domingo, 2 de março de 2014

PUTIN vs POVO DA UCRÂNIA


Ukrainska Pravda (Verdade Ucraniana)

Domingo, 2 março, 2014 , 10:58

Parlamento realiza reunião de emergência a portas fechadas.

Segurança Nacional e Conselho de Defesa da Ucrânia decidiu colocar as forças armadas da Ucrânia em prontidão de combate completo. Homens ucranianos começaram a ser chamados de viyskomativ.

sábado, 1 de março de 2014

SINAIS DE GUERRA NO MAR NEGRO

A intervenção russa na Crimeia põe gravemente em causa um tratado internacional.

As movimentações militares russas na Crimeia, com aprovação do Parlamento russo e a pedido do Presidente Vladimir Putin são mais graves do que aparentam. É certo que há um passado que as sustenta e um presente que finge dar-lhes cobertura. A Crimeia, hoje parte da Ucrânia, já foi governada pela Rússia (no tempo do comunismo e da URSS) até que Kruschov decidiu transferi-la para a República Socialista da Ucrânia como gesto comemorativo da antiga união (ou anexação) da Ucrânia à Rússia. Com a queda do comunismo, a Ucrânia manteve a Crimeia sob sua jurisdição, apesar de ali continuar sediada, por acordo mútuo, a frota russa do Mar Negro. Não foi o único acordo firmado entre a Rússia e já independente Ucrânia: a Ucrânia aceitou abdicar do seu arsenal nuclear (o terceiro maior do mundo) sob compromisso, não só da Rússia mas também dos Estados Unidos e do Reino Unido (no memorando de Budapeste), de serem respeitadas “a independência, a soberania e as fronteiras existentes da Ucrânia”.

Ora essas fronteiras incluíam a Crimeia, península com 26 mil quilómetros quadrados e 1,9 milhões de habitantes, uma pequena parte da Ucrânia (com 603 mil quilómetros quadrados e 44,6 milhões de habitantes) mas, segundo o memorando de Budapeste, parte inalienável do resto do país. À semelhança do que se passou na infame invasão de Praga de Agosto de 1968, o avanço militar russo na Crimeia também invoca um pedido “de dentro”, dos habitantes da Crimeia que receiam ser atacados pelas forças de Kiev e do próprio presidente ucraniano Yanukovych, em lugar incerto mas sob protecção clara da Rússia. Mas, ao pôr em causa as fronteiras do país, pondo a Crimeia sob jurisdição, ainda que provisória, da Rússia, põe também em causa um tratado internacional que envolve, como já si disse, duas potências ocidentais: os EUA e o Reino Unido. Este cenário, se os russos levarem por diante a intervenção e se fosse levado à letra o texto do acordo, seria pretexto para uma guerra à escala internacional, na qual os contendores procurariam aliados naturais ou de conveniência e poderia desembocar num desastre.

Já houve uma guerra da Crimeia, envolvendo a Rússia, a Inglaterra, a França e os impérios Otomano (hoje Turquia) e Austríaco. Durou dois anos, de 1854 a 1856, e no final o czar Alexandre II, da Rússia, ficou proibido de manter forças navais no Mar Negro. Cem anos depois, o império comunista que sucedeu ao dos czares já instalara no Mar Negro a sua frota. E a Rússia que se ergueu do pós-Perestroika ali as manteve, na Crimeia, onde hoje se medem forças e se arrisca um conflito sério. As elites russas conhecem a sua história e não repetirão erros do passado. Logo, uma guerra da Crimeia não terá lugar. Mas há coisas o mais certeiro racionalismo não pode prever. E o desvario humano é uma delas.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS DA UCRÂNIA

Putin recebe autorização do Parlamento russo para enviar tropas para a Crimeia.

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Intenção é "proteger cidadãos da Federação Russa". Embaixador russo nos EUA vai ser chamado a Moscou. [Esses russos, além de mentirosos e psicopatas belicistas são dissimulados: dão o tapa, escondem a mão, se jogam no chão e pedem maca - O Cossaco]
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Vladimir Putin pediu à câmara alta do Parlamento russo que aprove o envio de forças armadas para a Crimeia, na Ucrânia, anunciou o Kremlin. O Senado russo vai ainda pedir ao Presidente que chame de regresso a Moscou o embaixador nos Estados Unidos.

Países ocidentais alarmados com envolvimento russo na Ucrânia

Chefe da diplomacia britânica classifica ação militar como “ameaça potencialmente grave para a soberania" ucraniana. Conselho de Segurança reúne-se na noite deste sábado. Ministros da UE concertam posições na segunda-feira.

Já depois de conhecido o pedido para envio de tropas para a Ucrânia feito ao Parlamento russo pelo Presidente, Vladimir Putin, o Reino Unido pediu uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a segunda em dois dias, a realizar na noite de sábado. E os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia marcaram encontro para segunda-feira em Bruxelas. Citado pela agência ucraniana Interfax, Andry Deschitsia, ministro interino dos Negócios Estrangeiros do novo poder em Kiev, anunciou na tarde deste sábado que também a NATO, Aliança Atlântica, marcou uma reunião especial sobre a Ucrânia para segunda-feira.

“Inquietação” foi uma palavra repetida por outros líderes ocidentais, caso da chanceler alemã, Angela Merkel, segundo a qual “tudo deve ser feito para preservar a integridade territorial” da Ucrânia. A chefe do governo de Berlim confirmou que tanto ela como “muitos outros” dirigentes ocidentais têm estado em contacto com Putin e com os novos responsáveis do governo de Kiev.

Também o Reino Unido e a França e manifestaram a sua preocupação. O chefe da diplomacia britânica, William Hague – que tem prevista para este domingo um deslocamento à Ucrânia para contatos com a nova liderança – disse que a autorização do Parlamento russo para uma ação militar é “uma ameaça potencialmente grave para a soberania da Ucrânia”.

 Putin declarou guerra à Ucrânia

Neste sábado (01/03), Putin declarou guerra à Ucrânia. Na primeira manhã o auto-proclamado primeiro-ministro da Criméia Sergey Aksenov apelou para o presidente russo, Vladimir Putin para auxiliar na manutenção da paz e tranquilidade na Criméia. Nas eleições para o Conselho Aksenov recebeu apenas 4% dos votos e apenas três assentos parlamentares.

WEBCAST AO VIVO: INVASÃO RUSSA NA CRIMÉIA

2.000 soldados russos invadiram a Criméia e bloquearam o acesso ao aeroporto militar ucraniano de Belbek. A diplomacia russa só conhece duas linguagens: a dos tanques e a dos fuzis. São especialistas em espalhar o terror e o caos pelo mundo.
O Cossaco.

Nota: O vídeo pode apresentar alguma instabilidade momentânea.
 

Veículo militar não identificado bloqueia acesso ao areoporto militar ucraninano de Belbek, na Crimeia VASILIY BATANOV/AFP

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Governo interino da Ucrânia acusa Rússia de “invasão armada” na Crimeia



PÚBLICO 28/02/2014 - 08h44min (atualizado às 12h37min) 


Ucrânia pede extradição de Yanukovych e emite mandados de captura para dez ex-dirigentes políticos.


O ministro interino do Interior da Ucrânia acusou as forças russas de “invasão armada” depois da ocupação de dois aeroportos na região da Criméia.

Membros de uma milícia pró-russa ocuparam esta sexta-feira de manhã parte do principal aeroporto da província. As autoridades ucranianas dizem ainda que forças militares russas bloquearam o aeroporto militar de Sebastopol, a cidade portuária onde a Rússia tem a sua Frota do Mar Negro estacionada. Os russos negam qualquer envolvimento: "Nenhuma unidade da Frota do Mar Negro avançou para o aeroporto, muito menos participa em qualquer bloqueio", diz um porta-voz.

“Considero o que se está a passar uma invasão armada e uma ocupação que viola todos os acordos e as normas internacionais”, escreveu o ministro Arsen Avakov na sua página de Facebook.

Ao início da tarde, as autoridades ucranianas voltaram a controlar os aeroportos, afirmou o diretor do Conselho Nacional de Segurança, Andrei Parubi. "Houve uma tentativa de tomada dos aeroportos de Simferopol e de Sebastopol, mas voltaram agora ao controle pelas forças de segurança ucranianas", revelou Parubi.

Entretanto, o chefe das Forças Armadas, Yuri Ilin, foi demitido pelo Presidente interino, Oleksander Turchinov, segundo a BBC. Ilin foi nomeado ainda por Viktor Yanukovych durante os confrontos de há duas semanas. Na altura especulava-se que o exército poderia estar perto de ser chamado a intervir.

Vários dos homens que entraram nos aeroportos acabaram por sair, embora alguns se tenham mantido, segundo várias agências. Há também relatos da aproximação de helicópteros militares russos.

“Estou com a Milícia do Povo da Criméia”, disse à Reuters um homem que se identificou como Vladimir. “Estamos a trabalhar para manter a ordem no aeroporto. Vamos receber os aviões com um sorriso.”

Segundo a AFP, para além destes milicianos, vestidos com roupas civis, há homens, com uniformes e armados com Kalashnikovs, que patrulham o exterior do aeroporto de Simferopol. Estes não permitem que os jornalistas se aproximem, ao contrário dos milicianos. “Estamos aqui para manter a ordem pública e não bloqueamos nada. Mas se os bandidos nacionalistas vierem vamos combatê-los.”


Apelo aos EUA e ao Reino Unido

O Parlamento ucraniano votou entretanto uma resolução, que vai fazer chegar ao Conselho de Segurança da ONU, onde apela aos Estados Unidos e ao Reino Unido para garantirem a sua soberania – estes países, tal como a Rússia, assinaram o Memorando de Budapeste, em 1994, acordo que dava à Ucrânia a garantia de independência em troca da sua renúncia a armas nucleares.

O texto aprovado pelos deputados pede a norte-americanos e britânicos que “confirmem os seus compromissos” com a Ucrânia e lancem “consultas imediatas para fazer baixar a tensão no país”.

A Comissão Européia fez apelos para que seja encontrada uma "solução política" e que as partes envolvidas tenham um comportamento "contido e moderado". "A situação na Criméia requer uma solução política que só pode ser alcançada através da via do diálogo entre as diferentes partes envolvidas", afirmou um porta-voz da comissão.

A Criméia é a única região da Ucrânia onde a maioria da população é de origem russa e as tensões estão em crescendo desde sábado, quando o Presidente Viktor Yanukovych desapareceu e a oposição tomou o poder. Na quinta-feira, um comando pró-russo ocupou já a sede do governo e do parlamento da região autônoma, enquanto Moscou colocava em alerta de combate os seus aviões junto à fronteira ocidental.

Os deputados regionais aprovaram a marcação de um referendo sobre a autonomia da província, justificando a medida como as ameaças à paz na Criméia, fruto “da tomada inconstitucional do poder na Ucrânia por nacionalistas radicais, com o apoio de grupos criminosos armados”.


Extradição para Yanukovych

Num outro desafio aos novos líderes de Kiev, Yanukovych prepara-se para dar uma conferência de imprensa esta sexta-feira. Isso anunciou o próprio na quinta-feira, seis dias depois de ter desaparecido. “Ainda me considero o legítimo chefe de Estado ucraniano”, disse, em declarações à agência russa Itar-Tass, sem revelar o seu paradeiro mas explicando ter pedido “às autoridades russas” para garantirem à sua segurança “contra os extremistas”.

A justiça ucraniana vai pedir a extradição de Yanukovych, caso se confirme a sua presença na Rússia, anunciou esta sexta-feira o procurador-geral. Será, contudo, improvável que Moscou aceda ao pedido da Ucrânia, alertam alguns analistas. O procurador emitiu também dez mandados de captura em nome de várias figuras da anterior administração, segundo a Reuters.

A Áustria e a Suíça congelaram as contas bancárias de vários cidadãos ucranianos suspeitos de abusos de direitos humanos, na sua maioria antigos governantes do país. Um deles será o filho de Yanukovych, Oleksander, presidente da sociedade Mako Trading, com sede em Genebra, e que tem uma fortuna calculada em 500 milhões de dólares, segundo a AFP.

As autoridades policiais suíças lançaram também um inquérito criminal aos negócios de Yanukovych e do seu filho, sob suspeita da lavagem de dinheiro. O Ministério Público afirma que já foram iniciadas buscas a alguns escritórios em Genebra.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Milícia pró-russa toma edifícios governamentais na Crimeia

Líderes ucranianos dizem a Moscou que “qualquer movimento de tropas será considerado uma agressão militar”. Crimeia aprovou realização de referendo sobre estatuto de autonomia.
As forças de segurança estão em alerta na Crimeia BAZ RATNER/REUTERS
O presidente interino da Ucrânia avisou esta quinta-feira a frota russa contra qualquer “agressão militar”. Oleksandr Turchinov falava pouco depois de um grupo de homens armados pró-russos ter tomado vários edifícios governamentais na Crimeia, ao mesmo tempo que a agência de notícias russa Interfax noticiava que os aviões russos ao longo da fronteira ocidental tinham sido colocados em alerta de combate.
“Dirijo-me aos dirigentes militares da frota do Mar Negro: todos os militares devem permanecer no território previsto pelos acordos. Qualquer movimento de tropas será considerado uma agressão militar”, disse Turchinov numa intervenção no Parlamento, em Kiev. O enviado diplomático da Rússia foi convocado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano, que repetiu os avisos de Turchinov.
Moscou assegurou que "a frota russa no Mar Negro aplica estritamente todos os acordos em questão". O Ministério dos Negócios Estrangeiros acrescentou que "o envio de certos veículos blindados da frota do Mar do Negro foi feita em conformidade com os acordos e não necessita de qualquer aprovação". Durante as manifestações desta semana na Crimeia, foram deslocados dois veículos blindados russos para dois locais de Sebastopol.
É precisamente na cidade portuária de Sebastopol, na Crimeia, única região da Ucrânia onde a maioria da população tem origem russa, que Moscou tem estacionada a sua frota do Mar Negro. Na quarta-feira, a Rússia já anunciara o início de um grande exercício militar junto à fronteira. “Patrulhas aéreas constantes estão a ser realizadas pelos aviões de combate nas regiões de fronteira”, escreve agora a Interfax, citando o Ministério da Defesa russo. “De momento, receberam ordens para estar em alerta máximo.”
O parlamento regional da Crimeia aprovou, ao início da tarde, a marcação de um referendo sobre a autonomia da província, avançam algumas agências. Foi lançado um comunicado de imprensa que justifica a decisão com as ameaças à paz na Crimeia, que resultam "da tomada inconstitucional do poder na Ucrânia por nacionalistas radicais, com o apoio de grupos criminosos armados".
"Estamos confiantes de que apenas a realização de um referendo sobre o estatuto de autonomia irá ajudar os habitantes da Crimeia a determinar o futuro da região sem pressões externas", afirma o comunicado, citado pela agência Itar-Tass.
A consulta foi marcada para 25 de Maio, o mesmo dia em que se vão realizar as eleições presidenciais antecipadas.
Desde sábado, dia em que o Presidente Viktor Yanukovych desapareceu e a oposição ucraniana tomou o poder , após três meses de protestos, que grupos que militam pelo retorno da Crimeia à Rússia terão começado a formar uma milícia para se defender das novas autoridades.
Quarta-feira, manifestantes anti-russos invadiram o parlamento regional depois de se ter espalhado o boato de que os deputados iam decidir declarar que a Crimeia se separaria do resto da Ucrânia. Seguiu-se uma batalha campal que envolveu milhares de pessoas de um de outro lado nas ruas do centro de Simferopol, a capital da região.
Esta manhã, dezenas de homens armados controlavam não só a sede do parlamento como a do governo regional da península russófona. Entraram durante a madrugada, içaram bandeiras russas e um cartaz onde se lê “Crimeia é Rússia”.
O primeiro-ministro regional, Anatoli Mohiliov, disse à AFP que os homens estão equipados com “armas modernas” e que impediram os funcionários de entrar nos edifícios. Mohiliov já falou ao telefone com o grupo, mas não lhe foram transmitidas quaisquer reivindicações.
O ministro interino do Interior, Arsen Avakov, anunciou ter posto a polícia em alerta para evitar “um banho de sangue entre a população civil”. “Os provocadores estão em marcha. É tempo para responder com cabeça fria”, escreveu Avakov na sua página de Facebook. Há forças de segurança em redor dos edifícios tomados.
Diplomacias ocidentais avisam Rússia
A ocupação dos edifícios do governo da Crimeia pode desencadear um conflito regional, avisa o ministro dos Negócios Estrangeiros da Polônia. “Isto é um desenvolvimento drástico e aviso os que o fizeram e os que o permitiram, é assim que começam os conflitos regionais. Este é um jogo muito perigoso”, disse Radoslaw Sikorski numa conferência de imprensa.
Londres considera que as movimentações militares russas são prejudiciais "num momento em que todas as partes, sejam nacionais ou internacionais, deveriam trabalhar para desarmar as tensões". O Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico acrescentou que "a instabilidade na Ucrânia não é do interesse de ninguém".
A ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, também manifestou a sua preocupação. “O mais importante é evitar a divisão da Ucrânia”, disse, à chegada a uma reunião da NATO em Bruxelas onde se vai debater precisamente a situação ucraniana.
Em antecipação à reunião da aliança, o secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, apelou à Rússia "para não tomar qualquer ação que possa fazer escalar a tensão ou criar desentendimentos". "Estou preocupado com os desenvolvimentos na Crimeia", afirmou Rasmussen através do Twitter.

FMI vai intervir na Ucrânia, novo governo tenta evitar a bancarrota

Mais de 50 mil milhões de euros terão saído dos cofres do país para paraísos fiscais, segundo o novo primeiro-ministro, cujo gabinete foi aprovado esta quinta-feira.
A Ucrânia precisa de um “governo de kamikazes”, disse Yatseniuk SERGEI SUPINSKY/AFP
O Fundo Monetário Internacional confirmou esta quinta-feira que recebeu um pedido de assistência do governo da Ucrânia ao qual está “pronto a responder”. A diretora do fundo, Christine Lagarde, revelou, citada pela AFP, que será enviada uma equipa ao país “nos próximos dias”.
O novo primeiro-ministro, Arseni Yatseniuk, revelou haver um buraco nas contas públicas superior a 50 mil milhões de euros, responsabilizando o Presidente deposto Viktor Yanukovych. Nos últimos três anos “a soma de 70 mil milhões de dólares (51 mil milhões de euros) saiu do sistema financeiro da Ucrânia em direção a contas em paraísos fiscais”, afirmou perante o Parlamento.
O Parlamento aprovou esta quinta-feira o novo governo interino da Ucrânia por larga maioria. O novo primeiro-ministro optou por um discurso realista que sublinha as dificuldades que o país terá pela frente.
O Presidente interino, Oleksander Turchinov, foi o primeiro a prever um futuro sombrio: “Este é um governo condenado a conseguir trabalhar por apenas três ou quatro meses porque terá de tomar decisões impopulares.” Seguiu-se Yatseniuk, que se referiu à necessidade de um “governo de kamikazes”, expressão que já tinha utilizado na véspera.
O diagnóstico foi posto a nu por Yatseniuk, que, aos 39 anos, já passou pelas pastas da Economia e dos Negócios Estrangeiros e foi governador do Banco Nacional da Ucrânia. “As contas públicas estão a zero (…) A dívida pública é de 75 mil milhões de dólares neste momento (…) O desemprego está num ritmo galopante, assim como a fuga de investimentos.”
As medidas “impopulares” vão passar pela “redução dos programas sociais e das subvenções” e pela “redução das despesas orçamentais”. Próximo poderá estar um empréstimo dos EUA no valor de mil milhões de dólares, segundo revelou o secretário de Estado, John Kerry, que acrescentou que a Europa está a equacionar um pacote no valor de 1,5 mil milhões.
A Rússia mantém em suspenso um acordo assinado com a anterior administração, em que estava prevista a concessão de um empréstimo superior a 11 mil milhões de euros.
Arseni Yatseniuk não deixou de referir a ameaça separatista na região autônoma da Crimeia, onde no mesmo dia um comando pró-russo tomou as sedes do parlamento e governo regionais.
“A integridade territorial está ameaçada, assistimos a manifestações de separatismo na Crimeia”, afirmou. “Disse aos russos para não nos enfrentarmos, nós somos amigos e parceiros.” O tom conciliador de Yatseniuk veio depois da notícia de que Moscou tinha iniciado exercícios militares perto da fronteira com a Ucrânia e que as suas forças armadas foram postas em alerta máximo.
Se, por um lado, os novos governantes tentam apaziguar as relações com a Rússia, por outro, fazem da aproximação à Europa uma das prioridades. “A Ucrânia vê o seu futuro na Europa, como membro da União Européia”, afirmou Yatseniuk, deixando antever que um dos próximos passos poderá ser a retoma das negociações para a assinatura do acordo com Bruxelas rejeitado em Novembro por Yanukovych.
À estratégia européia da Ucrânia não será alheia, por exemplo, a nomeação de um vice-primeiro-ministro para a Integração Européia. É a Boris Taraiuk, um diplomata que foi ministro dos Negócios Estrangeiros em quatro governos diferentes, que irá caber a missão.
O novo gabinete de ministros é descrito como “uma combinação de antigas caras manchadas por alegações de corrupção, novos heróis revolucionários e nomeados que podem fazer a diferença”, segundo a jornalista do Kyiv Post, Katia Gorchinskaia.
A Economist afirma mesmo que o governo será controlado por Yulia Tymoshenko, chamando a atenção para a grande quantidade de personalidades do seu partido. (fonte: publico.pt)

Yanukovych falou para dizer que ainda é o Presidente legítimo da Ucrânia

Presidente deposto pediu proteção às autoridades russas e apelou ao cumprimento do acordo assinado com a oposição.
O rato de esgoto reclamando o queijo
"Eu, Viktor Fedorovich Yanukovych, dirijo-me ao povo ucraniano. Ainda me considero o legítimo chefe de Estado ucraniano." Estas foram as primeiras declarações do ex-Presidente que se encontra em fuga desde domingo.
Foram precisos seis dias para que Yanukovych voltasse a falar publicamente. Em declarações à agência russa Itar-Tass, o Presidente deposto critica o "extremismo exagerado nas ruas" da Ucrânia e afirma ter recebido ameaças à sua integridade física.
"Tenho de pedir às autoridades russas para garantirem a minha segurança pessoal contra os extremistas", afirmou, sem contudo revelar o seu paradeiro.
A Rússia parece ter acedido ao pedido de Yanukovych, de acordo com uma fonte governamental. "Em relação ao apelo feito pelo Presidente Yanukovych pela garantia da sua segurança pessoal, informo que o pedido foi concedido para o território da Federação Russa", afirmou a fonte, citada pela agência Interfax.
Yanukovych garantiu ainda que vai “lutar pelo cumprimento dos importantes acordos de compromisso para retirar a Ucrânia da crise política”, numa referência ao acordo assinado com os líderes da oposição. Há precisamente uma semana, Yanukovych e a oposição chegaram a acordo para a marcação de eleições presidenciais antecipadas para este ano e para o retorno à Constituição de 2004.
No entanto, o documento previa que Yanukovych se mantivesse no cargo até às eleições. No mesmo dia, os manifestantes na Praça da Independência fizeram um ultimato para que Yanukovych resignasse.
No sábado, o ainda Presidente dirigiu-se para Donetsk, no Leste, onde terá tentado ir para o estrangeiro, tendo-lhe sido negada a saída do país. A última vez que foi visto foi na noite de domingo, na Crimeia. Desde então, muito se tem especulado acerca do seu paradeiro.
A instabilidade no país não foi esquecida por Yanukovych: “Torna-se evidente que o povo no sudeste da Ucrânia e na Crimeia não aceitam a anarquia e a ausência de lei no país, onde os ministros são eleitos por uma multidão numa praça.”
Afirmando que nunca deu indicações às Forças Armadas para intervir na crise do país, Yanukovych avisa que se alguém o fizer, “essas ordens serão consideradas ilegais e criminosas”.
Nos últimos dias, Yanukovych viu ser emitido um mandado de captura internacional contra si por “homicídio em massa” e ainda a possibilidade de ser julgado no Tribunal Penal Internacional. (Fonte: publico.pt)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

DESAFIO MUNUMENTAL

Governo de “vontade popular” na Ucrânia tem tarefa monumental

Novo governo combina figuras próximas de Timochenko e líderes dos protestos. Os próximos tempos irão dizer se a democracia da Maidan funcionou.

Não deverá haver muitos governos na história da democracia cuja aprovação esteja dependente dos apupos ou palmas de uma multidão. Mas esse é pelo menos o método que os manifestantes da Praça da Independência quiseram utilizar para a formação do seu executivo, que terá tarefas gigantes pela frente. A primeira foi já nesta quarta-feira, perante a Maidan.
Como sempre, foram muitos os nomes referidos, uns mais plausíveis que outros, é certo. Em Kiev, o ambiente revolucionário que animou a Praça da Independência nos últimos meses parece estar para ficar. E mais: serão princípios revolucionários que vão guiar a agenda política dos governantes, a começar pela própria origem do gabinete de ministros.
A Praça Maidan preparava-se para uma longa jornada que começou ao início da noite com o anúncio de que o líder da oposição Arseni Yatseniuk (Partido Pátria) iria encabeçar o executivo. A partir daí, foram anunciados vários nomes, alguns mais consensuais do que outros. Certas nomeações foram vaiadas por grupos inteiros, como foi o caso do novo ministro do Interior, Arsen Avakov. De uma forma geral, o novo governo de unidade nacional combina várias personalidades próximas de Yulia Tymoshenko e figuras que se notabilizaram durante a contestação.
Yatseniuk tratava-se de uma escolha que muitos antecipavam, na medida em que alia a experiência de passagens por governos anteriores com a legitimidade de ter sido um dos rostos da contestação. Yatseniuk liderou o partido Pátria durante a prisão de Yulia Tymoshenko e acompanhou de perto os protestos dos últimos meses.
Poderá ser um bom sinal para os próximos tempos, uma vez que muito do futuro da Ucrânia vai depender das negociações internacionais para a obtenção de um resgate financeiro. Para além de uma experiência como ministro da Economia, Yatseniuk era visto como um dos líderes políticos da oposição mais fiáveis. Estando agora fora da corrida à presidência, a nomeação de Yatseniuk pode abrir caminho à possível candidatura de Tymoshenko.
Na Economia deverá ficar um acadêmico, Pavlo Sheremeta, fundador e reitor da Faculdade de Economia da Universidade Kiev Mohila. Uma das áreas mais sensíveis, as Finanças, ficará a cargo de Oleksander Schlapak, que foi chefe de gabinete do ex-Presidente Viktor Yushenko, que foi eleito na sequência da Revolução Laranja. Schlapak tem pela frente a difícil situação financeira da Ucrânia, cujas necessidades de financiamento para os próximos dois anos ascendem a 25 mil milhões de euros e que convive com uma desvalorização quase diária da moeda.
A escolha para os Negócios Estrangeiros recaiu em Andri Deshchitsia, que foi embaixador na Finlândia. A sua experiência diplomática no país nórdico poderá indicar que a gestão nas relações exteriores de Kiev irá privilegiar a integração europeia, sem contudo alienar totalmente Moscou, à semelhança do que é feito pela Finlândia.
Durante a tarde, o Conselho da Maidan – o órgão deliberativo informal formado durante os protestos – esteve a escolher alguns nomes para outros cargos. Andrei Parubi, ex-deputado do Pátria e um dos líderes da contestação, foi proposto para secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, tendo como vice o líder do Setor Direito, Dmitro Yarosh.
A confirmar-se a indicação de Iarosh, esta seria uma decisão potencialmente polémica. A entrega de uma posição de destaque ao líder de uma organização paramilitar de extrema-direita e que utilizou abertamente meios violentos durante os protestos pode despertar reservas, sobretudo nas regiões do Leste do país.
Outra nomeação emanada das ruas foi a de Dmitro Bulatov, que esteve à frente do movimento AutoMaidan, para a pasta da Juventude e Desporto. Bulatov foi raptado no final de Janeiro, tendo reaparecido uma semana depois com indícios de ferimentos graves. O ativista contou que foi levado por um grupo de homens para uma mata, onde foi espancado e crucificado.
Democracia direta
A rua soberana conseguiu, desde logo, adiar o anúncio da formação do governo. Inicialmente previsto para terça-feira, a contestação da Maidan em relação ao rumo que as negociações no Parlamento estavam a decorrer falou mais alto e a nomeação passou para quarta-feira. E foi a rua a indicar o método de escolha: a democracia direta, ao estilo da antiga cidade-Estado de Esparta, como descreveu ao PÚBLICO um dos líderes dos manifestantes, Andrei Parubi.
Não obstante as diferenças que possam existir entre as realidades de uma cidade da Antiguidade de 25 mil habitantes, totalmente vocacionada para a guerra, e um país moderno com uma população de 45 milhões, a justificação para o método referido por Parubi está em sintonia com o sentimento dominante nas ruas de Kiev. Em parte são os receios de que se repita o desenlace da Revolução Laranja de 2004 – que acabou por substituir uma classe política dominada pelos oligarcas por outra demasiado parecida – que dominam os anseios pela democracia direta. Mas há também a necessidade de reconhecer que a revolução da Maidan foi dirigida sobretudo pelas ruas, que não hesitaram em apupar e criticar os líderes políticos e que precipitaram a queda de Viktor Yanukovych.
Basta, contudo, olhar para os desafios que os novos governantes da Ucrânia terão pela frente para se concluir que juntar instabilidade governativa à situação crítica do país podia ser o pior a acontecer neste momento. É o próprio Parubi que nota ser possível que um governo seja aclamado pela Praça e, “horas depois” venham 30 mil pessoas derrubá-lo.
Crise econômica, integração europeia, relações com Moscou e manutenção da integridade territorial serão os principais temas que vão ocupar o novo governo. Ao mesmo tempo que têm de tentar redefinir a posição da Ucrânia no mundo, os novos governantes têm que assegurar que não perdem a legitimidade que, por agora, a rua parece confiar-lhes.