terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

APELO DO PAPA LEÃO XIV: PAZ NA UCRÂNIA

 

Apelo do Papa pela paz na Ucrânia: "Calem as armas! Cessem os bombardeios!"

Após a oração do Angelus, o Pontífice pediu o fim imediato dos combates, libertação de prisioneiros e diálogo sincero. "Convido todos a unirem-se em oração pelo martirizado povo ucraniano e por todos aqueles que sofrem por causa desta guerra", suplicou.

Thulio Fonseca - Vatican News

 















Socorristas ucranianos trabalham entre os escombros após ataque russo em área residencial de Kyiv, em 22 de fevereiro de 2026; pelo menos uma pessoa morreu e oito foram resgatadas, incluindo uma criança.

“Quantas vítimas, quantas vidas e famílias despedaçadas, quanta destruição, quanto sofrimento indescritível! (…) Que as armas se calem, que cessem os bombardeamentos, que se chegue sem demora a um cessar-fogo e que se reforce o diálogo para abrir caminho à paz.”

 

Após a oração do Angelus deste domingo, 22/02, o Papa Leão XIV renovou com firmeza seu apelo pedindo o fim da guerra na Ucrânia, ao lembrar que já se passaram quatro anos desde o início deste dramático conflito "que está diante dos olhos de todos". O Pontífice destacou que a paz não pode ser adiada e deve encontrar espaço nos corações, transformando-se em decisões responsáveis:

 

"Toda guerra é realmente uma ferida infligida à inteira família humana: deixa para trás morte, devastação e um rastro de dor que marca gerações. (...) Convido todos a unirem-se em oração pelo martirizado povo ucraniano e por aqueles que sofrem em razão desta guerra e dos outros conflitos no mundo, para que o tão esperado dom da paz possa brilhar nos nossos dias."























 

Um cenário de sofrimento e destruição

A guerra teve início em 24 de fevereiro de 2022, quando a Rússia lançou uma invasão em larga escala contra a Ucrânia. Desde então, o conflito provocou dezenas de milhares de mortos e feridos, destruiu cidades inteiras e forçou milhões de pessoas a se deslocarem dentro e fora do país. Organismos internacionais classificam esta como a maior crise humanitária da Europa desde a Segunda Guerra Mundial, com impactos profundos na segurança, na economia e na vida diária da população civil, sem que até o momento tenha sido alcançado um acordo definitivo para o fim das hostilidades.

Desde o início do conflito na Ucrânia, o Papa Francisco reiterou inúmeros pedidos pelo fim da guerra e pela libertação de prisioneiros, com atenção especial às crianças e às vítimas civis, enquanto o rigor do inverno agravava os danos provocados pelos bombardeios. Ao longo desses anos, a Santa Sé manteve apoio humanitário à população ucraniana, dialogou com líderes como Putin e Zelensky, recebeu associações, famílias e refugiados, e reafirmou sua disposição em sediar negociações de paz, sublinhando a importância do engajamento da Europa e da Itália. O Papa Leão XIV deu continuidade a esse compromisso pela paz, enviando também ajudas concretas ao país.













No frio intenso da Ucrânia, a solidariedade do Papa

Leão XIV, por meio da Esmolaria Apostólica, enviou 80 geradores de energia para o país do Leste.

 

Saudações aos peregrinos


Ao final, como de costume, o Papa dirigiu suas saudações aos fiéis de Roma e aos peregrinos provenientes de diversos países. O Santo Padre também encorajou as associações empenhadas no cuidado das pessoas afetadas por doenças raras e, por fim, desejou a todos um frutuoso caminho quaresmal.

 

OS 4 ANOS DA AGRESSÃO RUSSA [NA VERDADE 12]

 No dia 24 de fevereiro de 2026 completam quatro anos da agressão russa à Ucrânia. A Ucrânia resistiu à ocupação de sua capital e grande parte do território, porém, as forças da agressão russa ocupam quase 20% do seu território e todo o dia disparam misseis sobre objetivos tanto civis como militares em toda a Ucrânia.

Em essência a guerra atual é uma guerra imperial conduzida pelos dirigentes russos, continuadores das tradições expansionistas do que foi a o Império Russo Tsarista a União Soviética sob hegemonia da etnia russa. Do lado ucraniano constitui-se em uma guerra de resistência, na continuidade de uma luta pela sua independência, soberania e cultura. Mas a guerra de agressão contra a Ucrânia é uma ameaça a todo o continente europeu e a ordem internacional. Por essa razão a resistência ucraniana ganhou o apoio do mundo ocidental.

Logo após a agressão massiva de 24 de fevereiro, a Assembleia Geral da ONU, na sua resolução de 2 de março de 2022, qualificou imediatamente a guerra da Rússia contra a Ucrânia como um ato de agressão em violação do artigo 2.º(4) da Carta da ONU e, na sua resolução de 14 de novembro de 2022, reconheceu a necessidade de responsabilizar a Federação Russa pela sua guerra de agressão, bem como legal e financeiramente responsável pelos seus atos internacionalmente ilícitos, e que a Rússia deve pagar reparações pelos ferimentos e danos causados.


O primeiro princípio fundamental da ordem internacional é a proibição da ameaça ou uso da força contra outra nação previsto no Artigo 2. ° da Carta das Nações Unidas – ONU, de cujo organismo são fundadores tanto o Brasil, como a Rússia e a Ucrânia. Todos os países são iguais em direitos e são princípios fundamentais a autodeterminação dos povos e a não intervenção nos assuntos internos dos Estados. Além da Rússia estar ligada aos termos da Carta das Nações Unidas como membro fundador e integrante como membro permanente do seu Conselho de Segurança, a Rússia reconheceu as fronteiras e a soberania da Ucrânia no Memorando de Budapeste quando em 1994, quando a Ucrânia entregou o seu arsenal Nuclear à Rússia em troca de respeito à sua soberania, cujo documento assinaram a Rússia, os Estados Unidos, o Reino Unido e posteriormente a França e a China. Em 1997 a Rússia e a Ucrânia assinaram o Tratado de Cooperação e Amizade e as partes acordaram respeitar a integridade territorial um do outro, inviolabilidade das fronteiras e solução pacífica de controvérsias e não uso da ameaça ou força.


​A Rússia rompe com a Carta das Nações Unidas, faz tábua rasa do princípio do pacta sunt servanda, ou seja, a boa-fé nas relações internacionais, o dever de os Estados cumprirem com as normas e tratados internacionais e com as suas obrigações.  A Ucrânia não consentiu com a agressão, a ONU não autorizou e a Ucrânia não ameaçou ou atacou a Rússia para essa exercer a guerra de agressão contra a Ucrânia. Em 16 de março de 2022 a Corte Internacional de Justiça (CIJ), com sede em Haia, ordenou que a Rússia interrompa imediatamente as operações militares na Ucrânia. A Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou em 12 de outubro de 2022 uma resolução que condena os “referendos ilegais” da Rússia e a “tentativa de anexação “de territórios ucranianos.  A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução, em 14 de novembro de 2022, em que a Rússia deverá prestar contas por todas as violações ao direito internacional da Ucrânia e pagar indenizações pelos danos causados na guerra.


Além do crime de guerra de agressão (crime contra a paz), que afronta a legalidade, o Direito Internacional também é feito de normas e princípios que regulam a situação de conflito ou guerra. Foram firmadas várias Convenções em Genebra e Protocolos Adicionais desde o XIX sobre a sorte dos militares feridos, ao tratamento dos prisioneiros de guerra, à proteção das pessoas civis em tempo de guerra. Mais recentemente em 2002 é criado o Tribunal Penal Internacional idealizado pelo Estatuto de Roma que em 1998 no seu Artigo 5.º estabelece sua competência para os crimes de genocídio, contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de agressão.  São crimes de guerra o assassinato, maus tratos ou deportação, destruição de cidades ou aldeias e devastação, dirigir intencionalmente ataques à população civil em geral, deportações. Os Crimes Contra a Humanidade são homicídio, extermínio, escravidão, deportação ou transferência forçada de uma população; tortura; agressão sexual, escravatura sexual, prostituição forçada, gravidez forçada, esterilização forçada ou qualquer outra forma de violência no campo sexual de gravidade comparável; entre outros. O Genocídio é o crime com a intenção de destruir no todo ou em parte ou criar condições para a sua destruição no todo ou em tarde de um grupo étnico.


Além da agredir a Ucrânia ao arrepio das normas internacionais, pois não existia nenhum perigo extremo e eminente que a Ucrânia oferecesse à Rússia, não foi precedida de nenhum acionamento de mecanismos do direito nas Nações Unidas e a ação militar foi desproporcional à resistência, por mais que a denominasse de operação especial.  Além do crime de agressão militar pelo norte, leste e sul da Ucrânia, com os fatos públicos e notórios dos acontecimentos em Mariupol, Bucha, Irpin, Borodyanka, Kherson, Kharkiv e outras localidades se caracterizou aos olhos do mundo o cometimento de crimes de guerra, crimes contra a humanidade e de genocídio. Todo ato internacionalmente ilícito de um Estado acarreta sua responsabilidade internacional e essa responsabilidade do Estado russo não exclui a responsabilidade individual. O Estado Russo violou as convenções de Genebra e milhares de cidadãos russos violaram o Estatuto de Roma. Há uma obrigação de reparar todo o dano material e moral sofrido pela nação ucraniana.


Como lembra a Resolução de 23 de janeiro de 2025 do Parlamento Europeu que “o início da guerra de agressão em larga escala da Rússia contra a vizinha Ucrânia foi precedido por várias declarações públicas do presidente da Federação Russa, procurando justificar o uso da força por meio de revisionismo histórico, falsas alegações e exigências ilegítimas de reconhecimento dos seus interesses exclusivos na Ucrânia e noutros países vizinhos; que o regime russo tem feito uso generalizado de desinformação, inclusive com base em argumentos históricos distorcidos, e manipulação e interferência de informações estrangeiras, numa tentativa de justificar seu crime de agressão, incitar a população russa a apoiar seu regime ilegal e a guerra ilegal de agressão contra a vizinha Ucrânia, interferir nos processos democráticos de outros países e reduzir o apoio entre suas populações à assistência internacional contínua e ao apoio à Ucrânia contra a guerra de agressão da Rússia; considerando que o regime russo nega a identidade nacional distinta da Ucrânia, alegando falsamente que ela faz parte do mundo russo ('Russkiy mir'), uma narrativa enraizada na ideologia imperialista; considerando que a Rússia está demolindo memoriais do Holodomor e restaurando monumentos demolidos a Lenin nos territórios ocupados da Ucrânia;”


​Quem quer que seja, mesmo o menino de escola fundamental quando vai fazer um trabalho sobre a II Grande Guerra Mundial e se debruça sobre a problemática das razões do conflito vai encontrar a resposta que o cerne está na ideologia nazista.  Só Vladimir Putin diz que a culpa é da Polônia. O filósofo de esquerda Slavoj Zizek disse que não há que se subestimar o poder material da ideologia na atual guerra de guerra de agressão russa a Ucrânia.


​A Verkhovna Rada – parlamento supremo da Ucrânia – adotou, no início do mês de maio de 2024, uma resolução "Sobre o uso da ideologia do ruscismo pelo regime político da Federação Russa, condenando os fundamentos e práticas do ruscismo como totalitários e misantrópicos" A f  da palavra fascismo foi substituído pelo r em referência à Rússia ( фашизм = рашизм ). Para o português seria mais literal o racismo mas a tradução como ruscismo dá o real conteúdo de referência expressa pelos ucranianos.  O termo ruscismo começou a ser usado no discurso público após a guerra de 2008 na Geórgia,  ganhou maior popularidade após a anexação da Crimeia pela Rússia e o início da agressão russa em 2014 e agora é termo oficial por lei na Ucrânia.


A conceituação estabelece que o ruscismo é a ideologia usada pelas autoridades da Federação Russa e a forma do atual fascismo russo. São consequência dessa ideologia a violação em massa e sistemática dos direitos humanos tanto dentro da Federação Russa quanto nos territórios ocupados da Ucrânia. As liberdades de reunião, manifestação, partidária, assim como o feminismo e da liberdade sexual e comportamental são vistas pela Rússia como degeneração da sociedade ocidental. A menor dissidência na Rússia é vista como traição aos interesses nacionais. Atualmente está proibida a palavra “guerra” e quem a use está sujeito à prisão. Os oponentes políticos ou são mortos a veneno ou presos quando tem sorte.


O nacionalismo russo é a base da ideologia do Estado onde se aplica o conceito do "Russkiy Mir" - “mundo russo”.  O auto engrandecimento da Rússia e dos russos às custas da opressão violenta, da negação do direito à autodeterminação ou, em geral, do direito à existência de outros povos. A Ucrânia para Vladimir Putin é uma invenção de Lênin. Essas ideias agora estão sendo plantadas agressivamente nos territórios ocupados da Ucrânia e são acompanhadas pela proibição de tudo o que é ucraniano.


"Entendemos o ruscismo como um novo tipo de ideologia e prática totalitária, que está no cerne do regime que se formou na Federação Russa sob a liderança do presidente V. Putin e é baseado nas tradições do chauvinismo e do imperialismo russos, as práticas do regime comunista da URSS e do nacional-socialismo", diz, em comunicado oficial Verkhovna Rada.


Vivemos um novo contexto internacional onde também a principal potência do mundo ocidental sob o comando de Donald Trump ainda não expressou total garantia de segurança não só a Ucrania como a própria Europa. A paz para a Ucrânia não pode ser a paz dos cemitérios e nem a paz do agressor. A paz para a Ucrânia deverá ser a paz de sua soberania sobre todo o seu território e garantia reais de segurança. A paz para a Ucrânia não pode ser o texto sem garantias do Memorando de Budapeste. O custo da guerra não poderá ficar em cima do ombro da Ucrânia, mas do agressor. Os crimes de agressão, de guerra, contra a humanidade e o genocídio não podem ser transacionados, mas investigados e punidos. A paz para a Ucrânia não pode ser aquela que beneficie o agressor pois continuará a ser não só uma perda para a Ucrânia, como será uma ameaça continua a Europa e paz mundial.

A Guerra de de Agressão russa atinge o Brasil direta e indiretamente. Há no Brasil 600.000 brasileiros que constroem essa nação e são descendentes de ucranianos. Vivem com o drama da guerra de agressão diariamente. A posição do Brasil deve ser coerente com o estabelecido no Art. 4.o de sua Constituição Federal é condenar e agir mais fortemente contra a agressão russa. Certo que votou na ONU condenando a agressão mas se absteve na votação que pedia o retorno das crianças ucranianas sequestradas pelos russos, como se as crianças ucranianas valessem menos que as palestinas. O nosso Presidente é um fã de Desmond Tutu, mas esqueceu que ele disse: “Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor",  Não há como dizer que é neutro quando visita Moscou e não visita Kyiv e quando aumenta em muito a importação de Diesel da Rússia principal item do financiamento da guerra para eles. Os 600.000 brasileiros descendentes de ucranianos merecem que o Brasil tenha coerência e se pronuncie e aja para que cesse a agressão russa à Ucrânia, com respeito a sua soberania, sua cultura e inegridade territorial. 

Curitiba 24.02.2026

Vitório Sorotiuk

Vice Presidente do Congresso Mundial dos Ucranianos pela América Latina

HISTÓRIA DE UMA PARAMÉDICA UCRANIANA

"Tenho um despertador para um momento de silêncio." 

A história de um jornalista e paramédica de Lysychansk sobre os traumas da guerra e da cura.

Elena Barsukova — 24 de fevereiro, 06:00 - Foto: Oleksandr Chekmenyov/Ukrainska Pravda

 

Anastasia Prokayeva é uma jornalista e paramédica de 27 anos dos Hospitalários.

Seus amigos a chamam de Asya, e seus irmãos a chamam de "Uno", em homenagem ao seu jogo favorito.

Nos últimos quase 4 anos, sua vida cotidiana tem consistido em resgatar feridos e correr riscos constantes, que às vezes são "interrompidos" por piadas e jogos de tabuleiro com pessoas que pensam como vocês.

A garota sofreu muitas perdas, recuperou-se do ferimento por muito tempo, mas mesmo depois disso não deixou o caminho de voluntária.

Asya contou à Ukrainska Pravda sobre a vida entre jornalismo e rotações, as tradições dos "Hospitalários", os gatilhos no mundo "civil" e a psicoterapia. Vida".

"Não sabemos por qual porta a eternidade está escondida"

Asya nasceu em Lysychansk, na região de Luhansk, formou-se lá e depois foi para Kyiv. Ela estudou jornalismo na Universidade Nacional de Cultura e Artes de Kyiv.

A garota dedicou os 7 anos seguintes à mídia: trabalhou nas publicações "Gazeta.UA" e "League", no "Channel 5".

Mesmo antes da invasão em grande escala, o tema da guerra era o mais importante para Asya. Mas a garota admite: nunca imaginaria que acabaria na linha de frente em um papel diferente do de repórter.

Em 24 de fevereiro de 2022, ela acordou com explosões. A mochila já estava pronta: era necessário arrumar rapidamente, esperar a noite no metrô, ficar nas filas das lojas e entender como proceder.

A princípio, ela deixou Kiyv, mas depois retornou quando o trabalho na área de informação exigiu o máximo envolvimento.

"O fluxo de notícias era contínuo, e era necessário informar as pessoas", a garota recorda.

Foto: Oleksandr Chekmenyov/Ukrainska Pravda

Ao mesmo tempo, ela participou de iniciativas voluntárias. Então, para ajudar, bastava dar um passo para fora de casa, lembra a garota.

Asya embalava alimentos para deslocados internos das zonas de guerra e, ao mesmo tempo, em seus materiais, contava as histórias daqueles que fugiram da guerra e da ocupação.

Conexões voluntárias eventualmente a levaram ao batalhão médico voluntário "Hospitalaristas". No verão de 2022, ela ajudou a equipá-los com uma nova base e então "se apaixonou" pela comunidade de voluntários.

"Ouvi a experiência deles e percebi que eu poderia fazer [paramedicina]. Fui treinado e saí. Nada heroico", diz Asya modestamente.

A primeira rotação do médico ocorreu na direção de Zaporizhzhia, onde a tripulação transportou os feridos da área entre Voskresenka e Pokrovske do ponto de estabilização até o hospital. Asya deveria monitorar a condição dos soldados na estrada, monitorar os indicadores e administrar medicamentos após a estabilização.

Posteriormente, houve outras viagens, incluindo trabalho quente nas últimas semanas da defesa de Soledar em janeiro de 2023. Naquela época, 200 feridos passavam pelo ponto de estabilidade por dia.

Como toda a equipe, Asya tentava não só salvar, mas também consolar os lutadores: às vezes ouvir, às vezes brincar. A garota lembra: uma vez os soldados tinham apenas um desejo – enfaixar as mãos para que fosse conveniente fumar.

"Em direções com grande fluxo de feridos, é difícil lembrar de todos. Muitas vezes você lembra não da personalidade, mas do tipo de lesão. Mas houve um caso em que um soldado levemente ferido estava seriamente preocupado com a morte de seu companheiro e contou como isso aconteceu no caminho. Era importante que ele fosse ouvido", compartilha Asya.

Normalmente, os paramédicos lembram de histórias mais trágicas do que aquelas que terminaram felizes. Para não carregar histórias dolorosas dentro de si, Asya as anotou em seu diário. Era uma espécie de terapia, diz a garota.

Até 2024, Asya combinava o serviço nos Hospitalários com o jornalismo: tirava férias para fazer rotação ou trabalhava remotamente. Ela frequentemente trabalhava nos materiais durante o dia e ia para evacuação à noite. Às vezes podiam ser dois ou três deles por noite.

"Se havia viagens à noite, eu tentava descansar à tarde ou à noite. A regra é simples - durma enquanto pode", diz a garota.

Do arquivo pessoal da heroína

O ponto de virada na vida foi a rotação na região de Kharkiv em 2024. A memória de Asya permaneceu para sempre como uma foto de uma porta em Kharkiv com a inscrição do artista de rua Hamlet: "Não sabemos atrás de qual porta a eternidade está escondida."

A foto foi tirada alguns dias antes da morte de sua irmã com o indicativo "Mike" – foi a atenção dela que atraiu essa arte de rua. Agora, o celular de Asya mostra essa foto toda vez que seu tradicional alarme das 9:00 toca – um lembrete de um minuto de silêncio.

Os Hospitalários tratam a homenagem aos mortos com grande reverência – a iniciativa defendida por Iryna Tsybukh é continuada por todos os voluntários. Mesmo no ponto de estabilidade às nove da manhã, todos tentam seguir a tradição.

"Se houver oportunidade durante o serviço, homenageamos as vítimas com um minuto de silêncio. Mas durante uma evacuação difícil, a memória, infelizmente, tem que esperar – estamos lutando pelos vivos", compartilha Asya.

"Foi uma sensação estranha – tristeza pelos mortos e alegria por eu ter sobrevivido"


Do arquivo pessoal da heroína

Em 14 de agosto de 2024, quando "Mike" morreu, Asya ficou ferida.

Na vila de Bilyi Kolodyaz, perto de Vovchansk, um jornalista russo do Lancet atingiu um veículo de evacuação – os ocupantes atacaram médicos de propósito.

Um carro hospitalar foi completamente destruído e o segundo foi danificado por uma onda de choque. Apenas uma irmã com concussão poderia ter eliminado os feridos, mas não houve comunicação.

"Minha irmã encontrou uma bicicleta e foi procurar uma conexão para contatar a brigada. Então os fuzileiros vieram até nós ao ouvir a explosão e nos levaram ao centro de estabilização.

Duas pessoas morreram. Um cara ficou gravemente ferido – amputação traumática do pé, não foi possível salvar um olho. Eu tinha ferimentos perto do joelho, fragmentos no rosto e nas mãos", recorda Asya.

Em um lugar seguro, a paramédica experimentou emoções conflitantes pela primeira vez, pelas quais ainda sente vergonha. Sobreviver então lhe parecia um grande milagre, mas parecia uma pena se alegrar.

"Havia uma sensação estranha – tristeza pelos mortos e alegria por eu ter sobrevivido", diz a garota.

Do arquivo pessoal da heroína

A reabilitação durou mais de seis meses. A perna não se dobrou por um tempo, surgiu uma contratura (quando ligamentos e articulações perdem a funcionalidade), então a menina andou com uma bengala.

Depois, a paramédica percebeu por si mesma que Kyiv não é adaptada a pessoas com lesões. Quando começaram os apagões na cidade, Asya teve que subir a pé com uma bengala até o 15º andar.

Muitas pessoas sentem que em Kyiv algumas pessoas estão isoladas da guerra, mas a guerra, pelo contrário, alcançou Asya na capital.

"É triste quando você sai da unidade. Você já se aproximou das pessoas, e elas ficam lá. Há segurança condicional em Kyiv, mas pessoas também estão morrendo com bombardeios aqui", diz Asya.

Sem trabalhar com pessoas que pensam como vocês, a saúde mental estava "transbordando": a garota admite que sentia ansiedade constantemente. Além disso, por causa da perna machucada, ela recebia repetidamente olhares desagradáveis e compassivos.

"Quando você está no seu ambiente, a diferença de visão de mundo não é muito sentida. Quando você deixa esse ambiente para um mundo condicionalmente "pacífico", sente que é difícil para algumas pessoas perceberem nossa nova realidade.

Eu estava na festa de uma amiga – era o aniversário dela. Naquela época, eu ainda estava me movendo com uma bengala, então me perguntaram o que tinha acontecido. E um cara disse: "Claro, você é corajosa. É você, quando está em evacuação, que vê constantemente essas imagens terríveis – braços e pernas arrancados?"







































Foto: Oleksandr Chekmenev

mediatamente após a lesão, o paramédico foi diagnosticado com transtorno de estresse agudo e recomendou um exame por um psiquiatra.

E depois, graças ao serviço de patrocínio dos Hospitalários, Asya soube do programa de apoio psicológico "Pelo bem dos que salvam" da rede médica Dobrobut. 6 meses após a lesão, ela buscou ajuda, e depois de mais 9 meses foi a um psicoterapeuta.

A garota admite que não é fácil para ela falar sobre saúde mental, mas quer transmitir aos outros que terapia não deve ser temida.

"Parece-me que a terapia ajuda a aceitar a si mesmo e suas reações ao mundo. Aceite o fato de que você não pode mudar outras pessoas, mas pode mudar sua atitude em relação a elas, ou limitar seu círculo de comunicação com alguém, ou falar de forma mais franca e explicar seus desejos.

É mais fácil transmitir informações sobre si mesmo para as pessoas quando você sabe algo sobre si mesmo. A terapia me ajudou com isso, e pode ajudar todo mundo. Só que o principal é encontrar seu especialista", acredita Asya.

"Eu amava o parque perto da Casa da Cultura, o museu de tradições locais e as mulheres das estepes próximas"

Foto: Oleksandr Chekmenyov/Ukrainska Pravda

Em 2025, após a reabilitação, Asya retornou aos Hospitalários.

Entre o trabalho, a garota tenta viajar: após ser ferida, visitou Odessa, escalou Velykyi Verkh e Plai, na Transcarpátia.

"O trabalho principalmente inspira. A sensação de que você está fazendo algo útil. Encontros com amigos, viagens, quando possível, esportes", diz a garota.

Asya também trabalha em uma fundação beneficente que fornece o batalhão e periodicamente faz rotações.

O trabalho no fundo permite que você cubra necessidades financeiras e de projetos – para que os voluntários tenham roupas, comida e mantimentos. E a evacuação dos feridos dá uma noção da contribuição útil deles.

"Os defensores precisam de pessoas próximas e apoio, socialização na retaguarda. [É necessário] mostrar que a traseira é confiável e está no mesmo comprimento de onda que eles.

Como os Hospitalários são um batalhão voluntário, é importante apoiá-lo com doações. Atualmente, há várias arrecadações importantes e há a oportunidade de comprar produtos de caridade. É importante apoiar a missão realizada por médicos voluntários em valor", diz ela, dirigindo-se aos civis.

Do arquivo pessoal da heroína

A garota sente que não está cansada, ao contrário dos militares, que frequentemente estão exaustos com a estadia constante nas trincheiras. Eles dão à garota força para continuar servindo, assim como a memória da casa que agora está ocupada.

"Quero ir para casa. Supostamente não sinto falta de nada em particular e, ao mesmo tempo, de tudo. Atrás de casa, natureza, ambiente. Eu adorava o parque perto da Casa da Cultura, o Museu do Conhecimento Local e as mulheres das estepes próximas. Os prédios antigos estavam lindos", Asya compartilha.

A menina esteve em casa pela última vez em 2021. No quarto ano da guerra em grande escala, sua esperança de retornar para lá algum dia não desaparece.

Olena Barsukova, Ukrainska Pravda. Vida"