SOCIEDADE
Rússia, Ucrânia e
as sombras da União Soviética
Vladimir Putin, Rússia e Ucrânia em 2022; Nikita Kruschov, União
Soviética e Hungria em 1956: qualquer semelhança… talvez não seja mera
coincidência. Leia uma interessante análise da guerra atual à luz da história
recente da humanidade
Tradução: Equipe Christo Nihil
Praeponere, 4 de Março de 2022
[Este
texto não é de autoria do Padre Paulo Ricardo; foi escrito por Paul Kengor e
traduzido por nossa equipe para esta publicação.]
As pessoas têm me pedido para analisar, em termos de perspectiva
histórica, a gravidade do que Vladimir Putin e suas tropas russas estão fazendo
agora na Ucrânia. Trata-se de algo sem precedentes? Há algum paralelo na
história recente da Rússia?
Na história recente da Rússia não. A Rússia moderna é uma Rússia
pós-Guerra Fria, produto outrora esperançoso do colapso da União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas (URSS) em dezembro de 1991. Essa desintegração soviética
foi pedida por todas as “repúblicas” da União Soviética, inclusive a Ucrânia,
que declarou sua independência do monstrengo Estado-pai antes daquele dezembro.
Em dezembro de 2021, eu poderia ter escrito uma matéria para o National
Catholic Register celebrando o 30º aniversário do fim da URSS, com a Ucrânia
celebrando alegremente seu 30º ano de liberdade. A independência da Ucrânia foi
celebrada pelo Papa João Paulo II em 2001. Na ocasião, eu escrevi aqui [no Register]
sobre o assunto, observando a terrível descrição que o Papa eslavo fez daquela
terra “regada pelo sangue dos mártires”.
Neste exato momento, a Ucrânia está sendo martirizada uma vez mais. E de
novo os perseguidores marcham de Moscou.
Em termos de história russa moderna, o crime de Putin contra a
humanidade não tem paralelo. No estágio global pós-Guerra Fria, talvez a
comparação mais próxima seja a invasão do Kuwait por Saddam Hussein em 1990,
mas mesmo ela acabou antes de a URSS ser extinta. De fato, tanto Mikhail
Gorbatchov quanto Boris Iéltsin condenaram a agressão do Iraque e apoiaram a
união da comunidade internacional, sob o presidente George H. W. Bush, para
retirar as tropas iraquianas do Kuwait na primavera de 1991.
No que diz respeito à Rússia, ou — talvez eu deva dizer — “Moscou” ou o
Kremlin, a atual invasão à Ucrânia evoca memórias do Exército Vermelho
invadindo o Afeganistão, em dezembro de 1979; da chamada “Primavera de Praga”,
na Thecoslováquia, em 1968; e, sobretudo, da invasão soviética à Hungria, em
outubro e novembro de 1956.
Se estamos à procura de paralelos, sinto muito em dizer que a Ucrânia
em 2022 faz lembrar muito a Hungria em 1956, e essa não é uma perspectiva
nada agradável.
Era 23 de outubro de 1956, festa de São João de Capistrano. Nascido em
Capistrano, na Itália, em 1385, filho de um cavaleiro alemão que vivia na
cidade, João estudou Direito e terminou entrando na comunidade franciscana. Foi
para a Hungria, onde se tornou conhecido como João Capistrano. No ano de 1456,
conduzindo uma enorme cruzada contra os turcos otomanos, João marchou à frente
de um exército de 70 mil cristãos húngaros, assegurando uma vitória monumental
na grande Batalha de Belgrado. Três meses depois, ele morreu em Ilok, na
Croácia.
São João não hesitou jamais em se colocar no centro do combate contra
invasores e opressores que martirizaram muitos fiéis húngaros. Em 1956, 500.º
aniversário de sua morte e formidável vitória — e nada menos que dia de sua
festa —, os sucessores de São João tiveram de enfrentar novas forças invasoras.
Desta vez, da União Soviética. Foi o primeiro dia da Revolução Húngara.
O povo húngaro se reuniu naquele outubro de 1956 em Budapeste para pôr
abaixo uma estátua gigante de Stálin. Era o maior monumento a ele no mundo, e
sua localização tinha um significado profundo. Ele estava no lugar do Regnum
Marianum, uma igreja cujo nome em latim invocava a realeza da Mãe de Jesus.
A belíssima igreja foi construída em 1931. Em agosto de 1951, os comunistas
depredaram a igreja pedra por pedra. Em seu lugar erigiu-se um enorme edifício
a Stálin, cujos pés de bronze, segundo a lenda, estavam situados precisamente
onde repousava o altar da igreja. Só a cabeça inflada de Stálin era do tamanho
de cinco húngaros.
Naquele outubro, uma enorme multidão se juntou ao redor da base da
estátua cantando: “Vamos pôr isso abaixo!” Duas dúzias de caminhões apareceram.
As pessoas pegaram em cabos, cordas e maçaricos. E a escultura veio abaixo.
A vitória contra o Kremlin, no entanto, teria curta duração. Sentindo
esse grito por independência, o sucessor de Stálin, Nikita Kruschov, enviou o
Exército Vermelho. O regime ordenou um esmagamento imediato das massas
húngaras, indo direto à capital do país. Bem rapidamente, milhares de
guerreiros pela liberdade estavam mortos.
O Vaticano respondeu depressa, com o Papa Pio XII — a quem os capangas
de Stálin uma década antes chamaram “o Papa de Hitler” —, emitindo uma
declaração, Datis Nuperrime, com um subtítulo afiado: “Encíclica sobre o
uso cruel de força na Hungria”. Foi publicada em 5 de novembro e dirigia-se aos
“Veneráveis Irmãos, Patriarcas, Primados, Arcebispos, Bispos e outros
Ordinários locais em paz e comunhão com a Sé Apostólica”.
Não muito diferente do Papa Francisco convocando o mundo inteiro para
rezar pela paz na Ucrânia em 2022, o Papa Pio XII pedia por “um novo dia de
paz, com base na justiça e na liberdade, para o nobre povo da Hungria”.
Mas as orações não pararam o Kremlin em 1956, assim como não o pararam
em 2022.
Muitas pessoas na Hungria enfrentaram, depois disso, uma terrível
perseguição — inclusive um sacerdote húngaro, o [Venerável] Arcebispo József
Mindszenty, cujo mau tratamento recebido não foi para ele nenhuma surpresa.
Afinal, esse parecia ser há muito o seu destino. Em 21 de fevereiro de 1946,
ele recebeu o barrete cardinalício do Papa Pio XII. “Recebei o barrete
vermelho”, disse o Papa ao prelado, “pelo qual deveis mostrar-vos dispostos a
morrer, derramando com bravura o próprio sangue, para exaltação do Santíssimo
Salvador”. Tendo colocado a biretta vermelha sobre a cabeça do Arcebispo
Mindszenty, Pio XII olhou para os outros cardeais e profetizou: “Entre os 32
[aqui presentes], tu serás o primeiro a sofrer o martírio, de cujo
símbolo é esta cor vermelha” [i].
Não demorou muito. Pouco tempo depois de ter voltado para casa, os
comunistas assediaram, agrediram, torturaram e encarceraram o Cardeal
Mindszenty. Ele passou os oito anos seguintes em um confinamento solitário que
quase o levou à morte.
A Revolução de 1956 todavia o libertou. O prelado foi solto por forças
rebeldes, ainda que os comunistas tivessem retomado rapidamente o controle do
governo. Ao invés de abandonar seu povo, o Cardeal Mindszenty passou a morar na
embaixada dos Estados Unidos em Budapeste, recusando-se a deixar seu país. Ele
viveu na embaixada por 15 anos, oferecendo sua angústia como um mártir vivo da
fé cristã sob o regime comunista. O Arcebispo [e também Venerável] Fulton Sheen
chamou-lhe “o mártir ‘seco’ da Hungria” [ii].
Em todo caso, assim como fizeram com o [igualmente Venerável] Papa Pio
XII, o Kremlin tachava esses clérigos católicos de “nazistas”, “simpatizantes
de Hitler” e “fascistas”.
O presidente Vladimir Putin em reunião por videoconferência com o presidente chinês Xi Jinping no Kremlin, em Moscou. Imagem: Alexei Nikolsky/Sputnik/AFP.
A atual campanha do Kremlin na Ucrânia parece assombrosamente similar.
Putin e seus propagandistas têm acusado a Ucrânia e seu presidente judeu de
serem pró-nazismo, uma acusação completamente ridícula à qual ninguém dá
crédito. Eles deram início à invasão sob o pretexto de “desnazificar” a
Ucrânia. Eles estão mais uma vez usando o argumentum ad Hitlerum.
Algumas coisas não mudam nunca.
As grandes mentiras de Putin fazem lembrar as que foram contadas ao povo
da Hungria em 1956 pelo líder da KGB — Iúri Andropov (o qual se tornaria, mais
tarde, ninguém menos que o superior de Vladimir Putin na KGB). Vale lembrar
também que foi Andropov quem aprovou a tentativa de assassinato do Papa João
Paulo II pelo Kremlin.
Estranhamente, a atual situação da Ucrânia também faz lembrar a Hungria
no potencial de enviar milhões de cidadãos para o Ocidente como refugiados. Foi
precisamente o que aconteceu na Hungria em 1956, e parece estar acontecendo de
novo agora, em 2022.
Pior de tudo: o ataque do Kremlin tem o potencial de provocar um elevado
número de mortes. Até o presente, ninguém sabe realmente quantas pessoas foram
mortas na invasão de 1956. Sabemos apenas que foram muitos milhares, talvez
dezenas de milhares. Tratou-se de uma tragédia sangrenta.
Podemos apenas esperar e rezar para que uma sorte semelhante não recaia sobre o povo ucraniano em 2022.
Notas
[i]
As palavras “Recebei o barrete
vermelho…” fazem parte da fórmula de imposição do chapéu rubro. O rito sofreu
alterações depois de Pio XII, mas sua essência permanece ainda hoje: Ad
laudem omnipotentis Dei et Apostolicae Sedis ornamentum, accipite biretum
rubrum, Cardinalatus dignitatis insigne, per quod significatur usque ad
sanguinis effusionem pro incremento christianae fidei, pace et quiete populi
Dei, libertate et diffusione Sanctae Romanae Ecclesiae vos ipsos intrepidos
exhibere debere. “Para glória do Deus todo-poderoso e honra da Sé
Apostólica, recebei o barrete vermelho, sinal da dignidade do cardinalato, pelo
qual deveis mostrar-vos intrépidos [a defender] até a efusão do sangue o
incremento da fé cristã, a paz e tranquilidade do povo de Deus e a liberdade e
difusão da Santa Igreja Romana” (Cappella Papale. Concistoro Ordinario Pubblico
presieduto dal Santo Padre Benedetto XVI per la creazione di nuovi cardinali.
Basilica Vaticana, 18 feb. 2012, p. 25, trad. port. nossa) (N.T.).
[ii] Aqui o termo dry, que traduzimos
literalmente como “seco”, tem o sentido de “desadornado”, “sem galas” (N.T.).




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