Este cenário até 18 de maio, quando o Conselho se reunirá. A votação procederá pelos risonhos regionais, comunistas satisfeitos e os vira-casacas, que rapidamente apertarão os devidos botões. E, depois disso - também questões previsíveis. Primeiro - criação do consórcio com a Rússia. Segundo - criação de uma empresa mista com a Rússia, que irá controlar  o "tubo" (GTS) e muitos outros ativos.
 
 

(da esquerda para direita): Yurii Boiko, Ministro de Energia e Indústria de Carvão da Ukraina; Olekssi Miller, presidente da administração do "Gazprom"; Euhenii Bakulin, presidente do Conselho de "Naftogaz" da Ukraina. 

Terceiro - Transferência do GTS à Rússia de acordo com o cenário da Bielorrússia, isto é, gratuitamente. Bielorrússia entregou seu sistema em troca de um desconto no preço do gás. Ukraina deverá receber um desconto e perdão de dívidas. Que dívidas? Lembremos como elas surgiram. Em 2012 o ministro da Energia intencionalmente não comprou a quantidade combinada de gás. Como no ano anterior. Mas, em 2011 Rússia supostamente perdoou Ukraina. Já em 2012 Rússia apresentou a penalidade - 7 (sete) bilhões de dólares. Mas, isso não é tudo. Estão entrando novas penalidades. Em 2013, já pelo terceiro mês (desde fevereiro) "Naftogaz" não compra gás da Rússia. O gás é comprado, através da empresa  do magnata Firtash, diretamente, através da bolsa de valores.
 

Yurii Boiko e Dmytro Firtash (no centro).

Em paralelo, o gás vem da Europa Ocidental. Ou seja, nosso país simplesmente não cumpre o contrato com a Rússia. E, de maneira atrevida coloca-se sob penalidades. Assim, os russos receberão o nosso GTS sem precisar pagar. E isto será através de mecanismo bastante astuto. E com o governo ukrainiano eles criarão o consórcio para gerir o GTS.
Mas o projeto de lei estabelece mais um mecanismo - o aluguel. (GTS necessita de consertos, reformas). E, quando o governo russo colocar no GTS algumas centenas de milhões de dólares, terá direito de tomar a propriedade - de graça ou por um valor irrisório.
Em qualquer caso GTS não será mais nossa. Isto, talvez, não seja problema - mas, então, coloquem GTS numa venda aberta, por que construir um mecanismo de entregá-la, gratuitamente, para Rússia?
Tal rendição flagrante de interesses nacionais precisa encobrir com algo. Capa para isto já foi encontrada. Ukraina vai receber, dígamos o preço "bielorusso" de gás - por exemplo, 165 dólares por mil metros cúbicos. E isto será considerado como grande conquista de Yanukovych. Primeiro. Com ela, é provável, ele irá às urnas em 2015. E, é claro,  nos perdoarão as multas. As que são desenhadas no ar, mas ainda sim... 7 bilhões de dólares.
Por tudo responderá... Stavytskyi?

 
O míope na situação com projeto de lei de entrega do GTS é o ministro de energia Eduard Stavytskyi. Ele não se cansa de demonstrar a capacidade de assumir pecados alheios. Também desta vez Stavytskyi assinou uma nota explicativa para o projeto de lei sobre privatização do GTS.
Se sabia ele o que assinava? Acreditamos que sim. Mas isso não o impediu. Pelo que nós o cumprimentamos.

1 - Este sistema transporta o gás russo para países europeus.
 
 
Tradução: Oksana Kowaltschuk

segunda-feira, 6 de maio de 2013

CHERNOBYL - 27 ANOS PASSADOS - II

Chernobyl - entrevista com Oleksii Sliussarenko

Vyssokyi Zamok (Castelo Alto), 26.04.2013
Natália Druzhliak
O ex-chefe do setor Nº 3, então responsável pelo exército químico "PrykVO" major-general Oleksii Sliussarenko passou 100 dias em Chernobyl. Seis vezes voltou para este inferno... . Hoje, depois de 27 anos da tragédia de Chernobyl, ele decidiu compartilhar suas memórias com os leitores de "Castelo Alto".
- Na noite de 25 para 26 de abril de 1986 aconteceu a pior catástrofe industrial da história da humanidade. Em decorrência de pessoal não qualificado em 40 minutos ocorreram 9 erros trágicos. Devido a forte queda da potência do reator RBMK-1000 formou-se uma forte queda de xênon-135 que, não antes de queimar "envenenou" o reator, o qual parou de responder ao comando. Houveram duas explosões. A primeira destruiu todo sistema de arrefecimento do reator. Durante a segunda explosão os gases do reator combinaram-se com oxigênio formando a "mistura explosiva". As explosões destruíram o prédio do reator e o teto da quarta unidade, - lembra Oleksii Sliussarenko. - No quarto houve incêndio. Foi jogado na atmosfera combustível radioativo. A nuvem radioativa cobriu parte do território da Ukraina, Bielorrússia, Briansk e Kaluga (Províncias russas).
- As autoridades, então, esconderam a verdade, o que realmente aconteceu em Chernobyl...
- Eu tenho em minha posse um memorando secreto do redator do jornal "Pravda", Volodymyr 
Hubarev do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, de 16.05.1986. De 3 a 9 de maio o jornalista esteve na região de Chernobyl. Eis o que ele escreveu sobre a evacuação de Prypiat: "Dentro de uma hora se conhecia a radiação na cidade. Nenhuma ação no caso de uma emergência foi prevista. As pessoas não sabiam o que fazer. A decisão sobre a retirada da população da zona de perigo deviam tomar os líderes locais. Ninguém assumiu a responsabilidade. Os suecos, no início, retiraram as pessoas e somente depois constatou-se que o vazamento não era em sua área. Nos trabalhos em áreas de risco (dentro de 800 metros em torno do reator) os soldados não usavam equipamentos de proteção.
 
"Após a explosão eu telefonei a Moscou. Me tranquilizaram - em Chernobyl surgiram... pequenas falhas".
 - O senhor trabalhou em Prypiat chefiando as tropas do exército químico da região. Como foi o primeiro dia após o acidente?
- Planejei liberar meus oficiais para casa e, de repente, o telefone vermelho tocou. Era o comandante do distrito. Ordenou ir vê-lo. Eu devia enviar imediatamente as tropas da célula 144 para liquidação do acidente em Chernobyl. Fui nomeado responsável pela remessa. Orientações mais específicas devia obter da gestão de tropas químicas do Ministério de Defesa.
Ainda pela manhã soube dos operadores de plantão, que houve explosão de reator em Chernobyl. Telefonei para Moscou. Foi me dito, de forma evasiva, que surgiram pequenas falhas, detalhes - desconhecidos.
Depois de hora e meia unidades de reconhecimento de radiação já voavam em aviões de transporte pesado para Chernobyl. Outros dois escalões deviam ir pelo transporte ferroviário - das estações Sinna e Prychernaky. De Sinna o trem partiu na hora certa, mas com a estação Prychernaky não havia comunicação. Moscou exigia: "Enviar rapidamente!" Dos vários departamentos do Estado-Maior seguidamente telefonavam, gritavam e ameaçavam: "Enviem rápido",  "Demitiremos do cargo e entregaremos aos tribunais". Decidi pedir ajuda a um antigo amigo - comandante de uma unidade em Shukhanakh (Centro de treinamento de exército químico, coronel Basílio Sazhyna). Era uma hora da madrugada. Após 40 min. ele informou que as subdivisões estavam prontas, aguardando em colunas. A estação já ofereceu dez plataformas. O restante está em reforma porque é antigo. Pedi ao amigo para auxiliar nas reformas. Pela manhã o trem partiu para Chernobyl, com equipamentos e bens.
- Compreendia o perigo para os liquidadores?
- Sabia, que sem vítimas humanas não acontecerá. Se o Estado-Maior envia uma unidade móvel para o resgate, a situação está ruím... Após duas semanas começaram voltar os oficiais. Alguns estiveram no local da catástrofe algumas vezes. Comentavam sobre a inadequação dos instrumentos de dosimetria, que conhecimentos estavam muito aquém da prática. Eu decidi ir para Chernobyl. Na primeira reunião da liderança do conselho dirigi-me ao comandante. "A maioria dos meus oficiais esteve lá. Somente o comandante não esteve. Não tenho direito moral de dirigir as pessoas que não se esquivaram da execução da ordem, mesmo sabendo, que receberão doses perigosas de radiação". Por duas vezes me negaram. Mas, finalmente, o comandante escreveu a resolução. Fui enviado para dez dias a Chernobyl. 
 
Em vez de robôs para recolher detritos radioativos quentes enviavam soldados.
 
- Que quadro o senhor encontrou ao chegar?
- A explosão destruiu o telhado e as paredes do reator. A tampa de metal pesando várias centenas de quilogramas praticamente pairava no ar. Uma das extremidades da viga, sobre a qual apoiava-se a tampa balançava. O suporte estava destruído. Se a viga e a tampa caíssem, causariam mais destruições. O reator irradiava brilho diabólico. De sua cratera voavam pedaços de urânio, grafite e chumbo derretido que, misturado com combustível nuclear também tornou-se radioativo.
No telhado agitavam-se pessoas, em roupas protetoras e respiradores - com pinças coletavam detritos quentes... Entramos nas instalações do quarto bloco. Neste momento, quatro soldados preparavam-se para o próximo "raid". O oficial instruía: "Subam pela escada para a linha de saída - e correndo até o pedaço quente. Pegaram - e para trás! Rapazes, Pátria exige de vocês apenas um minuto de bravura. Em frente!" E eles foram executar a tarefa...
Na sala ao lado meu pessoal limpava os sistemas de ventilação de radionuclídeos. Temperatura - 40-50°C. Nos rostos - respiradores, pernas-em meias de proteção. Roupas - molhadas de suor, mas trabalhavam concentrados. Perguntei o que eles necessitavam, com o que poderia ajudar. Em resposta ouvi: "Queremos fazer o trabalho rápido - e para casa. Seria bom, que não fossem os soldados recolhendo os pedaços radioativos, mas os robôs, porque em um dia de trabalho recolhemos até 5 "ber" (cada "ber" equivale ao raio de Roentgen, a uma dose de sua irradiação).
Minha atenção foi atraída para um soldado que estava sentado no chão. Apoiando os cotovelos sobre os joelhos, olhava fixamente para um ponto. "Por que você entristeceu, rapaz?" - pergunto. "Penso, que aqueles cientistas que inventaram a energia nuclear, e depois aqueles que propuseram este método de liquidação das consequências da avaria, precisariam ser queimados na fogueira", respondeu. Todos se entreolharam...
- Como realizava-se a descontaminação?
- Soldados vestidos com roupas de proteção, máscaras e respiradores, lavavam as paredes e telhados. Buldôzers cortavam uma camada de 10-15 centímetros de terra, reuniam em montes, escavadeiras carregavam-na nos caminhões basculantes e transportavam-na para os enterros. As coberturas de palha substituíam com ardósia, nos pátios cortavam árvores, removiam a cerca contaminada. Os almoços eram entregues nos locais de trabalho pelos oficiais. Todos os produtos estavam cobertos pela película. Antes da entrega do alimento procediam à descontaminação do local - removiam uma camada de solo, lavavam as mesas, bancos, louças. Todos deviam lavar as mãos e o rosto. Depois do almoço trabalhavam até bem tarde. Mais difícil era para os que desempenhavam o serviço de inteligência - seu dia começava às quatro da manhã, o desjejum e o almoço eram nas áreas radioativas. Mesmo à noite quando voltavam para seus alojamentos eles precisavam limpar o equipamento da sujeira e lavá-lo até ficar "limpo" de radionuclídeos. Nenhum carro era colocado no parque se não fosse aprovado no monitoramento da radiação.
 
Aos liquidantes removiam até vinte garrafas de vodka - as pessoas acreditavam que o álcool reduzia o efeito da radiação.
 
- Verdade, os militares começaram a abusar do álcool?
 
- Alguém começou a espalhar boatos de que o álcool remove radionuclídeos, reduz o efeito da radiação sobre o corpo. Por isso muitos subtenentes, soldados e oficiais começaram a olhar para o cálice. O comando começou a verificar cuidadosamente o conteúdo dos carros, depois da volta de viagem. Houve carros em que 10-20 garrafas eram removidas. Os soldados começaram esconder as garrafas nos arbustos, nas proximidades dos acampamentos. Depois iam buscá-las, traziam às barracas e bebiam.
 
- O senhor é químico de profissão. Explique, por favor, como a radiação age sobre o organismo.
- O reator jogou no ar cerca de duas centenas de elementos radioativos com meia-vida, do momento a 30 anos ou mais. Os mais assustadores dos radionuclídeos são iodo-131, césio-137 e estrôncio-90. O iodo afeta a tireóide, o césio e estrôncio - todo o corpo, especialmente o fígado, o baço, os pulmões e os músculos. Todos eles destroem a médula óssea, a qual produz o sangue. Um organismo vivo é composto de proteínas, hidratos de carbono, gorduras e 65% de água. 
As moléculas dessas substâncias formam células, que são unidades estruturais de matéria viva. A radiação ioniza as moléculas nas células, levando a uma ruptura do metabolismo e outros processos, formando ativos elementos tóxicos, pode causar mudança na hereditariedade. Mas a ciência soviética não estudou as transformações que ocorrerão com a pessoa através de 5-10 anos depois da radiação. Nem os pesquisadores, nem o governo pensava sobre o que aconteceria com a nossa nação no futuro, como serão os nossos descendentes. Ao poder interessava apenas em saber qual é o efeito da radiação sobre os seres humanos durante uma semana ou um mês.
 
- Muitos cientistas afirmam - Chernobyl paira sobre nós como a espada de Dâmocles. A cobertura do "sarcófago" - é insegura...
 
- O sarcófago cobriu completamente o reator e, assim, eliminou o perigo de subsequente destruição do bloco gerador de energia e esparramamento de restos de combustível nuclear. Para evitar um excesso de pressão no telhado, entre as placas deixaram fendas. Através delas, o reator "respira", jogando no ar a próxima parcela de radionuclídeos. Antes da construção do sarcófago não previram aberturas e nichos para sensores que monitorariam o controle de temperatura, pressão, níveis de radiação, bem como outros dispositivos que informariam sobre a "vida do reator. Para essa construção sem par trabalhou o país inteiro. Estranho que após a construção, um dos policiais ordenou colocar no topo do sarcófago uma bandeira vermelha. O soldado que realizou esta ordem, ficou gravemente doente...
 
Tradução: Oksana Kowaltschuk


domingo, 5 de maio de 2013

CHERNOBYL - 27 ANOS PASSADOS

"Naquele dia em Prypiat havia dois casamentos..."
Vyssokyi Zamok (Castelo Alto), 26.04.2013
Natália Druzhliak
O coronel da milícia Anatoli Talalai, em 1980-1983 chefiava o Departamento dos Assuntos do Interior do município de Prypiat. A tragédia de escala global desenrolou-se diante de seus olhos. Quando explodiu o quarto reator Anatoli Talalai permaneceu em Preypiat, enquanto não evacuou o último residente. Lá, ele perdeu a saúde.
Quando o reator explodiu, os moradores acorreram para ver o "assustador fogo de artifício". A coluna de fogo atingiu 300 metros de altura, e apagar as chamas conseguiram apenas no oitavo dia. Será possível que não pensavam nas consequências?
O reator "ribombou" com tanta força, que despertou todos os habitantes de Prypiat (94 quilômetros de Kyiv, próximo a fronteira da Bielorrússia). Porquanto 85% dos moradores trabalhavam na usina, cada um correu para dentro do reator em que trabalhava. Ao quarto reator também apressou-se a equipe de construção (cerca de 250 pessoas). Sobre a segurança ninguém pensava. Quando retiravam, manualmente, os queimados, as pessoas decidiam que eles se envenenaram com monóxido de carbono. Reconsideraram, quando começaram perceber que a pele enegrecia e sangue começou a sair pelo nariz, boca, olhos (forte dose de radiação mata as células vermelhas e o sangue, perdendo a capacidade de coagulação jorra como água da torneira). As ambulâncias começaram levar os afetados ao hospital. Após algumas horas de radiação ficaram impressionados não apenas os observadores da explosão, mas também toda equipe médica.
Até o meio dia do dia posterior vítimas de doenças da radiação já eram muitos moradores de Prypiat. Todos eles morreram dentro dos próximos quatro meses. No relatório do Presidente da Comissão do governo da URSS, Borys Shcherbyna sobre isso - nem uma palavra. Gorbachov, falando na TV, somente depois de 20 dias informou que morreram 7 pessoas e 290 ficaram feridas. Do hospital precisaram dispensar todos os doentes, porque não havia onde colocar as vítimas da explosão de Chernobyl!
- As pessoas não entendiam o que estava acontecendo?
- Sobre o incêndio na Usina Nuclear de Chernobyl falavam, mas pensavam que o apagariam rapidamente. Pânico semeavam certas pessoas. O superior da Clínica Médica-Sanitária Volodymyr Pecherytsia sozinho tomou a decisão de distribuir comprimidos de iodeto de potássio nas escolas e jardins de infância (os comprimidos eram grandes, nem toda criança conseguia engoli-lo). O primeiro secretário do Comitê do Partido de Prypiat Aleksandr Haman propôs destituir o médico do cargo por arbitrariedade, porque sua decisão provocou pânico.
-Para eliminação das consequências de Chernobyl enviavam como prá guerra...

-O coronel Oleksii Mishchuk, comandante de parte das tropas de Kyiv, contava, como depois de uma semana da explosão lhe telefonaram da sede do exército e deram todas as instruções - mandar para reator nuclear para 10 dias, centenas de soldados e dois oficiais. Ele exigiu ordens escritas. A o que lhe responderam: "E isto é o quê? Este ´´e o dispositivo. Dê a ordem, mas não liste nomes!" E assim ele fez. Ele listou apenas os nomes dos dois oficiais, centenas de soldados foram como incógnitos. O coronel, por seis vezes mandou uma centena de soldados para eliminação dos efeitos da explosão do quarto reator. E eles, com pá e vassouras limpavam o telhado da terceira unidade, dos detritos. Depois de dois meses começaram a ficar doentes. Os médicos diagnosticavam diferentes graus de doenças de radiação, mas nos documentos escreviam outras doenças. Os soldados eram demitidos do serviço prematuramente e enviados para casa. Depois veio a ordem do estado-maior: "Comandante Mishchuk e seus oficiais enviar para aposentadoria, soldados para casa" Nenhum recebeu atestado em mãos que participou da liquidação da catástrofe. Quando, posteriormente, dirigiam-se com queixas a várias instâncias: promotores de justiça, tribunais, eles eram enviados ao Ministério do Interior. Resposta - tal unidade militar não existe, os arquivos não foram preservados.
Os pilotos dos helicópteros, que cobriam o reator com estanho, chumbo e areia, e o inundavam com água e concreto, trabalhavam sem proteção. Estes pilotos, em seguida, foram envolvidos no desvio de água de Prypiat e outros rios, do ar e do solo para análise e pesquisa. Os que trabalhavam com buldôzer, motoristas e massas de pessoas de diversas profissões, trabalhavam sem nenhuma proteção. Metade deles morreu devido a doenças da radiação. Metade - de leucemia...
Depois da tragédia de Hiroshima e Nagasaki passaram-se 66 anos, mas até agora nascem crianças e animais com defeitos físicos característicos das doenças de radiação. As explosões no quarto bloco, segundo o nível de contaminação radioativa equivale a 100 Hiroshimas! O diretor do Instituto de Óptica Física, Professor Orestes Vlokh disse certa vez que na parte inferior do destruído quarto bloco de energia permaneceram quase 200 toneladas de combustível nuclear. A reação em cadeia não controlada possivelmente, ainda pode estar em curso. Porque o elemento químico, cessando na condução de calor, não cessa sua radioatividade. Será que os representantes do poder não sabem disso, se atrasam a construção do novo sarcófago?
- Mas o quê você se preocupa com eles? Se novamente houver problemas, fugirão para exterior. Prefeito e primeiro secretário do município de Prypiat, sabendo da explosão às 03:00 horas, pessoalmente, nos próprios carros, às 06:00 horas da manhã levaram sua família para Kyiv. Aos seus vice avisaram, que "afastavam-se por uma horinha ou duas", para pessoalmente relatar aos chefes sobre o acidente, e obter instruções sobre como proceder. Mais tarde, convocaram para Kyiv os carros da frota municipal e voltaram para Prypiat. Nas primeiras horas críticas estavam ausentes! "Liquidava" as consequências da catástrofe o vice-prefeito - contador por formação. Entre outros fugitivos matutinos estava o chefe da ATP (Empresa de transporte rodoviário). Como saiu da cidade no sábado pela manhã, nem neste dia, nem no dia seguinte, ninguém o viu.
 
- As pessoas comuns permaneciam, porque não tinham informações confiáveis sobre a situação?
 
- E a quem falavam? Naquele dia, em Prypiat comemoravam dois casamentos. No rádio havia música o dia todo. No programa informativo "Chas" (Tempo) sobre o acidente nada foi dito. A Central Telefônica Automática foi desligada. A cidade foi cercada, foi ordenado não liberar ninguém. Na reunião geral do Partido Comunista e Administração Geral da Empresa Atômica de Chernobyl, que aconteceu no dia 11.05.1986, depois dos oradores estatais usou da palavra o "não planejado" trabalhador comum Tribushchenko. Ele perguntou aos dirigentes da cidade, à chefia da usina nuclear, ao secretário do Comitê Regional do Partido: "Por ordem de quem as esposas, filhos e pais foram mantidos por vários dias na cidade infectada? Por que os entendidos tiveram medo de dizer a verdade?" Ninguém dos presentes respondeu.
 
- Evacuação iniciaram 30 de abril.
 
- Mentiras! 38 mil moradores - aonde tantas pessoas alojar, como alimentar? (Mas não era a União Soviética que provia a todas as necessidades de sua população? - OK). O vice-presidente do Conselho de Ministros da Ukraina, Borys Shcherbyna insistia em que as pessoas fossem evacuadas não depois de 30 de abril. A evacuação real começou apenas no dia 3 de maio. Em 1 de maio tangeram as pessoas ao Kryshchatyk (principal rua de Kyiv) para comemorações, Gorbachov insistiu. Sherbytskyi levou ao pódio seu neto para mostrar que não havia radiação na Ukraina. Ninguém sabia para onde levar as pessoas. No dia 2 de maio chegou a Kyiv uma delegação de Moscou - Sylayev, vice-presidente do Conselho de Ministros da URSS, Ryzhkov, presidente do Soviete Supremo da URSS, Lihachov, secretário do PCUS. O presidente de Planejamento do Estado da Ukraina. Masol levou-os a Chernobyl (note bem, não para Preypiat, local do quarto reator). Lihachov insistiu na evacuação da população da cidade - primeiro as crianças. Propunha-se levá-las a 30 quilômetros de Prypiat. No sábado, 3 de maio, os funcionários ocupavam-se com a procura de transportes. No domingo ... descansavam. Tudo isto está registrado no diário do presidente do Conselho de Ministros da Ukraina Oleksandr Liashko, uma das pessoas de confiança de Shcherbytskyi. Interessante: anotações nos dias 26 e 27 de abril não há. "Mas nós não sabíamos, ninguém nos chamou na casa de campo", - justificava-se. Que mentira! Para quê, num sistema comuno - kadebista rígido - não informassem Shcherbytskyi? Outra questão, é que os dirigentes ukrainianos sem Moscou não tinham direito de tomar providências - informar as pessoas, ou tomar medidas.
A Gorbachov e Shcherbytskyi relataram o acidente, mas não contaram toda a verdade. Em 28 de abril Shcherbytskyi convocou o chefe do Comitê Estadual de Radiologia da Ukraina e perguntou qual a dose de radiação permitida para o ser humano. O outro respondeu: "Uma vez - 5 milliroentgen".  Shcherbytskyi franziu a testa: "Você responde por suas palavras? Você sabe, o que lhe acontecerá, se der informações falsas?" O interrogado acenou com a cabeça. "Então por que eles dizem, que uma dose de 50-100 milliroentgen por hora, é segura!". "Mentem, - disse o estudioso. - Única 5, no ano - 40-50 (e não aguentam todos). Se for superior - doenças de radiação vem", Shcherbytskyi ligou para Moscou e começou a xingar alguém pelo telefone.
- Os meios de comunicação da Europa anunciavam sobre a radiação da Ukraina, mas o governo soviético - silenciava...
 
- Na novela de Alla Yaroshenska "Chernobyl. Grande mentira" publicado um trecho de documento com grifo "Completamente secreto" - transcrição da reunião do Politburo - Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética de 29.04.1986. Esta foi a primeira reunião, na qual se abordou a questão de Chernobyl. Estavam presentes todos os membros do Politburo. Primeiro decidiam que informações dar. Gromyko propôs para dar informações aos países irmãos, Washington e Londres - até certo ponto, e aos embaixadores soviéticos - explicações correspondentes. E isto - pessoa, compara as consequências de Chernobyl com "consequências de pequenas guerras"! "É razoável dar três informações: para nossa população, para os países socialistas, também para Europa, EUA e Canadá. À Polônia podemos enviar uma pessoa" - manifestou-se Ryzhkov. "É importante destacar na informação que explosão nuclear não houve, mas houve apenas um vazamento de radiação em resultado da avaria", - acrescentou Zimianin. A "verdade" foi colocada apenas aos "sacerdotes". A "plebe" convenciam que "à saúde das pessoas nada ameaça", - escreve Yaroshenska.
 
Tradução: Oksana Kowaltschuk

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quinta-feira, 2 de maio de 2013

VULGARIZAÇÃO DA SOCIEDADE UCRANIANA

Tyzhden (Semana), 07.04.2013
Bohdan Butkevych
 
Sociólogo Yevhen Holovakha (FOTO): "No topo da hierarquia social ukrainiana estão os mais vorazes, mais amorais e as mais vis pessoas".
A vulgarização da sociedade ukrainiana tem uma série de razões. O nível de orientação cultural da assim chamada elite que transmite-se para toda população é surpreendentemente baixo.
 
 
Não menos importante papel no declínio social ao fundo intelectual desempenhará o fato que hoje sua face define a geração de "autênticas pessoas soviéticas". Além disso, os ukrainianos até agora se equilibram além dos limites de qualquer sistema sócio-cultural estabelecido, o que leva a perda de correspondentes atitudes básicas. Sobre estes processos "Semana" conversou com o vice diretor do Instituto de Sociologia da Academia Nacional de Ciências da Ukraina, uma das principais autoridades sociológicas ukrainianas, Yevhen Holovakha.
 
LIVRE & POBRE
Agora nós nos encontramos bem no centro do deserto intelectual. Quando ocorre, sistematicamente, o extermínio e a intimidação de pessoas livres, o resultado mais triste nem mesmo é o fato de que a nação está perdendo sua capacidade intelectual, mas muito pior é que matam o seu espírito. Paradoxo, mas eu me convenci, que a função essencialmente intelectual revive novamente. Talvez devido ao fato que no nível genético a humanidade, apesar de tudo, ainda é capaz de manter-se. Com efeito, após inúmeros genocídios intelectuais na União Soviética, nos países que faziam parte deste estado, nasciam muitas pessoas talentosas, mas na maioria em uma área particular. Infelizmente, hoje na Ukraina em vez de intelectuais, nos primeiros papéis estão os herdeiros do genocídio intelectual. Eles não são estúpidos, simplesmente de modo algum pretendem a qualquer liberdade. Estas pessoas simplesmente não entendem como se pode resistir às regra s do jogo impostas pelo governo.
 
Quer tornar-se livre - prepare-se para ser pobre. Surge a pergunta, como é que nesse estado poderemos sobreviver, porque a maioria das pessoas, como mostra a estatística,  não é capaz de viver com o sentimento constante de humilhação e inferioridade, quando você sabe que tudo está errado, mas participa nisto. O fato de que o atual sistema realmente requer baixas qualificações e gostos, e apela para isso. No entanto ele não exige de cada cidadão para servi-lo. Este não é um sistema stalinista onde, ou você servia, ou lhe destruíam. Hoje ninguém lhe obrigará. No entanto, lhe darão o lugar que corresponde a seus gostos morais e culturais. Mas, sem a perspectiva de crescimento financeiro e de carreira. Existem professores honestos que não pedem subornos e vivem com suas duas mil UAH. Também há médicos que tratam sem pagamento adicional e recebem apenas o pagamento no limite de sobrevivência física. E, há aqueles que recebem, ou até pedem subornos e dormem tranquilamente. Essa é a nossa realidade esquisita, cada um na sua. 
 
A sociedade ukrainiana é igual em direitos apenas nas palavras, mas na realidade ela não é tratada com equidade. O processo de criação da pseudo aristocracia feudal acontece ativamente nos últimos dez anos. Embora os patrícios na Roma antiga não eram eleitos, nossos altos funcionários, que supostamente ocupam suas posições temporariamente, cada vez mais se assemelham a aristocracia hereditária. Apesar de que quanto ao nível cultural eles sejam plebeus, governam com todos os recursos e de sua vontade depende tudo neste país. Dirijam sua atenção: do presidente até o nível do promotor distrital, eles transferem os próprios privilégios, riqueza, e o mais importante - a impunidade a seus filhos. 
Os governantes atuais - são pessoas muito pequenas. Sua filosofia - o utilitarismo, e nas formas especialmente mundanas. Eles consideram, que de tudo devem obter rápidos proveitos e benefícios. Como, se seus diretos e próximos benefícios não há, então para que tudo isto é necessário? Embora, é importante notar que não menos sintomática é a tendência mundial à perda da influência de intelectuais, que agora são necessários apenas como profissionais especializados em suas estritas áreas.
"Pão e circo". Nossos "patrícios" absolutamente não se aproximam em suas capacidades pessoais aos originais romanos, mas em termos de observância do princípio fundamental de controle de plebeus fazem tudo o que é necessário. Além disso, o seu papel desempenhará a atual cultura "mosaica" que enraiza nas pessoas a superficialidade. Especialmente falamos sobre televisão e internet, visto que em 1991 o povo soviético recebeu vasto arsenal de canais de mídia, anteriormente impossível. Mas o hábito à submissão desempenhou seu papel, porque a maior parte de nossos concidadãos aceitam tudo pelo princípio da superficialidade: o que aparece diante dos olhos, é verdadeiro. E, na superfície desses recursos há mais explícito lixo e, para cavar mais fundo até as camadas da verdadeira cultura, as pessoas comuns geralmente não sabem.
A elite ukrainiana não entende, que numa sociedade igualitária as classes dominantes se recusam de consumo demonstrativo. Em nosso país, pelo contrário, quem está no poder obtém satisfação pela diferença de riqueza e status quo entre eles e pessoas comuns. Lembre apenas os relógios usados pelos nossos deputados, juízes ou procuradores.
Em plebeus morais - nenhum dispositivo de segurança. O mecanismo de crescimento social no Ocidente é muito complexo. No nosso caso é bem simples: é suficiente apenas uma vez chegar ao lugar e à pessoa certa e agradar - e mesmo que você seja medíocre, preguiçoso e burro, se você é absolutamente sem escrúpulos e disposto a fazer tudo o que o chefe diz, então o lugar sob o sol é garantido. Exatamente por isso no alto de toda nossa hierarquia social encontram-se as mais vorazes, as mais amorais e as mais vis pessoas. Isto acontece porque as pessoas mais ou menos intelectualmente livres e honestas tem muitas limitações: aqui não pode, você perde a consciência; lá não pode porque se perde a dignidade, etc.
O mecanismo de inércia social apoderou-se da Ukraina. Criativos mecanismos sociais somente são possíveis se implementados por pessoas criativas. Mas onde está esse empreendedor criativo nas atuais pessoas essencialmente soviéticas que, essencialmente reproduzem o único possível e conhecido mecanismo - de pessoa mutilada espiritualmente com o sistema totalitário? E isto na quase completa ausência de intelectuais livres que transmitiriam outros valores. Nossa sociedade encalhou entre as fases industriais e pós-industriais. Estamos marginalizados porque não sabemos o que fazer. Rússia, na luta com sua igual marginalidade foi pelo caminho de completa restauração da sociedade soviética. E, através de seus meios de comunicação, de interminável reconstituição do passado erôneo transmite à Ukraina o que tem um impacto muito negativo.
A prática de lazer ukrainiano tornou-se muito passiva. E, em geral, quase em todos os indicadores de desenvolvimento material e espiritual da sociedade, verifica-se uma tendência negativa. As pessoas pensam cada vez menos, elas querem ser entretidas. Ao mesmo tempo verifica-se a queda do consumo de alta cultura: teatro, museus, concertos de música clássica. Compreensível, isto está relacionado com o nível material da maioria dos cidadãos, mas a tendência é bastante desagradável. Mas o mais assustador na sociedade ukrainiana é o índice da leitura. Ele simplesmente assusta. Pois nos primeiros lugares escritores russos, que escrevem maciçamente sobre detectives, isto é, a leitura cultural está completamente perdida.
Na URSS bebiam de desespero, e a nossa sociedade marginal bebe devido a incerteza pelo futuro.
Significativo é o fato de que o álcool é muito mais consumido nas regiões orientais, onde o experimento da construção da pessoa soviética avançou mais do que no Ocidente. Embora para todas as regiões da Ukraina é característica esta fuga para o álcool como um meio de superar os seus desiquilíbrios internos.
Desconfiança geral preventiva - principal característica do sentimento público na Ukraina. Todos não confiam em todos: governo gangster, maus vizinhos, funcionários corruptos, médicos corruptos, etc. O ukrainiano comum considera todos os demais corruptos, a si - em nenhum caso. Esta situação é típica a uma sociedade à beira do abismo. Também a procura do culpado é muito peculiar à psicologia marginal. É por isso que os ukrainianos facilmente submetem-se ao esquema manipulador: "ruim-bom". Por isso nosso país não está assegurado contra autoritarismo.
É necessária a reorientação de segmentos inteiros da sociedade para classe média e pequena empresa. A sua maior chance Ukraina perdeu realmente a 20 anos atrás, quando na onda da prontidão da maioria das pessoas às grandes mudanças poderia e deveria ser executada a terapia de choque, como na Polônia. No entanto, então a nomenclatura partidária e intelectuais de categoria soviética não seguiram esse caminho. Mas nós, ainda chegaremos a isso.
Sair do pico da vulgarização auxiliarão a mudança de gerações e novas tecnologias. Quanto mais houver pessoas que não viveram na sociedade soviética e não conheciam o seu mecanismo, mais rapidamente acontecerão as mudanças. Sim, infelizmente, o mecanismo de retransmissão  de valores entre as gerações assim mesmo vai agir, estas novas gerações conservarão em alguns aspectos o cinismo da época atual. E aqui, a propósito, o utilitarismo deve desempenhar um papel positivo, porque os jovens cínicos perceberão, que viver assim, como na Europa, é simplesmente mais confortável e racional. Muito importante para a fratura social deve tornar-se o regime de visto livre com UE, o qual auxiliará à maioria da população da Ukraina obter mais experiência de outro tipo de vida e organização da sociedade.
 
Tradução: Oksana Kowaltschuk