Heróis não morrem: Emilio Gaudeda narra uma
tragédia silenciosa
Registro histórico das primeiras famílias de imigrantes ucranianos na abertura das colônias rurais do Paraná (Final do século XIX). Foto: Divulgação / Museu do Milênio.
O
texto que trazemos hoje aos leitores do dialeticos.com é um
documento de profunda carga dramática e valor histórico. Trata-se de um relato
originalmente publicado em ucraniano no Calendário do Agricultor Ucraniano de
1937, organizado por Dmetró Tiahnehore, e posteriormente resgatado e traduzido
pelo escritor Emílio Gaudeda em sua obra Heróis não morrem.
A
imigração ucraniana no Brasil é frequentemente celebrada pela rica herança
cultural, folclórica e religiosa preservada no Paraná. Comunidades expressivas
estabeleceram-se na capital, Curitiba, e expandiram-se fortemente pelo interior
do estado, concentrando-se em municípios como Mallet, Irati, Guarapuava, União
da Vitória, Roncador e, fundamentalmente, Prudentópolis (conhecida
como a capital da Ucrânia brasileira), onde colônias rurais históricas como a
de Ponte Nova preservam viva essa ancestralidade.
No
entanto, os bastidores dessa epopeia guardam memórias de imensurável
sofrimento. Ao abandonarem as difíceis condições de sua terra natal, as
primeiras levas desembarcaram em um país de clima hostil e foram assentadas em
lotes isolados de mata virgem. Sem nenhuma infraestrutura, estradas ou
assistência médica, os pioneiros enfrentaram não apenas o desafio hercúleo de
abrir clareiras na floresta, mas também o rigor de doenças tropicais, ataques
de animais selvagens e a escassez de recursos básicos.
Esta
narrativa, contada sob a perspectiva de uma idosa sobrevivente da primeira leva
migratória, em um tom sentimental e trágico, humaniza as estatísticas
históricas. Ela nos lembra de que a construção das prósperas colônias que hoje
admiramos foi erguida sobre o silêncio, o luto e a resiliência de famílias
inteiras que repousam em sepulturas esquecidas nos antigos confins da nossa
selva.
Boa leitura.
Hatsuo Fukuda,
Editor.
A
desventura dos primeiros imigrantes no Brasil
TIAHNEHORE,
Dmetró
Na
casa de um colono no Paraná, deparei-me com uma idosa vovozinha. Em seu
semblante, havia sinais de muita tristeza vivida; ela estava sentada,
cabisbaixa.
— É
sua mãe? — perguntei ao dono da casa.
—
Não — respondeu-me ele —, é uma estranha. Está vivendo aqui conosco o que lhe
resta da sua vida. Ela é da primeira imigração, e não foram poucas as desgraças
por que já passou.
Isso
me interessou. Comecei uma conversa com a vovozinha, pedindo que me contasse
como foi a vida daqueles tempos desde o início. A velhinha suspirou pesadamente
e começou a relatar:
—
Vivia eu e meu marido em Haletchená. Tínhamos quatro filhinhos e, às vezes,
passávamos por necessidades, donde surgiu a ideia de emigrar para o Brasil. Oh,
quão infeliz foi o momento daquela ideia! Vendemos nossa lavoura e começamos a
nos arrumar para a partida. Não dormi a noite todinha; despedia-me da minha
casinha com lágrimas molhando seu chão, pois foi nele que dei os meus primeiros
passos. Saí para o pomar abraçando cada arvorezinha como se crianças foram.
"Oh, minha ginjeirinha viçosa, quantas vezes trepava eu em seu tronco para
catar suas frutinhas", murmurava e amargamente chorava. Andei até o
pocinho de água, despedi-me, no caminho, do salgueirinho verde, tirei um
pouquinho de água e pela última vez dela bebi. Ao raiar o dia, partimos para a
estação.
Chegamos até o mar e embarcamos no navio. A viagem foi penosa. Adoeci,
adoeceram as crianças e, a muito custo, desembarcamos vivos no Brasil. Aqui, de
repente, fomos recebidos por um calor abrasador. Sofremos muito até chegarmos
às selvas do Paraná, onde nos assentamos, levantando um barraco, e começamos a
derrubar a mata e lavorar o solo. Em volta, só floresta, cheia de animais
selvagens e cobras. Longe do povo, longe do mundo.
Um
dia ouvi gritos. Gritava a minha filhinha mais crescidinha, de 12 anos, a
Oksaninha. Saí correndo e ela, branca como a neve, tremia; fora picada na perna
por uma cobra. Deus amado! O que fazer, não sei. A perna foi inchando,
desespero-me de dó; e, como eu, o meu marido. A queridinha do coração
contorcia-se na cama de dor e suplicava: "Paizinho, mãezinha,
acudam-me". Sofreu muito e, antes do amanhecer, morreu. De desespero, eu
batia a cabeça contra a parede, pensei que ia perder o juízo. Cavamos um buraco
perto da casa, sepultamos a nossa querida filhinha e fincamos uma cruz de
madeira.
Nem
se passaram duas semanas, ouvi gritos não longe de casa. Saímos correndo e
vimos um tigre dilacerando o nosso pequeno Vasselko. Meu marido apanhou a
espingarda, atirou e matou o tigre, mas o meu Vasselko já estava caído, morto,
com a barriguinha dilacerada. Desmaiei ao lado dele, amaldiçoava a minha amarga
sina. Enterramos o Vasselko ao lado da Oksaninha.
Ficamos
dias sem comer nem beber, sentidos, como que atordoados. Um mês depois,
Mekóltsio adoeceu, ficou com febre, mas aqui não havia nem remédios, nem uma
alma viva para prestar socorro. Ficava eu sentada a seu lado, molhava-o com
água, mas, no quarto dia de manhã, ele nos deixou. Nasceu a terceira cova,
aumentando o nosso cemitério e, com ela, a nossa dor.
Ficou
ainda a filhinha Maríika, única nossa alegria e consolo, mas a ela também não
fora predestinado viver. Certo dia, estávamos perto de casa quando, de repente,
saltaram da mata espessa dois selvagens e começaram a atirar contra nós com
arco e flecha. Meu marido pegou a espingarda, deu um tiro, e eles fugiram.
Corremos para a Maríika; ela estava caída no chão, morrendo, com uma flecha
cravada em seu peito. Perdi os sentidos e, quando voltei a mim, a minha
filhinha já estava gelada. Nasceu a quarta sepulturinha.
Foram-se
os filhinhos, ficamos nós sozinhos. Eu chorava ao lado das sepulturinhas, e o
meu marido, Stepan, ficava sentado perto do barraco, apoiando a cabeça nas
mãos. Empalideceu, emagreceu a ponto de não ser reconhecido, não comia e, de
dia em dia, ia-se acabando, como uma vela se consumindo. Depois que se deitou,
não levantou mais. Ficou deitado duas semanas e, uma noite, andou até as
criancinhas. Deus amado! O que se passava no meu coração, só Deus sabe.
Chorando, cavei mais um buraco e enterrei o meu marido.
E,
nesse exato momento, formou-se uma ventania. Veio uma tempestade, bravejava a floresta
em centenas de rugidos, como que cantasse o "Vichnaya Pamyat" (Вічная
пам'ять), o réquiem aos mortos ali.
Às
noites, então, passava eu ao lado das sepulturas, suplicava a Deus que me desse
a morte, mas a morte não vinha. Alguns meses depois, consegui chegar até umas
casas e assim ando até hoje, estorvando as pessoas, e choro, choro pelo marido
e pelos filhinhos.
—
Assim foi a amarga sorte dos primeiros imigrantes no Brasil — concluiu a
velhinha o seu triste relato, com os olhos cheios de lágrimas.
Fiquei
com pena dessa pobre velhinha, que passou por tanta dor e tristeza.
Calendário
do agricultor ucraniano para o ano de 1937, p. 60-61.
Tradução: Emílio Gaudeda.
Emílio Gaudeda é professor, escritor, revisor e um dos mais destacados tradutores da língua ucraniana no Brasil. Com uma sólida carreira acadêmica dedicada às letras, atuou por mais de 30 anos como Revisor de Textos da Imprensa da Universidade Federal do Paraná (UFPR), acumulando profunda experiência na lapidação da prosa e no estudo fonético e transliteral entre os idiomas português e ucraniano.
Membro
ativo e intelectual da comunidade eslava no Sul do país, Gaudeda dedica grande
parte de sua trajetória ao resgate da memória histórica e cultural dos
primeiros imigrantes que se estabeleceram em solo paranaense. Seu trabalho
transita de forma única entre a documentação histórica, a crônica colonial e a
tradução de grandes nomes da ficção contemporânea do Leste Europeu.
Principais
Trabalhos Literários e Traduções:
·
Heróis não morrem – Grandes Obreiros na
Comunidade Ucraniano-Brasileira (Editora
do Chain): Obra fundamental de resgate étnico e
biográfico que documenta a formação e a resiliência das frentes pioneiras
ucranianas no Brasil.
·
Ponte Nova de Outrora (Crônicas
Coloniais): Uma
sensível coletânea de relatos e crônicas que reconstrói o cotidiano, as
memórias e a identidade das famílias que desbravaram o interior do Paraná.
·
Lá, onde há vento (Lyubko
Deresh / Tradução): Lançado no Brasil pela Editora Rua do
Sabão, este trabalho traz pela primeira vez ao leitor brasileiro o romance do
renomado autor ucraniano contemporâneo, narrando os dilemas da criação e da
identidade em um país sob o impacto da guerra.
·
Pesquisa de campo sobre o sexo
ucraniano (Oksana Zabuzhko / Tradução):
Tradução cuidadosa de uma das obras literárias mais influentes e provocadoras
do Leste Europeu pós-soviético.
·
Ensaios e Estudos Históricos: Coautor
em publicações comemorativas ligadas aos 130 anos da imigração ucraniana no
Brasil, produzindo ensaios focados nas frentes migratórias que antecederam os
registros oficiais do governo.


