Como o
ucraniano sobreviveu a décadas de proibições russas
13/06/2026 - 13 de junho de 2026
Há 150 anos, czar
Alexandre 2º impôs restrições a língua e cultura. Repressão reforçaria
identidade nacional, hoje sob ataque em territórios ocupados pelo Kremlin.
Busto do czar Alexandre II em Bad Ems, na Alemanha, marca história da identidade nacional ucranianaFoto: D. Kaniewski/DW
Estâncias termais já desempenharam papéis importantes na história mundial, como Spa, na Bélgica, ou Bad Ischl, na Áustria. Mas nenhum outro balneário se fixou tão profundamente na consciência nacional ucraniana quanto a cidade de Bad Ems, na Alemanha.
Ali esteve pessoalmente o czar russo
Alexandre II como visitante para tratamento e, há 150 anos, em 30 de maio de
1876, assinou o Decreto de Ems. O texto proibiu quase completamente a impressão
de livros em ucraniano e a importação de obras nessa língua do exterior,
submetendo a cultura ucraniana, em todas as suas formas, a severas restrições.
O decreto foi precedido, em 1863, por uma
circular secreta do ministro do Interior Piotr Valuyev, na qual afirmava que
uma língua "pequeno-russa" própria, referindo-se ao ucraniano,
"não existiu, não existe e não pode existir".
Como se depreende de um documento de uma
comissão encarregada pelo czar, as proibições visavam impedir "que se
formasse a base para a convicção de que a Ucrânia poderia, mesmo em um futuro
distante, separar-se da Rússia".
Michael Moser, professor de estudos eslavos
da Universidade de Viena, observa que "em uma época em que numerosas
línguas europeias bem-sucedidas estavam sendo padronizadas, em maio de 1876, no
belo Bad Ems, fez-se de tudo para impedir o desenvolvimento da língua ucraniana,
até mesmo para matá-la".
O historiador alemão e professor emérito da
Universidade de Colônia Gerhard Simon descreve a visão da época: "A
'ucranidade' era considerada uma variante da 'russidade' e uma ameaça à unidade
estatal e cultural do Império czarista".
Revitalização pela dramaturgia
Na historiografia ucraniana, os primeiros
anos após o decreto são chamados de "anos mortos". O influente jornal
Kyjiwer Telegraf foi
fechado, e muitos intelectuais e profissionais ligados à arte e à cultura
tiveram de emigrar para o Ocidente.
Após o assassinato do czar Alexandre II por
membros da sociedade revolucionária secreta russa Narodnaya Volya (Vontade do Povo), em 1881,
abriu-se uma janela de oportunidade única para os ucranianos no Império Russo.
Enquanto as autoridades em São Petersburgo
enfrentavam turbulências, Pawlo Schytezkyj, um conhecido filólogo e etnógrafo
ucraniano, conclamou à revitalização da cultura ucraniana por meio do teatro.
Foi exatamente o que fez o dramaturgo Marko
Kropyvnytskyi. Poucos meses após o assassinato do czar, ele enfrentou
diretamente as autoridades e fundou, na então Yelysavethrad, um dos primeiros
teatros profissionais ucranianos, reunindo figuras conhecidas. Hoje, a cidade
leva seu sobrenome.
Dramaturgo Marko Kropyvnytskyi fundou dos
primeiros teatros profissionais ucranianos após morte do czar Alexandre II Foto: Public Domain/WIKI
Embora o Decreto de Ems tenha permanecido formalmente em vigor
até 1905, considera-se 27 de outubro de 1882 como a data em que ele perdeu
efeito prático. Nesse dia, estreou em Yelysavethrad, sob a direção de
Kropyvnytskyi, o drama "Natalka
Poltavka", do escritor Ivan Kotliarevsky, com casa cheia. A
peça tornou-se um clássico do teatro ucraniano.
"O teatro foi o ramo da cultura
ucraniana no século 19 que realmente alcançou todo o povo", afirma Gerhard
Simon. "No início, tratava-se de um teatro amador e, por isso, estava
enraizado no campo. A partir daí, foi se profissionalizando, mas sempre
permaneceu parte da cultura popular. Por isso, as apresentações teatrais,
sobretudo as encenações amadoras, são tão importantes para o desenvolvimento da
cultura como um todo na Ucrânia."
Naqueles anos, a criatividade floresceu.
Surgiram "clássicos de ouro" do drama ucraniano, nos quais temas de
assimilação cultural no Império Russo eram tratados com humor. Novos nomes
ganharam espaço na literatura, entre eles Lesya Ukrainka, Mykhailo Kotsiubynsky
e muitos outros.
Retomada de narrativas czaristas
Paradoxalmente, segundo Gerhard Simon, foram
as repressões do regime czarista que se tornaram o verdadeiro "motor da
formação da nação ucraniana". Pesquisadores indicam que, após o Decreto de
Ems, houve ainda dezenas de tentativas de restringir a língua ucraniana.
Hoje, o governo do presidente russo, Vladimir
Putin, volta a difundir antigas narrativas da época dos czares sobre uma
"unidade histórica de russos e ucranianos". [Trata-se de um cretino
que quer impor uma narrativa absurda. Moscovo nem existiam quando a Rus de Kyiv
imperava no mundo. Eles eram escravos dos mongóis. Isso o cretino não fala. - a.o.]
A guerra da Rússia contra a Ucrânia
vem acompanhada de um ataque à língua, à cultura e à identidade ucranianas nos
territórios ocupados. "O Decreto de Ems não é história. Ainda lutamos para
falar ucraniano e ler livros em ucraniano, para que essa cultura não seja
destruída", disse à DW a ucraniana Iryna Shmylichowska, de Colônia.
Provavelmente, o czar Alexandre II ficaria
surpreso ao saber que hoje até jovens alemães aprendem ucraniano. Um desses estudantes
é Jasper Medenwald, que estudou propaganda russa. "É um fracasso anunciado
tentar reprimir a Ucrânia e a língua ucraniana, porque ela sempre encontrará um
caminho", afirma.
Nos últimos anos, os cursos de ucraniano vêm
crescendo na Alemanha. De acordo com o Departamento Federal de Estatística,
cerca de 1.250 estudantes cursam atualmente estudos eslavos, incluindo
ucraniano.


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