sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Na Praça da Independência em Kiev: “A nossa luta está a ser vitoriosa”

Milhares de manifestantes não arredam pé da Maidan, território da oposição transformado em campo de batalha.


Kiev amanheceu com paz e um sol intenso a fazer derreter as barricadas feitas de neve e sacos de gelo. Uma das tarefas dos manifestantes, que agora dominam por completo a Praça da Independência e arredores, é substituir a neve por sacos de pedras.
A atmosfera é de medo e desconfiança, mas também de triunfo. Muitos estão vestidos como guerreiros, camuflado, capacete, escudo metálico e bastão, ou mesmo colete à prova de bala. Vê-se que permanecem alerta, como quem espera um ataque, mas também com a confiança de quem consolidou o território.
A paisagem é de campo de batalha, com os seus montes de detritos, pneus, pontos de armamento, munições e extintores, tendas de lona verde e uma fuligem negra cobrindo tudo e pairando sobre as carcaças de contentores e carros incendiados.
Mas a rudeza está sobretudo nos rostos e nas mãos. Os que aqui passaram a noite, defendendo as posições na praça depois de três dias de massacre que fizeram mais de cem mortos, não parecem estudantes, intelectuais ou a classe média ucraniana. Têm antes ar de camponeses pobres, operários ou velhos rufias desempregados, um lumpen excedentário das fábricas comunistas, do caciquismo do PCUS ou das campanhas do Afeganistão. Gente que nunca teve um lugar na sociedade pós-soviética.
Enquanto as negociações prosseguiam durante toda a noite, entre o Presidente e representantes da oposição, mediadas pelos chefes das diplomacias alemã, francesa e polaca, os manifestantes mantinham-se firmes na praça que sentem já ser deles.
Todos os acessos à Maidan (a praça) estão bloqueados com barricadas de mais de três metros de altura, delimitando um perímetro agora muito mais vasto do que o ocupado pelos protestos antes dos ataques policiais dos últimos dias. Os manifestantes alargaram a zona “libertada” e organizaram os seus piquetes, barreiras e apoio logístico.
Não há quaisquer forças policiais à vista, os manifestantes dominam todo o centro de Kiev. Nas primeiras horas da manhã milhares de pessoas já enchiam a Maidan, embora reinasse um estranho silêncio, só quebrado pelos discursos dos ativistas que se sucediam no palco, pelos cânticos de padres e velhos cossacos, ao lado de uma estátua da Virgem com um manto branco e muitos quadros representando o rosto de Cristo, entre velas acesas.
“Os polícias são animais, porque atacaram uma tenda onde havia figuras e vários objetos religiosos”, diz Alexander, 58 anos, ex-membro de um grupo de forças especiais soviéticas. Refere-se ao assalto que as forças policiais lançaram sobre os manifestantes da praça, provocando mais de 70 mortos. “Eles atacaram por ali”, aponta. “Mas os snipers profissionais ficaram naqueles prédios, e era de lá que iam apontando aos manifestantes que estavam no meio da praça, abatendo dezenas, um a um.
Alexander e o seu amigo Oleg, de 54 anos, passaram a noite na Praça da Independência. Oleg é treinador profissional de luta greco-romana, mas, por ter vindo para a praça, perdeu o emprego. “Yanukovych é um fascista”, diz ele. “Anunciou um dia de luto pelos mortos, fez hastear por todo o lado as bandeiras a meia-haste, e depois lançou a polícia contra o povo, para provocar ainda mais mortos. Ultrapassou todos os limites.”
Alexander e Oleg deslocaram-se para a praça em protesto contra a morte dos primeiros estudantes que tinham vindo manifestar-se pacificamente. “Os protestos iniciais eram pacíficos, protagonizados por jovens. Só depois da repressão policial é que nos tornamos também agressivos.” Oleg bate no peito com os nós dos dedos, mostrando o colete à prova de bala, e indica o arranhão no capacete provocado, segundo ele, pelo tiro de um sniper da polícia.
“A nossa luta está a ser vitoriosa. A partir de agora, as coisas só podem melhorar. Acho que é inevitável que o Presidente convoque eleições. O Governo vai mudar”, diz Oleg, que se diz simpatizante dos partidos radicais de direita. Alexander está menos confiante. O que está em jogo é demasiado importante, pensa ele, para que o conflito se resolva de forma simples. “Não é só Yanukovych. Ele é apenas uma marionete nas mãos de Vladimir Putin.” Expõe uma algo intrincada teoria sobre a Ucrânia ser o centro da Europa (Se virarmos o mapa ao contrário, Kiev fica no lugar de Londres”), e conclui: “Não vai ser fácil. Putin é o homem mais perigoso do mundo.
Entre os manifestantes há, aliás, quem esteja convencido de que as forças russas já estão infiltradas nas unidades policiais da Ucrânia. “Ninguém sabe, neste país, mas eu tenho a certeza de que há muitos russos misturados com a Berkut [a força especial da polícia ucraniana]”, diz Sveta, 37 anos, que acaba de chegar de Ternopil, uma cidade do Oeste da Ucrânia. Veio num dos cinco autocarros que há dias trouxeram manifestantes para a Maidan. Deixou em casa dois filhos e abandonou o emprego de cabeleireira. “Vim para dizer que é preciso acabar com a violência.” Não se importou de perder o trabalho, porque o salário não era suficiente para alimentar os filhos. Para ela “o que é importante, neste momento, é a liberdade. Yanukovych é um ditador, e é preciso livrar o país dele e da ditadura”.
Leo, 27 anos, georgiano e marido de Sveta, completa a visão dela com uma perspectiva mais global e oblíqua: “Há uma conspiração da maçonaria e dos milionários americanos para destruir a Ucrânia. Não acha?” E perante tal evidência não é difícil concluir que a situação apenas tenda a complicar-se: “Isto é o princípio de uma grande guerra entre a Ucrânia e a Rússia.”
Sveta não acompanha o raciocínio, mas concorda que é preciso fazer qualquer coisa: “Eu tenho muito medo de estar aqui. Mas é a minha obrigação. Eu vim para dizer que as mulheres e as mães do Ocidente da Ucrânia estão com a Maidan.”

UCRÂNIA: MOSAICO DA ÚLTIMAS NOTÍCIAS

O Parlamento proibiu "operações antiterroristas". 

236 deputados aprovaram a resolução que proíbe a realização a realização na Ukraina de "operações antiterroristas", prevê a volta de todas as forças especiais para os seus locais de implantação permanente e fim do bloqueio de todas as rotas. A resolução também encarrega o serviço de Segurança e o Gabinete do Procurador Geral de tomar as medidas adequadas contra aqueles cidadãos que convocaram contra a integridade do território e os truculentos  devem liberar todos os detidos a partir de novembro do ano passado.

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Morte de pessoas.  "Berkut e "titushky formavam os bandos" - especialista militar

 Частина вбитих силовиками учасників протесту проти режиму Януковича, 20 лютого 2014 року
Produto da sanha de um presidente psicopata

Kyiv - trégua, anunciada pela oposição e Ministério do Interior não impediu os confrontos somente no dia 20 de fevereiro de, depois de seu anúncio, de balas de franco-atiradores de grosso calibre, morreram aproximadamente 30 pessoas, dizem os líderes do Maidan. O Ministério do Interior fala de 9 soldados mortos (Mentira!!! Se fosse verdade, o governo estamparia as fotos dos soldados em todos os jornais para desqualificar a oposição - O Cossaco). Os especialistas militares rejeitam a amplamente divulgada informação nos meios de comunicação russos que os rebeldes disparam contra os seus, em vez disso eles supõem que os franco-atiradores vieram da Rússia, ou eram funcionários do Serviço de Segurança que anunciou recentemente uma operação antiterrorista contra os ativistas do Maidan.
De 70 a 100 ativistas morreram nos últimos dias no centro de Kyiv, segundo Stepan Kubiv, um dos comandantes do Maidan.
Professora Olga Bohomolets, coordenadora do auxílio médico no Maidan, disse que as lesões de bala mais comuns foram na cabeça ou no pescoço.

Deputado Oleksandr Bryhynets viu como, da janela do hotel Ukraina, um franco-atirador atirou num manifestante, que morreu
A arma deles é atual. Quando no palco do Euromaidan mostraram o distintivo russo (usado na manga esquerda ou no peito do uniforme de soldados ou oficiais ), comecei a inclinar-me para a idéia de que os atiradores vieram da Rússia. Os manifestantes, de modo algum atirariam nos seus. Isto é um absurdo! Me corta o ouvido quando todos dizem - operação antiterrorista porque está é operação é terrorista., porque a formação dos bandos hoje é Berkut e "titushky" - indigna-se o especialista militar.

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Maidan. Assassinato de pessoas. Conselho suspende as execuções.

Oposição e ativistas conclamam todos para permanecer no Maidan. O Parlamento proibiu"operações antiterroristas." 

No Maidan, aproximadamente 30 mil pessoas. O deputado Oleh Liashko anunciou, que amanhã, o Parlamento pretende, entre outros assuntos, tomar a decisão de mudar a sua gestão e afastamento de Zakharchenko, Ministro do Interior.
Um grande número de pessoas parou para rezar.

Os sacerdotes, no palco do Maidan, rezam pelos participantes do Maidan que foram mortos.

Como nunca, os ukrainianos podem compreender a dor dos outros e a injustiça. aos jornalistas no Egito, por desempenharem seu trabalho, ameaça prisão.

Euromaidan: mais cinco deputados saíram do Partido das Regiões. São eles: Moshak, Kovash, Haiduk,Lanhov e Dushkar.

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O ativista social Bohdan Hloba informou em sua página no Facebook que os moradores de Poltava bloquearam a rota Poltava Kharkiv para não deixar "titushkas" ir a Kyiv. Os locais Berkut e polícia completamente passaram para o lado do povo, escreve ele. Eles ajudam proteger a pista. Os truculentos passaram para o lado do povo também em Uzhhorod, Rivne, Lutsk, Ternopil. De outras cidades também mas ainda há necessidade de verificação formal.

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Os ministros do Exterior da França, Alemanha e Polônia sentiram na própria pele como é passar entre o Berkut no quarteirão governamental. Os jornalistas, nos últimos meses aí não eram permitidos. Felizmente os ministros passaram.

Sanções da União Européia: Congelamento dos ativos dos representantes do regime Yanukovych

Bruxelas - dividido entre a missão de negociações em Kyiv e reunião de emergência de diplomatas europeus em Bruxelas, a UE, na quinta-feira, finalmente chegou a uma decisão categórica: aplicar a proibição de introdução na Ukraina meios técnicos de repressão, recusar a entrada e congelar os ativos dos culpados na morte e violência na Ukraina.
Todas as conclusões técnicas deste passo,incluíndo listas dos responsáveis pela violência e assassinatos na Ukraina feitas mais tarde. Obviamente, já no dia 21 de fevereiro.

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Yanukovych concordou com a realização de eleições  antecipadas neste ano.
O premier Donald Tusc da Polônia  durante as negociações com os representantes da UE manifestou sua disponibilidade para realização das eleições antecipadas neste ano. Ele disse, que o presidente também manifestou sua disponibilidade para criar um governo de unidade nacional nos próximos dez dias, e introduzir as mudanças na Constituição até o verão deste ano.
"Mas nós acreditamos que é difícil levar a sério estas propostas no contexto de ainda não concluídas obrigações de Yanukovych. A experiência mostra que os compromissos que assumem as autoridades ukrainianas raramente são executadas", - acrescentou o Premier polonês.

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Yanukovych interrompeu sua reunião com os ministros europeus para chamar Putin, relata Gazeta Wyborcza, com referência a agência PAP.

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Em vez de votar no Parlamento, os regionais fogem da capital.

O texto lista vários deputados que viajaram para fora de Kyiv. Alguns viajaram com suas famílias, outros enviaram para fora somente as famílias. Serviram-se de voos charter do aeroporto de Boryspil ou do aeroporto Juliani.

Para negociações, à administração do presidente Yanukovych, às 1h 20min da noite chegou o embaixador russo para Ukraina Mikhail Zubarov e o comissário para os direitos humanos da FR Volodymyr Lukin. À pergunta do correspondente da "Verdade Ukrainiana" com que proposta ele veio a Kyiv e do que lhe encarregou o presidente da FR Vladimir Putin, Lukin respondeu: "com proposição de paz".

Tradução: Oksana Kowaltschuk

UCRÂNIA: A EUROPA ACORDOU TARDE



Editorial

Bruxelas devia ter exigido a Yanukovych que abandonasse o poder.

Kiev assistiu ontem ao dia mais mortífero desde o início dos protestos, com pelo menos várias dezenas de mortos.


A Comissão Europeia acordou e decidiu aplicar sanções ao regime ucraniano, uma decisão que Moscou considerou um ato de chantagem, ao mesmo tempo que apoiava o recurso à violência pelas autoridades. Os desafios à legitimidade do poder central e as ameaças de secessão multiplicam-se, do Ocidente pró-europeu à Crimeia pró-russa. A única questão ainda sem resposta é saber se a Ucrânia já ultrapassou o ponto de não retorno ou se ainda há uma esperança, por tênue que seja, para o regresso ao diálogo.

Informações não confirmadas davam conta de que o Presidente Yanukovych estaria disposto a aceitar eleições antecipadas e a criação de um governo de unidade nacional. Mas conhecendo os antecedentes de Yanukovych, há todas as razões para desconfiar que ele apenas pretenda ganhar tempo e introduza nessa negociação, se ela vier a acontecer, todo o tipo de expedientes que a tornarão inútil.

Era preciso que o poder russo, que apoia e paga a conta ao regime de Kiev, desse o mínimo sinal a favor de uma solução negociada para o conflito. Mas de Moscou têm vindo mensagens em sentido contrário.

Parece claro que Yanukovych nunca teria tomado a decisão de atacar os manifestantes se não pensasse que a resposta europeia ia ser tímida e ineficaz, como foi. Bruxelas acordou tarde e as sanções terão muito pouco poder para intimidar o regime. Apenas o risco de desagregação interna pode neste momento levar o Presidente a mudar de posição. Ora, no ponto a que a crise chegou, a única saída possível para Yanukovych era tomar a iniciativa de se demitir e sair da cena política. Era isso, aliás, que Bruxelas devia ter exigido.

Ninguém previu que o gigante ucraniano corria o risco de se desmoronar. Ou que a esperança de democracia dos ucranianos teria merecido bem mais do que anos e anos de indiferença da União Europeia.


Se a Ucrânia se partir, a Rússia ganhará sempre alguma coisa

Kiev é fundamental para o sucesso da união euroasiática de Putin. Por isso, Moscou não deixará de interferir na política ucraniana.
 
A pergunta está na boca de quem olha para a escalada de violência sem que se desenhe uma solução clara: é preciso que a Ucrânia se parta, com o Leste simpatizante dos russos para um lado, e o Ocidente, onde a maioria das pessoas fala ucraniano, para outro? A resposta, como tudo na Ucrânia, depende também do fator russo.

Os alicerces de um país que só se tornou independente após a queda da União Soviética estão a ser postos em causa pelos protestos contra o regime de Viktor Yanukovych. A Ucrânia combina territórios que foram do Império Austro-Húngaro, no Ocidente, com zonas onde a maioria das pessoas falam russo, no Sul e no Leste.
As tensões étnicas refletem-se na política: há uma coincidência quase perfeita entre as zonas onde são maioritários os falantes de russo e os resultados das últimas presidenciais, ganhas por Viktor Yanukovych. Refletem-se também na onda de violência: no Sul e no Leste, há relatos de que tituski, milícias privadas que apoiam a polícia, estão a colaborar na repressão dos protestos. Nas províncias do Leste, que faziam parte da República Socialista Soviética antes da II Guerra – antes do resto de o território ter sido anexado pelo Exército Vermelho – Yanukovych, um filho da região, é menos impopular do que no resto do país.
A especulação sobre as tensões foi reforçada com notícias de que Vladislav Surkov, um conselheiro do Kremlin que lidou com as regiões separatistas da Geórgia Abkházia e Ossétia do Sul foi visto em Kiev e na Crimeia, diz a revista The Economist. E o presidente do parlamento da Crimeia sugeriu que a região poderia separar-se do resto do país. Ali está estacionada a frota russa do mar Negro e dois terços dos habitantes são russos étnicos.
Em Moscou, traçam-se cenários de contingência prevendo a divisão do país, relata o jornal Christian Science Monitor. Andrei IlIarionov, um ex-conselheiro econômico do Presidente Vladimir Putin, enumerou as opções possíveis no seu blogue – e a fratura da Ucrânia não é, de todo, algo que assuste os russos.
O cenário preferido de Moscou, e que tentou forçar até agora, é a imposição de um governo autoritário em Kiev, do gênero do de Vladimir Putin e dependente em termos econômicos e políticos da Rússia. Uma guerra civil poderia levar à divisão permanente da Ucrânia, com a parte pró-ocidental a juntar-se à União Europeia, e a mais russificada a permanecer na órbita de Moscou. Esta opção também é aceitável para o Kremlin, sugere Yllarionov. Finalmente, se a oposição sair a ganhar do atual confronto, então a Rússia poderia usar a carta de uma Crimeia separatista para gerar instabilidade na Ucrânia.
O que será certo, defende o historiador Timothy Snyder, professor em Yale (Estados Unidos) e autor do livro Terra Sangrenta – A Europa entre Hitler e Estaline (Bertrand) em vários artigos publicados esta semana, é que Moscou não está disposta a tolerar uma democracia em Kiev. É que a Ucrânia é fundamental para realizar a sua pretendida união euroasiática com ex-repúblicas da antiga URSS. Esse bloco econômico e político “tem de ser constituído apenas por ditaduras, dado que qualquer sociedade livre que a integrasse desafiaria a governação russa. Por isso, Moscou tem de ter na Ucrânia um vizinho autoritário e fácil de manipular”.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

AÇÃO COVARDE DOS BERKUT

Muitos ucranianos da oposição ao governo corrupto, déspota e pró-comunismo, não morreram no confronto contra a truculência da milícia de Yanukovych, mas foram covardemente assassinados, conforme se pode constatar por este vídeo.
O Cossaco.

OS PROTAGONISTAS DA BATALHA DE KIEV

A violência conheceu um novo extremo na capital ucraniana nos últimos dias. Desde Novembro que os protestos se modificaram e a Praça da Independência vive momentos de elevada radicalização.


Presidente e líderes dos partidos da oposição têm sido os rostos da negociação. Mas nas ruas, são os grupos informais que lideram as acções mais violentas.


Viktor Yanukovych
No poder desde 2010, Viktor YanukovYch, de 63 anos, viu a sua reputação afectada depois de suspeitas de fraude eleitoral nas eleições de 2004, na origem da Revolução Laranja. Com a queda crescente da popularidade de Yulia Tymoschenko, Yanukovych conseguiu vencer as eleições de 2010 por uma pequena margem de 3% dos votos, num sufrágio considerado limpo pelos observadores internacionais.
A base de apoio ao Partido das Regiões encontra-se sobretudo no leste do país, nas regiões mais próximas da Rússia, tanto ao nível cultural como econômico. Cidades como Donetsk, Kharkov e Luhansk têm uma população considerável de falantes de russo e de russos étnicos. O primeiro idioma de Yanukovych é russo, apesar de ter aprendido ucraniano desde que tomou posse.
Num país onde o poder econômico se confunde frequentemente com o poder político, os oligarcas exercem uma influência assinalável. No Parlamento, por exemplo, apesar de os deputados estarem divididos em grupos parlamentares partidários é a lealdade a um empresário poderoso que muitas vezes se torna determinante.
Yanukovych conta com o apoio de Rinat Akhmetov, o homem mais rico da Ucrânia, com uma fortuna avaliada pela Forbes em 15,4 milhões de dólares (11,2 mil milhões de euros). Akhmetov fez fortuna na exploração mineira na região de Donetsk, que já foi governada por Yanukovych, – onde também é proprietário do clube Shakhtar Donetsk.
Apesar de aparecer hoje como um aliado de Moscou, publicamente Yanukovych sempre alinhou por uma política de aproximação à União Europeia. Numa entrevista à BBC, chegou a afirmar que “a integração da Ucrânia na UE continua a ser o objetivo estratégico”. A primeira viagem oficial que fez foi precisamente a Bruxelas.
Uma das principais críticas sobre Yanukovych é a suspeita que recai sobre a chamada “família”, um círculo próximo do Presidente que terá enriquecido à custa de favorecimentos ilícitos.

Vitali Klitschko
É provavelmente o rosto mais conhecido da oposição ucraniana, muito devido à sua carreira no boxe profissional. Vitali Klitschko, de 42 anos, iniciou a sua carreira política com uma candidatura à Câmara Municipal de Kiev, em 2006, tendo ficado atrás do vencedor. Nas eleições locais de 2008, Klitschko conseguiu 15 lugares no Conselho de Kiev, depois de ter contratado como consultor o ex-mayor de Nova Iorque, Rudolph Giuliani.
Mas foi a partir de 2012 que o ex-campeão mundial de pesos pesados alcançou maior notoriedade. Foi nesse ano que fundou o seu partido, o UDAR (a Aliança para a Reforma Democrática Ucraniana, cujas siglas significam “murro”), tendo alcançado 14% dos votos nas legislativas, apostando numa num programa anti-corrupção.
Durante os protestos dos últimos meses, Klitschko apresentou o discurso mais pró-europeu e tem aproveitado a sua forte popularidade na Alemanha, onde fez grande parte da carreira, para construir ligações ao Ocidente. No entanto, a proximidade forte à Alemanha também lhe valeu críticas, obrigando-o a renunciar à nacionalidade alemã recentemente.
As principais fraquezas que lhe são apontadas são a inexperiência política – nunca exerceu qualquer cargo público – e as fracas capacidades oratórias. Mas o próprio Yanukovych vê em Klitschko o principal adversário nas eleições presidenciais de 2015, segundo vários analistas.

Arseni Yatseniuk
Lidera o partido Batkivshchina (Pátria), tendo sucedido a Yulia Tymochenko, após a sua detenção, apesar de a “musa” da Revolução Laranja continuar como líder formal. Aos 39 anos, Iatseniuk já passou por vários cargos políticos de relevo, tendo assumido as pastas dos Negócios Estrangeiros e das Finanças em governos anteriores e ter liderado o Parlamento.
Foi a Yatseniuk que Yanukovych ofereceu a liderança do governo, a 25 de Janeiro, na tentativa de fazer cessar os protestos. Num primeiro momento, Iatseniuk afirmou estar pronto para “assumir as responsabilidades”, mas logo recuou e esclareceu que não iria aceitar o “presente envenenado” do Presidente.
Yatseniuk está longe de ser o líder mais popular junto dos manifestantes, faltando-lhe o carisma reconhecido a Tymochenko. Mas é o reconhecimento da sua experiência política que o apresenta como uma aposta segura numa futura administração. Pelo menos foi essa a indicação dada pela vice-secretária do Departamento de Estado norte-americana, Victoria Nuland, durante uma conversa telefônica que chegou a público nas últimas semanas.

Oleg Tiahnibok
O líder do partido nacionalista Svoboda (Liberdade), de 45 anos, tem sido gradualmente afastado das conversações com a presidência. Oleg Tiahnibok foi o único líder da oposição a quem Yanukovych não ofereceu qualquer cargo de governo, numa demonstração clara de que este partido não deverá entrar nas contas do poder no futuro.
O Svoboda alcançou cerca de 10% dos votos nas eleições de 2012 e tem sido uma das forças mais mobilizadoras nas ruas. A presença de Tiahnibok, que chegou a referir-se à “máfia judaico-russa que domina a Ucrânia", ao lado de uma oposição pró-européia causa estranheza e preocupa os analistas.
A base de apoio do Svoboda é também o ocidente do país, tal como acontece com os outros partidos da oposição. No entanto, o confronto com Yanukovych é feito por razões bastante diferentes. Defensores da língua e da pátria ucraniana, criticam a subserviência do poder em relação a Moscou e o domínio dos oligarcas pró-russos. A cooperação com os outros partidos parece ser apenas circunstancial, o que será certamente fonte de vários problemas no futuro.

Setor Direito
Trata-se de um grupo sem qualquer filiação partidária, nascido no seio dos protestos, e que tem estado à frente dos confrontos mais violentos dos últimos meses, segundo vários correspondentes em Kiev. A entrada em cena do Praviy Sektor nos protestos coincidiu com a “transferência” do palco dos confrontos da Praça da Independência para a área perto do estádio do Dínamo de Kiev, na altura em que a violência subiu de tom.
Apesar da página do grupo na rede social de língua russa Vkontakte ter 100 mil apoiantes, no terreno o “Setor Direito” deverá contar com 300 membros, segundo a Reuters. O grupo tem uma ideologia pouco coerente, sendo que aquilo que define o Setor Direito é a ação direta.
Formado em grande parte por adeptos violentos de clubes de futebol – o nome “Setor Direito” está relacionado com uma zona dos estádios –, o grupo organiza-se através de milícias de autodefesa e são vistos em sessões de treino paramilitar em plena Praça da Independência.
O seu quartel-general era a Casa dos Sindicatos, entretanto incendiada durante os confrontos dos últimos dias. Ocupam, desde quarta-feira, o edifício central dos correios.

Causa Comum
Outro dos grupos formados durante os protestos. É menos violento do que o Setor Direito e os seus membros partilham uma ideologia nacionalista. Apresentam-se mais como um movimento social e foram notados pela permanente ocupação de edifícios.
Esse ato é visto pelos seus membros como “um ato de resistência”, que tentam sempre levar a cabo sem violência. Foram membros do Spilna Sprava que ocuparam o edifício do Ministério da Justiça, levando à primeira ameaça de declaração do estado de emergência no país.
Mais recentemente protagonizaram algumas cenas de violência contra outros manifestantes que os tentavam retirar do edifício do Ministério da Agricultura.

A BATALHA DE KIEV - II

O número de mortos pode estar perto dos 50, segundo as estimativas do jornalista Maxim Eristavi, em declarações à BBC. “O número de mortos é impressionante. Eles [as autoridades] pensam aproximar-se de 50”, afirmou. A mídia local aponta para 35 mortos esta manhã, mas o número pode subir à medida que vêm chegando relatos de novos cadáveres encontrados.







Principais acontecimentos do dia 19.02.2014.

1:13 - Merkel não conseguiu falar  (ao telefone) com Yanukovych. EUA pedem para afastar os truculentos.

1:34 - Ativistas de Odessa não conseguiram impedir a ida do Berkut a Kyiv.

1:34 - Está queimando o prédio dos sindicatos em Kyiv, sede da resistência nacional. Os bombeiros estão apagando o fogo. Todas as pessoas conseguiram sair.


1:42 - O Ministério do Exterior da Rússia culpou o Ocidente pela situação na Ukraina.

1:51 - Polícia abriu processo penal devido a captura da Administração Estatal Regional de Ivano-Frankivsk. A responsabilidade máxima sob esta seção, na forma de prisão, é de seis anos. Também foram capturadas as administrações regionais do Ministério do Interior.

2:15 - Os líderes da oposição não conseguiram nenhum acordo com Yanukovych. "O presidente disse que apenas havia uma saída - deixar tudo, limpar Maidan, e todos devem ir para casa".  É tudo o que o presidente disse, acrescentando que a responsabilidade pelas mortes das pessoas recai sobre a oposição, contou Klychko.

2:16 - Em Lviv, os protestos tomaram o setor do exército, procuradoria e o Serviço de Proteção da Ukraina.
Os militares deixaram a sede sem luta. Porém, devido aos coquetéis Molotov, que uma parte dos protestantes jogava do quartel, pegou fogo. As pessoas tentam apagar o fogo com baldes d'água, sem resultado. No local há, mais ou menos 10 mil pessoas. Suas atividades não são coordenadas, enquanto uns tentam apagar o fogo, outros jogam coquetéis Molotov.
Os protestantes conseguiram entrar no prédio do Serviço de proteção da Ukraina. Não houve resistência.
O prefeito de Lviv Andrii Sadovyi chamou os acontecimentos na Ukraina "Catástrofe humanitária", cuja culpa é do governo. "Em particular dirijo-me aos trabalhadores das estruturas de força de Lviv, venham e voltem suas armas para proteção das pessoas - seus familiares, vizinhos e amigos. Compreendam - a menor agressão de sua parte às pessoas terá força multiplicada em resposta, e contê-la será impossível, - escreveu ele no Facebook. No entanto, Sadovyi conclamou também os manifestantes ao comedimento: "Povo de Lviv, abstenham-se de justiçamentos, hoje, como nunca precisa agir friamente", - disse Sadovyi.
Os hospitais estão prontos para receber os feridos.
"Os pais devem acompanhar os filhos à escola, também no retorno" - acrescentou o prefeito.

2:18 - Fredom House: Yanukovych deve renunciar porque perdeu a legitimidade.

3:08 - Em Kyiv, desconhecidos mataram dois funcionários do DAI (Inspeção rodoviária estatal).

3:29 - Na ilha Trukhanov em Kyiv encontraram um corpo com lencinho de autodefesa do Maidan no pescoço. O corpo foi identificado pela cópia de documentos, como de Volodymyr Naumov, da aldeia Shevchenko. A versão oficial é que a pessoa pulou da ponte de pedestres.

3:48 - Yanukovych ameaça os dirigentes da oposição com abertura de processos penais, diz o líder do partido Pátria Arsenii Yatseniuk. "As negociações acabaram em nada, Yanukovych considera que a oposição não observa acordos", - escreveu Yatseniuk no Facebook.
Segundo Yatseniuk à posição da oposição restava apenas uma saída proposta pelo governo: desistência e abandono do território do Maidan.
"Porquanto não foi declarada trégua, e desejo disto o governo não tem, então nós realmente estamos no limiar da página mais dramática da história do nosso país", - disse Yatseniuk.
"Nós vamos ficar com as pessoas. No Maidan as pessoas são pacíficas, e estas pessoas tem o direito de ficar aqui e continuar o seu protesto pacífico," - disse o político.

4:28 - Os truculentos novamente avançaram ao Maidan. Algumas tendas estão queimando. Pegou fogo o prédio da Conservatória.


5:13 - Em Lutsk aproximadamente 150 ativistas piquetearam a repartição do Ministério do Interior da Ukraina.  O sub-dirigente Volodymyr Polishchuk pediu aos manifestantes para se dispersarem, porque os policiais "Também são filhos de alguém". Mas os ativistas lhe lembraram os mortos em Kyiv e lhe apresentaram uma declaração que ele, Polishchuk, condena a violência em Kyiv e conclama os truculentos de Volyn, que aí se encontram, ir embora. Polishchuk concordou. Ainda os ativistas danificaram as rodas do ônibus em que estavam os policiais. Eles foram obrigados descer do ônibus e foram conduzidos pelo "corredor da vergonha" ao interior da repartição. Depois disso os manifestantes foram piquetear o escritório do Partido das Regiões. 

5:52 - Yanukovych lembrou à oposição: ou se benzem dos ativistas, ou prisão.

6:26 - No hospital morreu o jornalista do jornal "Vesty" (palavra russa, significa levar, conduzir, jornal de Moscou) Viacheslev Veremii. Ele estava num táxi com seu colega Oleksii Lemarenko. Quando o táxi parou no sinal, pessoas com bastões e armas, em capacetes, camuflagem e máscaras pretas começaram balançar o carro e lançar sobre ele coquetéis Molotov. As pessoas foram retiradas e brutalmente espancadas. O motorista foi ferido na perna, Lemarenko teve o rosto desfigurado e Veremii recebeu um tiro no peito.

9:37 - Em Lutsk queimaram os escritórios dos partidos Comunista e das Regiões.

9:40 - Como chegar a Kyiv: há caminhos fechados, isto é, quase todas rodovias tem as pistas com aterros de areia, apenas com uma faixa livre. Em todos os locais está DAI (inspeção rodoviária estatal)). Apenas está livre a entrada de Veshhorod.
Na capital, até 2 quilômetros ao redor do Maidan está a inspeção rodoviária estatal com 3 ou mais carros. Até nas pequenas travessas está DAI com autômatos. Eles revistam o interior dos carros, inclusive bagageiros.

10:56 - O Conselho Popular de Lviv  assumiu total responsabilidade pelo destino da região e assumiu o controle de todos os departamentos executivos. Na presidência do Conselho Petró Kolodii, representante dos deputados, autodefesa, outras organizações, ativistas da comunidade, conhecidos intelectuais. Permanecem os Conselhos escolhidos pela população. O principal objetivo é apoio à proteção da vida, da lei e da ordem e colaboração no envio de ativistas a Kyiv, e abastecimento do Maidan de Kyiv com tudo o que for possível.

11:01 - Dólar sobe para 8,99 UAH.

11:34 - Hrytsenko: Ministro da Defesa ordenou engajar os militares.

11:51 - Zakharchenko diz não sentir responsabilidade pelo derramamento de sangue.

11:58 - Kolesnichenko diz, que as mortes no Maidan - na consciência de Merkel, devido a sua intolerância. Klychko e Yatseniuk receberam de Merkel carta branca para forçar a questão. Ele também está indignado com outros líderes europeus. Ele acha que o presidente da Polônia e os representantes dos EUA que, segundo ele ocupavam-se com provocações, financiam esta situação. 
(O cara, no íntimo, sente a própria culpa e tenta enganar a si mesmo. Nunca li nada desse tipo nas declarações das pessoas citadas - OK). E, não há necessidade de decretar Estado de Emergência na Ukraina, porque Maidan é um conflito local, "chupado do dedo".

12:16 - Yanukovych após se recusar à negociação anunciou dia de luto pelos manifestantes mortos, dia 20 de fevereiro.

12:23 - UE prepara sanções urgentes por causa da escalada da violência na Ukraina

Imprensa mundial sobre Ukraina:


12:25 - Rússia acusou o Ocidente pelo favorecimento da revolução "marrom" na Ukraina e declarou que colocará em andamento toda sua "influência" para que haja paz na Ukraina

12:48 - Os trens de Lviv e Frankivsk estão interditados.

12:55 - O risco de "default" na Ukraina ultrapassou 60%.

13:04 - No Maidan estão, mais ou menos 5.000 pessoas. Principalmente são pessoas que trouxeram comida, roupas quentes, água e remédios, e também cidadãos comuns que vieram apoiar os protestantes. Na praça central tem uma grande quantidade de pessoas da autodefesa do Maidan. A maioria está tensa, dizem que não vão deixar o local do confronto. Eles estão separados dos policiais por um aterro de meio metro com pneus, troncos e tábuas em chamas.
O incêndio na Casa dos Sindicatos continua no 5º andar. Periodicamente ouvem-se quedas da estrutura e dos vidros. Alguns manifestantes esforçam-se para retirar do edifício as cobertas e os alimentos. Periodicamente ouvem-se explosões de petardos porém as partes  abstém-se de operações ofensivas.
Próximo a barricadas há grande quantidade de jornalistas europeus. Os protestantes, de prédios em construção na Praça São Miguel e Casa dos Sindicatos, extraem materiais para reforçar as barricadas. Há muita fumaça. No território da Catedral São Miguel tem um ponto de recolhimento de remédios. Os protestantes ajudam os feridos chegar à Catedral. Em frente da igreja há cerca de 300 pessoas. São habitantes de Kyiv que trazem comida, medicamentos e roupas quentes. 
Dentro do mosteiro organizaram o pernoite, muitos médicos selecionam os remédios.
A igreja recebeu mais de 100 pessoas. Aqui fizeram até cirurgias difíceis, todo refeitório está destinado aos feridos. Os médicos trabalharam a noite toda. 

Tradução: Oksana Kowaltschuk

A BATALHA DE KIEV



 

 

 

 


 

 

 





 

 

 
































quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ucrânia, depois da violência a repressão

Opinião
A operação “antiterrorista” ucraniana vai ser uma caça cerrada aos oposicionistas.

Diz o hino ucraniano que “A glória da Ucrânia ainda não pereceu, nem a sua liberdade”. Mas o ambiente dantesco vivido em Kiev, deixando um rastro de destruição e morte, põem ambas em sério perigo. E reduzem a cinzas os fundamentos do lema nacional do país: “Liberdade, Concordância, Bondade”. Yanukovych, o Presidente que empurrou o país para a orla de Moscou, contra a vontade de milhões que preferiam a aproximação à União Europeia (a crise começou quando o Presidente se recusou a renovar um contrato comercial com a UE), apostou no cansaço dos manifestantes que iam enchendo a Praça da Independência. Como isso não resultou, porque a tenacidade dos opositores era muita, fez a polícia antimotim cercar a praça, numa primeira fase, e depois invadi-la com inusitada violência. O que começou por ser um protesto pacífico, há um mês atrás, foi crescendo até se tornar na semente de um conflito insanável: Yanukovych tentou ceder em pequenas coisas, demitindo até o governo, mas fê-lo sempre fora de tempo, quando os manifestantes já queriam muito mais do que ele lhes oferecia. A evolução da crise ucraniana, nos últimos dias e sobretudo nas últimas horas, com a violência a crescer nos dois lados da barricada, fazia prever um desenlace brutal. Se Yanukovytch não cedia o poder, iria usá-lo para calar os que se lhe opunham. Foi o que sucedeu na noite de ontem, com resultados ainda imprevisíveis. Aquilo a que o regime, na sequência da invasão da praça, apelidou de operação “antiterrorista”, vai ser uma caça cerrada aos oposicionistas e sobretudo aos seus líderes. A repressão terá rédea livre, com o beneplácito de Moscou. O apelo do líder do partido da oposicionista Vitali Klitschko, dizendo que “o poder desencadeou uma guerra contra o seu próprio povo, os responsáveis dos países democráticos não podem continuar inativos”, já teve algumas respostas ocidentais, com ameaças de sanções. Estará o pior ainda para vir?

TRIBUTO AOS MORTOS NA BATALHA DE KIEV

Um tributo aos que morreram pela Ucrânia livre do jugo comunista russo, sob a sanha de um presidente apátrida e sanguinário!
O Cossaco.


CORAL NACIONAL UCRANIANO "H. VERYOVKA

Oração pela Ukraina (Oh Deus, onipotente e único, Guarde para nós a Ukraina).
Escrito em 1885.
Música: Mykola Lysenko.
Letra: Oleksandr Konyskyi

Oh Deus onipotente e único,
Para nós guarde a Ukraina,
Com raios da liberdade e luz
Ilumine-a oh Deus.

Com a luz da ciência e saber
A nós, filhos, ilumine
Em puro amor à Pátria
A nós, oh Deus, cresça

Rezamos, oh Deus único,
Guarde a Ukraina para nós,
Todas suas graças e generosidades
Ao nosso povo encaminha.

Dê-lhe liberdade, dê-lhe destino,
Dê-lhe um mundo bom, felicidades,
Dê-lhe, oh Deus, ao povo
E muitos, muitos anos.

Tradução: Oksana Kowaltschuk

Presidente e oposição não cedem e a Ucrânia afunda-se cada vez mais na violência

Balanço oficial mais recente dá conta de 26 mortos, entre os quais 15 civis, dez polícias e um jornalista. União Europeia discute aplicação de sanções aos responsáveis políticos ucranianos.

As horas vão passando e arrastam a Ucrânia para um campo de batalha sem fim à vista, após três meses de protestos relativamente pacíficos. Desde a manhã de terça-feira já morreram 26 pessoas, de acordo com as atualizações permanentes do Ministério do Interior. O Presidente do país, Viktor Yanukovych, acusa os líderes da oposição de terem incitado uma insurreição e garante que todos eles vão prestar contas perante a Justiça.

O centro de Kiev, ocupado por uma massa humana que contesta a legitimidade de Yanukovytch para se manter no poder, foi também o epicentro do "dia do Juízo Final", ou da "batalha de Kiev". Um dia que ameaça prolongar-se por muito mais do que 24 horas e alargar-se muito além da capital – os relatos de ocupação de edifícios públicos e de depósitos de armas em Lviv, no extremo Oeste do país, indicam isso mesmo.
O balanço de vítimas foi atualizado na manhã desta quarta-feira pelo Ministério do Interior: pelo menos 26 mortos e 241 feridos, numa contagem que as próprias autoridades reconhecem estar longe do fim. Entre as vítimas mortais há 15 civis, dez polícias e um jornalista, do diário ucraniano Vesti.
Não há qualquer indicação de que a violência poderá cessar nas próximas horas. Após uma reunião com os principais líderes da oposição, o Presidente Viktor Yanukovych acusou-os de terem "ultrapassado os limites", por terem "apelado à luta armada". Foi decretado dia de luto nacional na quinta-feira em homenagem às vítimas dos confrontos, anunciou Yanukovych.
Num comunicado publicado nesta quarta-feira no site da Presidência, Viktor Yanukovych disse que a operação policial foi lançada para impedir a tentativa dos seus opositores de "tomarem o poder através de fogo posto e de homicídios".
O Presidente ucraniano considera que deu todas as oportunidades à oposição para dialogar, mas que tem sido pressionado pelos seus conselheiros a assumir uma posição mais dura. "Sem qualquer mandato do povo, de forma ilegal e em violação da Constituição da Ucrânia, estes políticos – se é que posso usar este termo – recorreram a massacres, ao fogo posto e a homicídios para tentarem tomar o poder." (Mas sobre quais massacres Yanukovych se refere? Dos seus Berkut com granadas e pistolas 9 mm ou do povo com as mãos? O presidente truculento dá o tapa e esconde a mão! O Cossaco)

O vídeo a seguir mostra quem massacrou quem.
 
 

No final da reunião com os líderes da oposição, Yanukovych atribuiu toda a responsabilidade à oposição, mas disse que "não é tarde de mais para parar este conflito": "Para ser sincero, alguns dos meus conselheiros estão a tentar levar-me a adotar posições mais duras, para usar a força (Só se for genocídio! Vai matar toda a Ukraina, senhor presidente? - O.C.). Mas eu sempre considerei o uso da força um erro. Há meios melhores e mais eficazes – como encontrar uma linguagem comum. Tenho pedido com insistência para que as pessoas se abstenham de cometer ações radicais. Mas elas não me ouviram. Repito: ainda não é tarde de mais para nos ouvirmos uns aos outros. Ainda não é tarde de mais para parar este conflito." (Esse presidente é um cínico dissimulado. Só ele não entendeu que o Ukraina não o quer mais! - O.C.)
Quanto aos líderes da oposição, o Presidente ucraniano foi claro: "Eles ultrapassaram os limites quando apelaram às pessoas que pegassem em armas. Quem viola as lei deve ser levado a tribunal, que irá determinar a punição a aplicar. Não é um capricho pessoal, é o meu dever enquanto garante da Constituição."
Tal como o Presidente, a oposição saiu do encontro como entrou. "O Presidente pediu-nos que nos rendêssemos. Mas nós vamos ficar aqui com os manifestantes", disse um dos líderes da oposição, Arseni Iatseniouk (do partido da antiga primeira-ministra Yulia Tymochenko), ao Canal 5 ucraniano.
Vitali Klitschko, antigo campeão do mundo de pugilismo e líder do partido Udar (Murro), acusou o Governo de ter "declarado uma guerra contra o seu próprio povo". Mais tarde, revelou que o Presidente Yanukovytch quer voltar a reunir-se com os principais rostos da oposição ainda nesta quarta-feira, numa reunião em que já confirmou a sua presença.

Em Lviv, a maior cidade da parte ocidental do país, os manifestantes invadiram as instalações da polícia, segundo a BBC, que cita agências locais. Os ativistas afirmaram ter libertado todos aqueles que se encontravam detidos, acrescentam.

Grupos de manifestantes ocuparam a direção da polícia, a sede dos serviços de segurança e a procuradoria em Ivano-Frankivsk, também na região ocidental.

EUA pedem contenção, Rússia culpa Ocidente, UE fala em sanções
Numa série de tweets publicados nas últimas horas, o Departamento de Estado norte-americano lançou apelos ao Presidente ucraniano para que ponha fim à violência: "Apelamos ao Presidente Yanukovytch e ao Governo ucraniano que retome o diálogo com a oposição num caminho pacífico."
O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, telefonou a Yanukovytch para lhe manifestar a sua "grande preocupação com a crise nas ruas de Kiev". Através de Biden, a Casa Branca apelou ao Presidente ucraniano que "retire as forças governamentais e que exerça o máximo de contenção".
O vice-presidente norte-americano – prossegue o texto publicado no site da embaixada ucraniana em Kiev – "deixou claro que os Estados Unidos condenam a violência de ambos os lados, mas o Governo tem especiais responsabilidades na pacificação da situação".
Também o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, falou com o Presidente ucraniano, com que discutiu "a violência inaceitável nas ruas de Kiev".
"Apelamos ao Presidente Yanukovytch e ao Governo ucraniano para que pacifique a situação imediatamente, e que retome o diálogo com a oposição. As profundas divisões na Ucrânia não serão sanadas com o derramamento de mais sangue inocente", lê-se no comunicado assinado pela porta-voz do Departamento de Estado, Jen Psaki.
Do lado da Rússia chegam condenações ao envolvimento dos países ocidentais na situação na Ucrânia, em especial os EUA e os Estados-membros da União Europeia, que Moscou acusa de terem "fechado os olhos aos atos agressivos das forças radicais na Ucrânia". Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo denuncia o que considera ser uma "tentativa de golpe de Estado" protagonizada pela oposição ao Presidente Yanukovytch e afirma que a Rússia irá usar "toda a sua influência" para "levar a paz e a calma" à Ucrânia.
O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, defendeu na manhã desta quarta-feira que os líderes da União Europeia devem aprovar "urgentemente medidas direcionadas aos responsáveis pela violência na Ucrânia".
Foi convocada uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE para quinta-feira, durante a qual "todas as opções serão exploradas", afirmou a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, deixando antever a possibilidade de aplicar sanções.
Da Polônia chegou o aviso mais sério. O primeiro-ministro, Donald Tusk, afirmou que a Ucrânia arrisca-se a mergulhar numa "guerra civil", com consequências para a estabilidade de toda a região, e disse que irá pressionar a União Europeia a impor sanções ao Governo ucraniano.
O ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, Radoslaw Sikorski, anunciou, através do Twitter, que se vai deslocar "brevemente" a Kiev, a pedido de Ashton.
Nesta quarta-feira chegou também a ameaça francesa da aplicação de "sanções individuais". O ministro dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, anunciou que irá reunir-se com as autoridades alemãs e disse que é "provável" que sejam aprovadas sanções dirigidas a responsáveis ucranianos.
Já o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Frank-Walter Steinmeier, acusou o Presidente ucraniano de se recusar a manter "discussões sérias" com a oposição. "As manobras dilatórias do Presidente Yanukovytch custaram caro à Ucrânia. A sua recusa em manter discussões sérias para uma solução pacífica do conflito e para uma reforma constitucional é um grande erro", disse o ministro alemão.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia, Carl Bildt, foi também categórico na atribuição de culpas, numa mensagem publicada na sua conta no Twitter: "Temos de ser claros: a responsabilidade das mortes e da violência é do Presidente Yanukovytch. Ele tem sangue nas mãos."

Fim da relativa contenção
A onda de violência em Kiev começou na manhã de terça-feira, quando milhares de manifestantes tentaram furar o cordão policial para chegarem mais perto do Parlamento, onde os deputados dos três partidos da oposição pretendiam discutir uma alteração à Constituição que tem como objetivo reverter o caráter presidencialista do regime político ucraniano.
Os manifestantes lançaram pedras e cocktails molotov e a polícia anti-motim respondeu com extrema violência, primeiro com balas de borracha, mas também, segundo algumas testemunhas, com munições reais. A partir desse momento tornou-se impossível voltar atrás – as ruas da capital foram somando confrontos ao longo do dia, até que as forças governamentais entraram na Praça da Independência (o símbolo da oposição nos últimos meses) e carregaram sobre os milhares de manifestantes que lá se encontravam.
Os protestos começaram em Novembro, quando o Governo nomeado pelo Presidente Viktor Yanukovytch resolveu afastar-se das negociações com vista à assinatura de um acordo de cooperação com a União Europeia, para se aproximar do bloco econômico que a Rússia está a construir com algumas das antigas repúblicas soviéticas.
O país ficou dividido – a ocidente reclama-se o regresso ao caminho da integração na União Europeia; a oriente, mais propriamente na zona noroeste do país, há uma maior proximidade econômica com a Rússia, ditada em muito pela proximidade geográfica, que facilita as trocas comerciais.
No final de Janeiro, a pressão de Moscou para que o Governo ucraniano pusesse fim à contestação popular tornou-se mais evidente, com o aperto dos controles fronteiriços e a suspensão de uma linha de crédito superior a 11 milhões de euros, entretanto desbloqueada – na segunda-feira, a Rússia anunciou a transferência de cerca de 1,5 mil milhões de euros para os cofres da Ucrânia.
Mas nessa altura, em finais de Janeiro, Sergei Glazev, um conselheiro de Putin distinguido pelo Kremlin pelo seu papel no sucesso da reaproximação da Ucrânia à Rússia – ou no falhanço da aproximação da Ucrânia à União Europeia –, deixou bem claro o descontentamento de Moscou, em declarações à revista da empresa Gazprom: "O Presidente [da Ucrânia] tem uma opção. Ou defende o Estado ucraniano e põe fim à insurreição, ou arrisca-se a perder o poder. Se isso acontecer, a Ucrânia enfrentará o caos crescente e um conflito interno sem fim à vista." (Fonte: publico.pt)