terça-feira, 18 de março de 2014

Kasparov: "Cada vez que se adia a resposta forte contra um ditador, o preço sobe"


O ex-campeão do mundo de xadrez, e dissidente russo, Garry Kasparov, compara o Presidente Vladimir Putin a Adolf Hitler e lamenta a resposta do Ocidente à crise da Crimeia. "Se o Ocidente pestanejar, passamos a 1939", disse em entrevista ao PÚBLICO.

 Garry Kasparov está pessimista quanto ao desfecho da crise da Crimeia Fernando Veludo/NFactos

Garry Kasparov, campeão do mundo de xadrez durante 15 anos, viaja desde Fevereiro com um passaporte da Croácia: a nova cidadania, como explicou ao PÚBLICO, é uma garantia de liberdade de movimentos. Por causa da sua oposição ao regime de Vladimir Putin, que descreve como uma ditadura, Kasparov deixou a Rússia para poder chamar a atenção do mundo para o que se passa dentro do seu país. “A Rússia foi feita refém por um gangue de criminosos”, observa.
Numa paragem pelo Porto, onde entregou os prémios do Campeonato Europeu de Veteranos, organizado pela Federação Portuguesa de Xadrez, Garry Kasparov discutiu o referendo da Crimeia, manifestou o seu pessimismo quanto à atitude das potências ocidentais face à crise e animou-se ao comentar a campanha para a presidência da Federação Internacional de Xadrez (FIDE) – um processo que diz ser mais justo do que a sua candidatura falhada contra Putin em 2007.

Tem escrito vários editoriais sobre a atual crise na Crimeia, que no domingo decidiu em referendo a separação da Ucrânia e integração na Federação Russa. Esse processo não foi reconhecido pela União Europeia e os Estados Unidos, que esta segunda-feira anunciaram sanções contra vários dirigentes.
Acabei de ler que o Ocidente aplicou sanções, mas o que li é uma piada. É uma reação extremamente débil, que mostra que o Ocidente não tem determinação suficiente para se opor à agressão e nem sabe muito bem o que fazer, uma vez que ainda está a falar numa solução diplomática. Mas qual solução diplomática? Não se negocia com terroristas. O que aconteceu na Crimeia foi a primeira vez desde 1945 que se fez uma anexação – quer dizer, exceto quando Saddam Hussein anexou o Kuwait.

Em 2008, o Exército de Putin invadiu a Geórgia…
Sim, mas não anexou – e essa é uma distinção importante. Nessa altura foram tímidos e nunca tentaram oficializar a anexação – embora o tenham feito, de fato. Tiveram pudor em integrar a Ossétia do Sul e a Abkházia na Rússia. Se tivesse havido uma reação mais forte em 2008, talvez se tivesse evitado esta crise. Cada vez que se adia a resposta forte contra um ditador, o preço sobe. Porque ele não vai parar. Putin precisa de vitórias de política externa para melhorar a sua reputação e a sua imagem na Rússia. Depois de estar no poder há 15 anos e com a economia em queda, tem de provar ao público russo que tem uma causa.

Num artigo que escreveu para o The Wall Street Journal, defendeu que o Ocidente devia “usar os bancos e não os tanques” para conter a atual ofensiva russa na Ucrânia. Mas acabou de descrever a reação como fraca. Quer isto dizer que a via militar passou a ser a única resposta possível?
É fraca por causa dos nomes envolvidos. O que Obama fez é uma piada. Foi atrás de alguns burocratas, mas ninguém espera que os burocratas influenciem Putin – eles são subordinados, são peões. O dinheiro a sério está nas mãos dos oligarcas, que podem realmente influenciar os acontecimentos na Rússia. Se o seu dinheiro ficar em risco, acho que eles serão capazes de encontrar uma maneira de lidar com Putin. Neste momento, estas sanções terão o efeito contrário: terão um efeito reduzido, se é que terão algum, e apenas aumentarão a confiança de Putin, que reconhecerá que o Ocidente é demasiado fraco para ir atrás dos peixes grandes.

Na sua opinião, qual é o objetivo da Rússia com esta operação? Ainda há alguma hipótese de travar a escalada?
Putin só tem uma preocupação na vida, que é manter-se no poder. Os líderes ocidentais ainda acreditam que podem negociar com ele, mas Putin é uma causa perdida. Ele não tem nenhuma maneira de desistir desta operação: o Führer, o líder, não sobrevive na derrota, por isso ele só pode avançar. Onde é que isto pode parar? Não sei. A Ucrânia tornou-se vital porque os acontecimentos em Kiev enviaram o sinal errado ao povo russo. Para Putin, a Crimeia é o gatilho. Por isso acho que ainda avançará mais: ele quer remover o Governo ucraniano. Por isso fez todas aquelas declarações a dizer que não reconhecia o Governo, e por isso a Rússia quer todas estas mudanças constitucionais para tentar travar as eleições a 25 de Maio. Esse é um momento importante: se a Ucrânia conseguir sobreviver sem grande agressão até essa data, realizar as eleições e ter um Presidente e um Governo legitimamente eleito, Putin perdeu o jogo. E é por isso que ele está a tentar provocar a instabilidade no leste da Ucrânia. Hoje vemos as notícias e são os provocadores russos que passam a fronteira para criar tensão e tentar atiçar a violência.

CRISE NA CRIMÉIA

Ucrânia: Aumenta a tensão na Crimeia

18/03 20:19 CET

O primeiro-ministro interino da Ucrânia, Arseniy Yatseniuk, afirmou esta terça-feira que o conflito na península da Crimeia entrou numa fase militar, depois de homens armados terem atacado uma base militar ucraniana em Simferopol fazendo um morto e um ferido.

Segundo o porta-voz do Ministério da Defesa ucraniano na Crimeia, Vladislav Selezniov, um oficial morreu na sequência de ferimentos de bala no pescoço e num ombro e um outro militar ficou ferido.
“Todos os militares da base foram detidos e foram-lhes confiscadas as identificações e o dinheiro. Retiraram-nos da base, puseram-nos em fila e desarmaram-nos”, adiantou o porta-voz.
Entretanto o mesmo ministério fez saber que as suas forças militares estão “autorizadas a usar armas”.
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 Kiev não abdica da Crimeia
 18/03 17:31 CET

A Crimeia pertence e vai continuar a pertencer à Ucrânia.
Palavras do Presidente interino, horas depois de Vladimir Putin ter assinado um acordo de integração com os líderes da Crimeia.
Olexandre Tourchinov fala de uma violação da lei e pede ajuda à comunidade internacional.
“O chefe de Estado russo gosta de falar sobre fascismo e acaba de copiar o fascismo do século passado ao anexar o território de um estado independente” afirma.
O ministro da Defesa ucraniano confirmou, entretanto, a morte de um soldado numa base militar em Simferopol após uma troca de tiros com soldados russos.

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Ucranianos preparam-se para a guerra

18/03 03:19 CET

Os ucranianos estão a preparar-se para uma eventual guerra com a Rússia. Nesta base perto de Kiev, vários voluntários estão a treinar-se para se juntarem à recém-criada Guarda Nacional.
O governo ucraniano chamou 40 mil militares na reserva para contrariar o que diz ser uma agressão da Rússia na Crimeia. O ministro do Interior, Arsen Avakov, confirma que o país está preparado para a guerra: “Nos próximos dias, a Ucrânia vai ter uma unidade pronta para o combate, que não quer combater, mas que tem a firme intenção de proteger as fronteiras da Ucrânia e a ordem neste país. Glória à Ucrânia”.
Dos 40 mil reservistas chamados, metade vai integrar as forças armadas e a outra metade a nova Guarda Nacional.
“Ninguém além de nós, os cidadãos da Ucrânia, pode proteger o país. Vamos dar o nosso melhor”, diz Yan, um antigo guarda-costas que faz parte deste grupo de voluntários.
Muitos reservistas estão a ser colocados nas zonas fronteiriças, nomeadamente na fronteira que separa a Crimeia do resto da Ucrânia, onde os militares de ambos os lados estão a criar uma zona-tampão. A Ucrânia quer evitar que o cenário da Crimeia se repita noutras regiões do sudeste do país.
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Yatsenyuk: “estamos à beira do desastre”

Kiev encara as ações da Rússia na Crimeia como uma declaração de guerra.

A Ucrânia quer evitar um conflito armado com Moscou, mas prepara-se para o pior.

O governo colocou o exército em alerta máximo, mobilizou os soldados na reserva e encerrou o espaço aéreo a aviões não civis.

“Estamos à beira do desastre, mas acreditamos que os nossos parceiros ocidentais e toda a comunidade internacional vão apoiar a integridade territorial e a unidade da Ucrânia” refere o primeiro-ministro ucraniano, Arseniy Yatsenyuk.

Países como os Estados Unidos ameaçam avançar com sanções contra a Rússia, mas os ucranianos pedem mais.

Nas ruas de Kiev reina a apreensão.

“Estamos obviamente muito preocupados com os filhos da Ucrânia, mas vamos utilizar todos os meios necessários para proteger o nosso país, tanto moral como fisicamente” refere uma ucraniana

“Não queremos uma guerra. É a única coisa que posso dizer. Não queremos um conflito armado. Especialmente, com a Rússia, com quem temos vivido lado a lado. Esta é uma questão política e as pessoas não deviam andar a matar-se” adianta um homem.

As ameaças de Moscou estão a aproximar os ucranianos. Um dos homens mais ricos do país e defensor de Viktor Yanukovych veio a público apelar à unidade dos cidadãos para evitar a divisão da Ucrânia.
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segunda-feira, 17 de março de 2014

Ucrânia mobiliza 40 mil militares na reserva

17/03 15:53 CET
O parlamento da Ucrânia aprovou um plano para mobilizar 40 mil reservistas para fazer frente ao que é considerado agressão descarada da Rússia na Crimeia. Metade dos homens vai servir as Forças Armadas, os restantes vão integrar uma recém-criada guarda nacional.
O anúncio foi proferido por Andriy Paruby, Secretário da Segurança Nacional e do Conselho de Defesa. O objetivo é também prevenir situações idênticas às da Crimeia nas regiões de Donestk e Kharki.
O decreto presidencial, aprovado por 275 dos 470 membros da Assembleia Nacional, prevê uma mobilização em 45 dias.
“Ninguém no mundo reconheceu este referendo. A legitimidade é zero. A terra da Crimeia foi e será da Ucrânia. Os militares sempre lá estiveram e vão continuar. Todas as questões têm que ser resolvidas de uma forma política. Não os vamos deixar para trás. Temos comunicação direta com eles. Eles sabem como atuar e acho que vão vencer”, refere o ministro ucraniano da Defesa.
O presidente russo Vladimir Putin avisou no início do mês que a Rússia tinha o direito de defender os direitos do povo de origem russa na Ucrânia.

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EUA anunciam sanções contra políticos russos e ucranianos

(atualizado às min.) 
 
Um dos visados é o vice-primeiro-ministro do governo russo, Dmitri Rogozin. Obama avisou que poderá avançar para mais sanções.

 
 As sanções serão aplicadas "à medida da evolução dos acontecimentos" Nicholas KAMM/AFP

O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, autorizou nesta segunda-feira a eventual aplicação de sanções a 11 pessoas que considera responsáveis pela crise na Crimeia. Da lista da Casa Branca fazem parte vários políticos próximos do Presidente Vladimir Putin, entre os quais o vice-primeiro-ministro russo e a presidente da câmara alta do parlamento.
O anúncio surgiu poucas horas depois de os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia terem chegado a acordo para "limitar as viagens" e "congelar os bens" de 21 pessoas de nacionalidades russa e ucraniana, cujos nomes não foram revelados.
"Se a Rússia continuar a intervir na Ucrânia, nós estaremos preparados para aplicar mais sanções", garantiu Obama, durante uma conferência de imprensa na Casa Branca. Apesar do aviso, o Presidente norte-americano afirmou que espera que seja encontrada "uma forma de resolver esta situação pela via diplomática, de maneira a atender aos interesses da Rússia bem como da Ucrânia".
Mas o cenário diplomático implica "o regresso das forças russas às suas bases da Crimeia, o apoio ao envio de um grupo de observadores para a Ucrânia e o estabelecimento de um diálogo [entre Moscou] e o governo ucraniano", disse Obama.
Um dos visados pelas sanções, o vice-primeiro-ministro russo, Dmitri Rogozin, já veio desvalorizar o possível alcance das medidas anunciadas pelo Presidente dos Estados Unidos, usando a sua conta no Twitter para ridicularizar a ordem executiva assinada nesta segunda-feira por Barack Obama: "Camarada Obama, e o que fará àqueles que não têm contas nem bens no estrangeiro? Ou não pensou nisso?", escreveu Rogozin no Twitter, seguido de "Acho que o rascunho da ordem do Presidente dos EUA foi feito por algum brincalhão".

Sanções para 11 pessoas
No comunicado publicado no site da Casa Branca lê-se que o Presidente Obama assinou uma ordem executiva que foi preparada para castigar "as ações e as políticas do Governo russo em relação à Ucrânia – incluindo o envio de forças militares russas para a região ucraniana da Crimeia". Essas acções, consideram os EUA, "minam os processos democráticos e as instituições da Ucrânia; ameaçam a sua paz, segurança, estabilidade, soberania e integridade territorial; e contribuem para a apropriação ilegítima dos seus bens".
A nova ordem executiva do Presidente Obama permite a aplicação de sanções "que imponham custos a indivíduos com influência no governo russo e a responsáveis pela deterioração da situação na Ucrânia", mas não têm efeito imediato. "Estamos prontos para usar esta autorização de uma forma directa à medida da evolução dos acontecimentos", lê-se no comunicado.

Da lista fazem parte sete membros do governo e do parlamento da Rússia, que os EUA acusam de terem "contribuído para a crise na Ucrânia": Entre os russos punidos estão Vladislav Surkov e Sergei Glaziev, assessores do presidente Vladimir Putin, a presidente do Conselho da Federação (Senado), Valentina Matvienko, e o vice-primeiro-ministro Dmktri Rogozin. Obama ordenou, além disso, sanções contra quatro indivíduos ucranianos, entre eles o deposto presidente Viktor Yanukovych.
As sanções têm como objetivo atingir os "bens pessoais" destes "camaradas" de Putin, segundo disse um alto funcionário americano sob a condição do anonimato.
 
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ACREDITE QUEM QUISER ! (Não vale rir) Vamos aguardar as sanções da UNIÃO EUROPÉIA (UE).

O Cossaco. 

MEMÓRIA VOLÁTIL

O mundo esqueceu rapidamente estas imagens.


CAIM: ONDE ESTÁ ABEL, TEU IRMÃO?

Ukrainskyi Tyzhden (Semana Ucraniana)
17 mar 2014 Igor Losev O exército de Putin na Crimeia, as botas russas esmagadosimpatia ucraniana

E mais uma vez ficará por muito tempo na memória nacional que a Ucrânia não provocou agressão armada da Rússia contra ela na Crimeia ... Dezenas de milhares de comandos para-quedistas  atacaram um país pacífico que não ameaçava a Rússia. Nas ruas das cidades da Criméia - Soldados em uniformes estranhos -, veículos blindados, postos de controle nas estradas em toda a região impedem o ir e vir. Da Criméia não se pode sair. Soldados, tropas aerotransportadas e forças especiais da Federação Russa, inteligência principal, Direção do Estado Maior, General das Forças Armadas da Rússia, armados até os dentes com intenções obscuras causam medo e irritação em numerosos habitantes da península. Choques e mal-entendidos. Como é que os oficiais ucranianos devem tratam os colegas russos que vivem nas proximidades, cujos filhos frequentavam creches comuns? Mesmo nos tempos soviéticos, essas pessoas estavam no mesmo regimento no navio e juntos foram testados em pontos de conflitos. Por 22 anos a Frota do Mar Negro na Ucrânia foi utilizada como parte da paisagem local pelos os oficiais e marinheiros. E de repente tal maldade, uma facada nas costas. Isto dificilmente se pode perdoar e esquecer ...

MOSAICO
14h02min. - Tymoshenko espera o envolvimento do tribunal internacional em Haia na agressão militar contra a Ucrânia.
O Parlamento deve ratificar imediatamente o Estatuto de Roma e fornecer a Ucrânia o direito de recorrer ao Tribunal Penal Internacional. Isto foi afirmado pelo ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko, ao serviço de imprensa.


PRONUNCIAMENTO DO MINISTRO DA DEFESA

Forças Armadas recuperaram os recursos necessários e estão dispostas a realizar tarefas - Tenyukh
Forças Armadas da Ucrânia em um curto espaço de tempo restaurarão os recursos necessários e, se necessário, estarão prontas para repelir os invasores russos, disse o ministro da Defesa Igor Tenyukh.


 

PARLAMENTO UCRANIANO APROVA DECRETO DE MOBILIZAÇÃO PARCIAL


Verdade Ucraniana
Segunda - feira, 17 março, 2014, 11h15min. (Horário de Kiev)
documento

O Parlamento ucraniano aprovou o decreto do Presidente Alexander Turchinov para mobilização parcial.
Decisão votada por 275 deputados.
Por lei, todas as áreas descritas serão mobilizadas parcialmente para cumprimento das obrigações militares.
"A mobilização na cidade de Sevastopol, na Criméia, será para os cidadãos que voluntariamente manifestaram o seu desejo de ser chamado" - diz na lei .

 


Conforme relatado na reunião para mobilização parcial o secretário do Conselho de Segurança Nacional Andrei Parubiy espera atrair 20 mil pessoas para as forças armadas e os 20.000 soldados da Guarda Nacional.

"As autoridades executivas locais com as autoridades locais [são designadas] para gerenciar e cumprir a ordem estabelecida ... notificação oportuna e chegada de cidadãos ... a alocação de edifícios temporários, do solo, transporte e outras instalações logísticas " - descreve a lei .

SBU, liberdade condicional, o Serviço de Inteligência Externa, Natshvardiyi, o governo "traduzir unidades militares subordinadas e as operações de busca de proteção civil para a organização e recursos humanos da guerra."

Conforme explica o presidente Alexander Turchinov, a ênfase principal será para a mobilização de especialistas militares da reserva e as pessoas que já tenham servido no exército.

"A Mobilização será feita no prazo de 45 dias a partir da data de entrada em vigor do presente Edital ," - diz o decreto Turchynov .

No entanto Parubiy assegurou que a mobilização acontecerá muito mais rápido.

Rússia trouxe a Criméia o sistema anti-míssil


Opinião: A um passo de uma nova Guerra Fria

A Crimeia votou como se esperava que votasse. Estaremos a caminho de uma nova Guerra Fria?

Nos primeiros dias de Março foi colocado junto à estátua de Lenin, no centro de Sinferopol, capital da Crimeia, o seguinte dístico: “Não toquem no nosso chefe.” Não tocaram. Pelo contrário. Do alto da sua imponente estátua, situada na praça que também leva o seu nome, o histórico líder soviético assistiu impávido ao agitar de bandeiras russas e de bandeiras vermelhas com a foice e o martelo a celebrar o referendo onde uma grande maioria de votantes disse “sim” à integração na Rússia. Em Kiev, em Dezembro de 2013, Lenin teve pior sorte: a sua estátua foi furiosamente derrubada. Por isso também se manteve esta intacta e se consumou (pelo menos no desejo expresso num referendo ilegal e incontrolado) o regresso da Crimeia à “grande mãe” Rússia.
Nada disto foi novidade, nem sequer o júbilo expresso nas ruas, ou a celebração mais do que antecipada (horas antes do fecho das urnas) de uma vitória previsível. Na entrevista que concedeu a Teresa de Sousa, publicada na edição de ontem, o investigador francês Jacques Rupnik disse claramente: “Não há qualquer meio, nem para a Europa nem para os Estados Unidos, de impedir a integração da Crimeia na Rússia.” E se, como Rupnik também disse, “a Europa se construiu contra a geopolítica”, é a geopolítica que não só a Europa mas o mundo, em particular os Estados Unidos, têm agora pela frente no caso da Crimeia. As promessas de sanções, que voltaram a fazer-se ouvir, só surtirão efeito se com elas se pretender atingir um fim óbvio. E está à vista que só muito dificilmente este será a “devolução” da Crimeia, por mais que a Ucrânia a reclame (baseada na lei e em tratados de delicada elaboração internacional). Ao contrário, se tais sanções servirem para coisa nenhuma, haverá um impasse e o regresso, com novos contornos, da velha Guerra Fria. John Kerry dizia, há dias, que a porta da diplomacia continuava aberta. Pois é tempo ainda de usá-la, para evitar males piores para todos.

Nota pertinente:
Há uma incógnita falsa nesta equação:
A população da Criméia é constituida por 58% de russos, 24% de ucranianos e 13% de tártaros da Criméia.

Como foi possível o plebiscito superar 95% pró-Rússia?

O Redator.
 


domingo, 16 de março de 2014

UE já prepara sanções na sequência do referendo na Crimeia, que dá vitória à secessão

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(actualizado às )
Sondagens à boca das urnas antecipam vitória de 93% à integração da província na Federação Russa.

Cerca de 93% dos eleitores da península ucraniana da Crimeia votaram a favor de uma união com a Rússia, segundo sondagens à boca das urnas citadas pela agência russa RIA, meia hora depois de terem fechado as urnas. Outra agência russa, a Interfax, falava de uma taxa de participação de 80% no referendo, considerado ilegal pela Ucrânia, Estados Unidos e União Europeia.
Antecipando um resultado favorável à secessão da Ucrânia, a União Europeia preparava-se já para aprovar, segunda-feira, sanções dirigidas a pessoas concretas.
Os eleitores, milhão e meio, foram convidados a escolher entre a integração na Federação da Rússia e uma autonomia mais alargada no seio da Ucrânia. Apoiada pelo Governo de Moscou, a consulta eleitoral foi organizada pelas autoridades pró-russas locais num tempo recorde de duas semanas. A votação decorre sem a presença de observadores independentes ou jornalistas locais.
Mais de seis horas após a abertura das urnas, fontes oficiais disseram à BBC que a participação tinha já ultrapassado 50% dos inscritos.
Ninguém acredita que o referendo, que o Governo de Kiev e os países ocidentais consideram violar a Constituição ucraniana, seja desfavorável à separação da Ucrânia, devido ao peso maioritário dos russófonos na população - 58,5%, segundo os censos de 2001. A votação é boicotada pela população tártara.
“Vim votar neste dia de festa para benefício da Crimeia e dos seus habitantes e agora vou celebrar”, disse à Reuters Vladimir, um eleitor dos seus 40 anos, depois de votar num escola na região de Simferopol, a capital.
As perguntas feitas aos eleitores prevêem duas hipóteses – a primeira é a secessão e reunificação com a Rússia, a segunda o regresso à Constituição de 1992, que permite maior autonomia e dá poder aos órgãos regionais para escolherem o seu rumo. Também esta daria a hipótese aos novos líderes de optarem por uma integração com a Rússia. Apenas a hipótese de manter a Crimeia com o seu estatuto atual (com autonomia mas na Ucrânia) não era prevista nesta consulta, sublinharam analistas.
As urnas abriram às 8h00 locais (6h00 em Portugal Continental) e encerraram 12 horas mais tarde. 
O Presidente russo, Vladimir Putin, disse que “respeitará a escolha dos habitantes da Crimeia”. A declaração consta de um comunicado do Kremlin, que dá conta de uma conversa telefônica de Vladimir Putin com Angela Merkel, a pedido da chanceler alemã.
Bem diferente é a forma como a União Europeia olha para o referendo. Já este domingo, insistiu em classificá-lo como “ilegal e ilegítimo” e confirmou que o resultado “não será reconhecido”. Numa declaração conjunta, os presidentes do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, e da Comissão Europeia, Durão Barroso, condenaram a consulta eleitoral e anunciaram que, na segunda-feira, os ministros europeus dos Negócios Estrangeiros discutirão em Bruxelas a possibilidade de sanções, nos termos de uma declaração de chefes de Estado e de governo tomada a 6 de Março.
Nesse dia, os dirigentes europeus chegaram a acordo sobre a aplicação de sanções dirigidas a pessoas específicas, sob a forma de congelamento de bens e restrição de vistos, se a Rússia não promovesse com rapidez uma “desescalada” de tensão.Os embaixadores da UIE devem  reunir-se ainda este domingo para definir uma lista de responsáveis russos e ucranianos pró-russos visados pelas sanções, noticiou a AFP.

Ucrânia denuncia reforço militar russo
Já com as urnas abertas, o ministro interino da Defesa da Ucrânia, Ihor Teniukh, disse que a Rússia continua a reforçar a sua presença militar na Crimeia e tem agora 22.000 soldados na região – um número largamente superior ao limite de 12.500 previstos nos acordos sobre a permanência na região da frota russa do Mar Negro.
“Infelizmente, num curto período de tempo, esses 12.500 aumentaram para 22.000. É uma brutal violação dos acordos bilaterais e uma prova de que a Rússia trouxe ilegalmente tropas para o território da Crimeia”, disse Teniukh, numa entrevista à agência Interfax. “As forças armadas ucranianas estão a tomar as medidas adequadas ao longo das fronteiras a sul”, acrescentou.
Desde que Viktor Yanukovych foi afastado da presidência da Ucrânia pelo Parlamento, em Fevereiro, após meses de contestação na rua, soldados russos assumiram o controlo efetivo da Crimeia.
A AFP noticiou entretanto que manifestantes pró-russos invadiram este domingo as sedes do ministério público e dos serviços de segurança ucranianos em Donetsk, cidade russófona do leste da Ucrânia, após uma manifestação favorável à integração.Os manifestantes entraram nos dois  edifícios praticamente sem terem enfrentado oposição das forças de segurança. Reclamam a libertação do seu líder, o auto-proclamado “governador” Pavlo Goubarev. Pouco depois, a BBC noticiou que tinham abandonado a sede dos serviços de segurança.
No relato da conversa entre Putin e Merkel feito pelo governo de Berlim é dito que chanceler afirmou que devem ser enviados para a Ucrânia mais observadores da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação Europeia) e que a intenção foi bem acolhida pelo chefe de Estado russo. Merkel, acrescentou o Governo alemão, condenou a infiltração – denunciada no sábado pela Ucrânia – de militares russos na região de Khertson, adjacente à Crimeia, no Sudeste da Ucrânia.  
O governo de Moscovo anunciou também que o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, e o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, concordaram, também este domingo, em procurar uma solução para a crise ucraniana através de reformas constitucionais. Mas não foram dados pormenores sobre essas reformas, tendo apenas sido dito que deverão ser “aceitáveis” e ter em conta os interesses de “todas as regiões da Ucrânia”.
Segundo o Departamento de Estado norte-americano, Kerry reafirmou a Putin o entendimento de que o referendo é ilegal e que os EUA não reconhecerão o seu resultado.E que foi pedido à Rússia que apoie as reformas constitucionais que a Ucrânia pretende fazer e faça regressar os seus militares às bases. 
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou ao jornal Komsomolskaia Pravda que, apesar das críticas dos países industrializados que fazem parte do G8, a Rússia não vê razões para alterar a sua política externa.
Os comandantes das forças russas e ucranianas na península da Crimeia chegaram, também este domingo, a um acordo sobre o movimento de navios. A Rússia, que tinha bloqueado a entrada e saída de navios ucranianos (e o acesso às bases), comprometeu-se a deixar de o fazer... mas só até sexta-feira 21 de Março. O anúncio do acordo foi feito pelo ministro ucraniano Igor Teniukh.O bloqueio estava a impedir o abastecimento que, pelo menos durante alguns dias, poderá ser retomado.

PUTIN ARRISCA ISOLAMENTO INTERNACIONAL DA RÚSSIA

Bluff de Putin arrisca isolamento internacional da Rússia

Depois das divisões iniciais, o Ocidente alinhou-se e prepara sanções mais fortes contra a Rússia, caso a anexação da Crimeia vá em frente. Moscou pode ver-se afastada das decisões internacionais.


  O que fará Vladimir Putin com a Crimeia? Maxim Shemetov/Reuters

As fronteiras da Europa voltam a ser desenhadas este domingo, quando os habitantes da Crimeia se pronunciarem sobre a integração da península na Rússia. Mas o referendo está longe de ser um simples assunto interno da pequena península do Mar Negro. Após a contagem dos votos, a ordem geopolítica mundial pode alterar-se profundamente num espaço de semanas.

O resultado do referendo é largamente antecipado, numa região cuja maioria da população tem origem russa e onde o saudosismo em relação aos tempos da União Soviética é grande. Mas o que fará Vladimir Putin com a Crimeia? O líder russo tem surpreendido a generalidade dos observadores e a velocidade do processo na Ucrânia torna qualquer previsão arriscada. Uma das apostas de Putin poderá ser a de utilizar a Crimeia como trunfo negocial para obter vantagens no futuro político da Ucrânia.
Esta estratégia passaria por “pressionar o governo de Kiev a aceitar um modelo de federalização da Ucrânia, o que iria permitir que as regiões do Leste desenvolvessem relações mais próximas da Rússia”, explica ao PÚBLICO John Lough, do Programa Rússia e Eurásia do think-tank britânico Chatham House. “Isto iria colocar a Ucrânia numa situação em que está desunida e não poderia funcionar normalmente como país”, acrescenta.
Putin poderia aproveitar a janela de oportunidade dada pelos EUA na sexta-feira, que demonstraram abertura para aguardar pela anexação efetiva da Crimeia pela Rússia. Moscou aceita recuar na sua intenção, evitando sanções mais pesadas, e pode negociar a federalização da Ucrânia.
Mas o bluff de Putin pode vir a revelar-se demasiado arriscado. “As ações da Rússia na Crimeia começaram a consolidar-se de uma forma nunca antes vista”, nota Lough. O problema para Moscou é a expectativa já criada e um potencial recuo pode ser visto como uma demonstração de fraqueza do líder russo, ideia que desagrada bastante a Putin. John Lough questiona se haverá ainda um “botão de desligar”, para responder de imediato: “Parece-me que já se avançou demais.”

Resultado anunciado
Apesar da previsibilidade do desfecho da consulta da Crimeia, as autoridades pró-russas limitaram a margem para surpresas. A consulta é feita através de duas perguntas. A primeira refere-se diretamente à anexação do território pela Rússia: “É a favor da reunificação da Crimeia com a Rússia como parte da Federação Russa?”. A segunda pergunta é menos direta: “É a favor da restaurar a Constituição de 1992 e o estatuto da Crimeia como parte da Ucrânia?”.
O retorno à Constituição de 1992 confere uma autonomia alargada à Crimeia, conferindo o poder às autoridades regionais de integrarem a realidade territorial que desejarem. Na prática, a segunda opção permite que a Crimeia seja absorvida pela Rússia, o que significa que o referendo não dá voz à população que defenda a manutenção do status quo.
Perante a inevitabilidade da vitória da integração da Crimeia, o processo será muito rápido. Depois do referendo, as duas câmaras legislativas russas vão votar a anexação do território e irá caber ao Presidente a ratificação final. “Estas três ações devem demorar no máximo duas semanas e no final deste período já deveremos ter uma Constituição”, calculou recentemente o presidente do Parlamento regional, Volodimir Konstantinov, em declarações à agência estatal russa RIA Novosti. A Duma (parlamento russo) tem marcado para dia 21 na sua agenda oficial a discussão para a integração de um território estrangeiro, escassos cinco dias depois do referendo na península do Mar Negro.

Ocidente dividido
Pouco mais de uma semana se passou entre o pedido formal do Parlamento da Crimeia para a anexação do território, a 6 de Março, e o referendo deste domingo. Durante esse período a diplomacia mundial pôs-se em acção numa luta contra o tempo para evitar a marcha da região em direção a Moscou. Cada dia que passou simbolizava mais um falhanço das negociações, tornando-se cada vez mais numa conversa de surdos.
De início, tanto a Europa como os Estados Unidos divergiram entre si na forma como abordar Putin. No seio da União Europeia, sempre fustigada pelas demoras e hesitações nos seus processos decisórios, desenharam-se duas linhas de ação. Os Estados do Leste, encabeçados pela Polónia, pediam sanções fortes contra Moscou, motivados pelos receios de que a vitória na Crimeia possa lançar Putin em ofensivas semelhantes junto dos seus países. Por uma diferente estratégia alinhavam outros líderes europeus – com a chanceler alemã, Angela Merkel, na liderança – que mostravam preferência por sanções mais leves e por um discurso menos penalizador em relação a Putin.
“A opinião convencional até agora foi de que os alemães seriam guiados sobretudo pelos seus interesses comerciais”, observa John Lough. A Alemanha importa um terço do seu petróleo e gás da Rússia e há mais de seis mil empresas alemãs com negócios no país, de acordo com a Reuters. O Reino Unido também apareceu como partidário da abordagem mais cautelosa, alimentada por receios do impacto negativo que as sanções poderiam acarretar. Só na praça financeira de Londres estão cotadas setenta grandes empresas russas de hidrocarbonetos, como a Gazprom, a Rosneft ou a Lukoil, para além de que a capital britânica é dos locais mais escolhidos pelos oligarcas russos comprarem casas luxuosas.
Em Washington, a gestão do Presidente norte-americano, Barack Obama, foi duramente criticada. O republicano John McCain afirmou que a crise na Ucrânia é “o resultado de uma política externa ineficaz em que já ninguém acredita na força da América”. No início do seu mandato, Obama privilegiou uma política de “recomeço” (reset) nas relações com a Rússia, que hoje se encontra profundamente comprometida.

Sanções no horizonte
A velocidade vertiginosa dos acontecimentos na Crimeia – no espaço de duas semanas, milícias pró-russas tomaram os principais edifícios administrativos e bases militares, colocaram no poder autoridades pró-Moscou e foi marcado um referendo – veio pôr o Ocidente em estado de alerta e as posições passaram a ter maior coordenação nos últimos dias.
Apesar de as negociações terem continuado, sobretudo entre os ministros dos Negócios Estrangeiros dos EUA, John Kerry, e russo, Sergei Lavrov, o discurso dos líderes ocidentais endureceu. Obama recebeu o primeiro-ministro interino da Ucrânia, Arseni Yatseniuk, na Casa Branca, e afirmou estar do lado das novas autoridades, que Moscou se recusa a reconhecer. De Yatseniuk recebeu um pedido de ajuda militar para o país que ficou, de momento, suspenso.
Mas foi da Alemanha que veio o aviso mais duro. Num discurso surpreendentemente inflamado e emotivo, Merkel alertou, na quinta-feira, para a iminência de uma “catástrofe” caso a Rússia mantenha o apoio ao referendo da Crimeia. “Isso não iria mudar apenas a relação da UE com a Rússia, iria causar danos massivos à Rússia, econômica e politicamente”, disse a chanceler alemã. As declarações de Merkel indicam que “a Alemanha deverá tomar uma posição forte e impor sanções à Rússia”, nota o especialista da Chatham House, que diz serem “um problema sério” para Moscou.
Merkel é vista como a principal interlocutora europeia de Putin, com quem mantém relações diplomáticas há 14 anos, para além de ambos dominarem perfeitamente os idiomas um do outro. “Nem sempre foi [uma relação] fácil, mas Putin conhece Merkel melhor e respeita-a mais do que aos outros líderes”, afirmou à AFP o presidente do Fórum Alemão-Russo em Berlim, Alexander Rahr. A Alemanha chegou mesmo a apoiar as posições russas, mesmo quando contrariavam a linha ocidental. Foi o caso do veto de Merkel à entrada da Ucrânia e da Geórgia na NATO, durante a cimeira de Bucareste em 2008.
Contudo, nem a “relação especial” entre os dois líderes deverá dar frutos desta vez e a posição forte assumida por Merkel nos últimos dias reflecte isso mesmo. “Ela tem uma relação com ele, mas há limites para o impacto que isso possa ter”, nota Stefan Meister, do Conselho Europeu para as Relações Internacionais. “Putin tem uma estratégia muito clara em relação à Crimeia e não será persuadido pela Alemanha”, acrescentou o analista.

Isolamento russo
Na segunda-feira, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE vão reunir em Bruxelas para decidir se avançam para o próximo pacote de sanções contra a Rússia, que podem passar pelo congelamento de bens e pela suspensão de vistos de responsáveis russos. Mas mesmo sem a sua aplicação efectiva, a economia russa já está a sofrer com a incursão na Crimeia. A Goldman Sachs reviu em baixa as perspectivas de crescimento econômico da Rússia, passando de 3 para 1%, e a bolsa de Moscovo atingiu o valor mais baixo dos últimos quatro anos.
Mais forte do que qualquer sanção econômica poderá ser o impacto para o relevo da Rússia na cena internacional. Os países ocidentais “podem muito provavelmente concluir que Moscou é um parceiro duvidoso, que colocou em causa o quadro de segurança, não só na Ucrânia mas na região”, nota John Lough. “A questão que se coloca é ‘quão valiosa é a cooperação que tínhamos com a Rússia até agora, e será que ainda precisamos dela?’.”
Em risco podem estar importantes negociações que sentam à mesa a Rússia e o Ocidente, tais como o grupo 5+1 para o desarmamento nuclear do Irão ou as conversações de paz sobre a Síria. O caminho a tomar pela Rússia poderá vir a ser a grande dor de cabeça dos líderes ocidentais nos próximos anos.

A CRIMÉIA, O REFERENDO E O DIA SEGUINTE



Editorial
A Crimeia, o referendo e o dia seguinte
16/03/2014 - 00:55
Na Crimeia joga-se o futuro da mirífica união euro-asiática, mas também se pode jogar o seu fim.
No referendo deste domingo na Crimeia não é preciso sondagens (aliás, negadas ou falseadas) nem elaboradas análises para concluir que o resultado será maioritariamente pró-russo. Uma revisão rápida dos acontecimentos na Ucrânia após a queda de Yanukovych e a instalação de um novo e instável poder em Kiev permite perceber que, desde essa data, a Rússia tudo fez para que a Crimeia se encaminhasse para essa solução.
Mesmo que não usasse os seus exércitos, e usou-os; mesmo que não calasse as vozes adversárias, e calou-as, nomeadamente nos meios de comunicação social; mesmo que não ajudasse a espalhar o medo dos “nazis de Kiev”, e ajudou; a Rússia teria todas as condições para ganhar maioritariamente o referendo, pois ali dominou durante décadas. Do domínio tártaro, a Crimeia passou em 1783 para o Império Russo de Catarina a Grande, ao qual foi anexada como parte da província da Táurida; e no rescaldo da Revolução comunista de Outubro de 1917 foi integrada na União Soviética. O tempo em que esteve sob jugo nazi (agora usado como fantasma contra o atual poder de Kiev), de 1941 a 1945, antecedeu a sua entrega, em 1954, à República Socialista Soviética da Ucrânia, que era, à data, parte integrante da URSS, onde dominava a Rússia. Há uma razão, entre outras, para tal entrega: Krutschov, líder soviético à data, tinha nascido na Ucrânia. Neste rol de anos, os tempos de autonomia da Crimeia são demasiado breves para pesarem tanto quanto o domínio e a identificação russa: chegou a proclamar a independência já depois do colapso do comunismo, em 1992, mas não tardou a voltar a ser parte da Ucrânia, agora com estatuto de república autônoma. A frota russa do mar Negro continuou lá, em Sebastopol, durante todo este tempo. Mais precisamente desde a anexação de 1783.
A interrogação de hoje não é, pois, sobre os votos, mas sobre o que fazer com eles. Se, após a declaração de independência já votada (embora não aceite internacionalmente) pelo parlamento da Crimeia o referendo der o “sim” maioritariamente à integração na Federação Russa, o passo seguinte é que é determinante: a aceitação oficial, ou não, pela Rússia, de tal pedido. Vladimir Putin pode jogar com tal pedido e adiar a sua aceitação, para negociar o que lhe aprouver com outras nações a partir dos resultados; ou pode pôr em marcha o processo efetivo de secessão, desencadeando um verdadeiro sismo na ordem geopolítica mundial. Uma e outra opção têm custos e não há muito tempo para gerir soluções mais calculistas. Na Crimeia, incentivadas pelo poder russo, há já vozes que falam numa espécie de “cruzada” para “libertar” regiões da Ucrânia e isso, sim, poderá conduzir a conflitos armados pontuais ou a uma guerra em maior escala. A Rússia, que detém por enquanto as rédeas de tal encarniçamento, poderá travá-lo ou ampliá-lo à medida dos seus interesses, mas vai ter de tomar uma decisão rápida quanto às suas ambições. Na Crimeia joga-se o futuro da mirífica União Euro-asiática, mas também se pode jogar o seu fim. Começa hoje, para todos, o dia seguinte.