O ex-campeão do mundo de xadrez, e dissidente russo, Garry
Kasparov, compara o Presidente Vladimir Putin a Adolf Hitler e lamenta a
resposta do Ocidente à crise da Crimeia. "Se o Ocidente pestanejar,
passamos a 1939", disse em entrevista ao PÚBLICO.
Garry Kasparov está pessimista quanto ao desfecho da crise da Crimeia
Fernando Veludo/NFactos
Garry Kasparov, campeão do mundo de xadrez durante 15 anos, viaja
desde Fevereiro com um passaporte da Croácia: a nova cidadania, como
explicou ao PÚBLICO, é uma garantia de liberdade de movimentos. Por
causa da sua oposição ao regime de Vladimir Putin, que descreve como uma
ditadura, Kasparov deixou a Rússia para poder chamar a atenção do mundo
para o que se passa dentro do seu país. “A Rússia foi feita refém por
um gangue de criminosos”, observa.
Numa paragem pelo Porto, onde entregou os prémios do
Campeonato Europeu de Veteranos, organizado pela Federação Portuguesa
de Xadrez, Garry Kasparov discutiu o referendo da Crimeia, manifestou o
seu pessimismo quanto à atitude das potências ocidentais face à crise e
animou-se ao comentar a campanha para a presidência da Federação
Internacional de Xadrez (FIDE) – um processo que diz ser mais justo do
que a sua candidatura falhada contra Putin em 2007.
Tem
escrito vários editoriais sobre a atual crise na Crimeia, que no
domingo decidiu em referendo a separação da Ucrânia e integração na
Federação Russa. Esse processo não foi reconhecido pela União Europeia e
os Estados Unidos, que esta segunda-feira anunciaram sanções contra
vários dirigentes.
Acabei de ler que o Ocidente aplicou
sanções, mas o que li é uma piada. É uma reação extremamente débil, que
mostra que o Ocidente não tem determinação suficiente para se opor à
agressão e nem sabe muito bem o que fazer, uma vez que ainda está a
falar numa solução diplomática. Mas qual solução diplomática? Não se
negocia com terroristas. O que aconteceu na Crimeia foi a primeira vez
desde 1945 que se fez uma anexação – quer dizer, exceto quando Saddam
Hussein anexou o Kuwait.
Em 2008, o Exército de Putin invadiu a Geórgia…
Sim,
mas não anexou – e essa é uma distinção importante. Nessa altura foram
tímidos e nunca tentaram oficializar a anexação – embora o tenham feito,
de fato. Tiveram pudor em integrar a Ossétia do Sul e a
Abkházia na Rússia. Se tivesse havido uma reação mais forte em 2008,
talvez se tivesse evitado esta crise. Cada vez que se adia a resposta
forte contra um ditador, o preço sobe. Porque ele não vai parar. Putin
precisa de vitórias de política externa para melhorar a sua reputação e a
sua imagem na Rússia. Depois de estar no poder há 15 anos e com a
economia em queda, tem de provar ao público russo que tem uma causa.
Num artigo que escreveu para o The Wall Street Journal,
defendeu que o Ocidente devia “usar os bancos e não os tanques” para
conter a atual ofensiva russa na Ucrânia. Mas acabou de descrever a
reação como fraca. Quer isto dizer que a via militar passou a ser a
única resposta possível?
É fraca por causa dos nomes
envolvidos. O que Obama fez é uma piada. Foi atrás de alguns burocratas,
mas ninguém espera que os burocratas influenciem Putin – eles são
subordinados, são peões. O dinheiro a sério está nas mãos dos oligarcas,
que podem realmente influenciar os acontecimentos na Rússia. Se o seu
dinheiro ficar em risco, acho que eles serão capazes de encontrar uma
maneira de lidar com Putin. Neste momento, estas sanções terão o efeito
contrário: terão um efeito reduzido, se é que terão algum, e apenas
aumentarão a confiança de Putin, que reconhecerá que o Ocidente é
demasiado fraco para ir atrás dos peixes grandes.
Na sua opinião, qual é o objetivo da Rússia com esta operação? Ainda há alguma hipótese de travar a escalada?
Putin
só tem uma preocupação na vida, que é manter-se no poder. Os líderes
ocidentais ainda acreditam que podem negociar com ele, mas Putin é uma
causa perdida. Ele não tem nenhuma maneira de desistir desta operação: o
Führer, o líder, não sobrevive na derrota, por isso ele só pode
avançar. Onde é que isto pode parar? Não sei. A Ucrânia tornou-se vital
porque os acontecimentos em Kiev enviaram o sinal errado ao povo russo.
Para Putin, a Crimeia é o gatilho. Por isso acho que ainda avançará
mais: ele quer remover o Governo ucraniano. Por isso fez todas aquelas
declarações a dizer que não reconhecia o Governo, e por isso a Rússia
quer todas estas mudanças constitucionais para tentar travar as eleições
a 25 de Maio. Esse é um momento importante: se a Ucrânia conseguir
sobreviver sem grande agressão até essa data, realizar as eleições e ter
um Presidente e um Governo legitimamente eleito, Putin perdeu o jogo. E
é por isso que ele está a tentar provocar a instabilidade no leste da
Ucrânia. Hoje vemos as notícias e são os provocadores russos que passam a
fronteira para criar tensão e tentar atiçar a violência.