domingo, 10 de julho de 2011

COMO A RÚSSIA LUDIBRIOU A EUROPA E TODO O OCIDENTE

RÚSSIA: Uma criação artificial


Tyzhdyn (semana), 09.06.2011
Entrevistadores: Olena Checan, Oleksandr Narodetskyi


Um dos fundadores do movimento dissidente na URSS Vladimir Bukovskii fala sobre os documentos secretos da era Gorbachev, o futuro da Rússia e riscos internos para Ukraina.


Vladimir Bukovskii

Doze anos atrás das grades, particularmente em campos de concentração política em Perm, em Volodymyrskyi Tsentral (prisão na Rússia destinada principalmente para condenados políticos - O.K.) e hospitais psiquiátricos situados em seções prisionais. O vôo sensacional para Suíça, trocado pelo governo de Kremlin pelo timoneiro chileno Luís Corvalan. Hoje Vladimir Bukovskii - ideólogo do Partido Independente do Reino Unido, que ficou em segundo lugar nos resultados das eleições para o Parlamento Europeu na Grã-Bretanha, solicita a saída deste país da União Européia.

"Esqueletos no armário do Gorbachev"
U.T.: Você falava e escrevia que os documentos abertos da era Gorbachev indicam a existência de conluio entre os partidos da esquerda da Europa e da URSS sobre a federalização do mercado comum europeu. Mas, para integração em grande escala na UE, em muitos Estados-Membros dessa união os governos são da direita e do centro. Como pode haver consistência entre eles?

Isso não é bem assim. Trata-se de dois processos diferentes. Primeiro - a criação do mercado comum na Europa, o qual realmente teve início com a direita e a um bom tempo, logo após a II Guerra Mundial, quando houve acordos sobre aço, carvão, etc., deles gradualmente surgiu uma certa integração econômica. Mas observemos, que até 1985 os esquerdistas ocidentais e a URSS eram categoricamente contra este processo. A União Soviética percebia isso como uma tentativa de unir toda Europa num bastião anticomunista. E os partidos da esquerda e os sindicatos no Ocidente - como uma conspiração dos capitalistas para limitar os direitos dos trabalhadores.

O movimento da virada, como eu elucidei através de documentos, aconteceu em 1985. Gorbachev apareceu na URSS com a sua reestruturação, além disso, o Kremlin percebeu que o país entrou em uma grave crise estrutural, da qual não seria fácil sair. Eram necessárias modificações na política - tanto interna como externa. E na Europa neste momento, os partidos da esquerda chegaram à conclusão, que não conseguiriam salvar as conquistas do socialismo, como eles o chamavam, visto que observava-se uma tendência inversa. Especialmente depois de Margaret Thatcher com sua desnacionalização de grande parte de empresas e diversos ramos industriais. Demasiado depois, quando em 1980, Mitterand, chegando ao poder esforçava-se para implementar o socialismo, mas suas reformas engasgaram-se: na França instantaneamente o mercado caiu 25%. E, eis que, os esquerdistas ocidentais, vendo que Gorbachev se agitava como rato na gaiola, explicaram-lhe que eles tinham uma idéia de como sair desta situação, salvando o máximo de suas "conquistas". Que é necessário adotar esse projeto de integração européia e virá-lo de cabeça para baixo. Isto é, se é uma tentativa de criar um mercado comum e livre, então é necessário fazer desse projeto de fundação de um Estado federal europeu e já absolutamente não livre, mas regulamentado e regulado.

Veja como tudo foi.
Começando do ano de 1986 essa idéia foi ativamente promovida na mídia e muito comentada nas conversações dos políticos. Gorbachev, concordando em participar desse projeto, anunciou o assim chamado "A Europa é nosso lar comum" - esta era a sua formação. Apenas é preciso lembrar que ele não disse "lar comum socialista europeu" [mas pensou]. E sempre se esforçava para não pronunciar a palavra "socialista", como se estivesse perdendo-a. Falava: "Nós precisamos de economia de mercado". Mas, seus especialistas desenvolviam modelo não de economia de mercado, mas assim chamado mercado socialista. Uma concepção absurda: que a economia se desenvolvesse como de mercado, mas que houvesse, ao mesmo tempo, socialismo. E quando ele dizia "democracia", também "esquecia" de sublinhar, que tinha em mente democracia socialista. E nós, que vivíamos na União Soviética, sabíamos que “democracia socialista” é absolutamente divergente e contrária a concepção de “democracia” como o Ocidente a compreende.

Assim, por volta de 1987-88 Gorbachev concordava com os partidos ocidentais da esquerda. Neste momento, em quase todos os governos estavam os esquerdistas. Na França - Mitterand, Espanha - González, na Alemanha, por enquanto, por mais algum tempo permaneceu Kohl, mas quando seu governo terminou, os social-democratas de lá estavam prontos para apoiar e desenvolver este projeto. Também nós, no Reino Unido: em 1990 com o afastamento da Thatcher, imediatamente nossos social-democratas do Partido Trabalhista se juntaram "ao nosso lar comum". Por isso, por um bom tempo a direita não compreendia o que a esquerda tinha em mente, e com grande entusiasmo apoiaram a idéia de um mercado comum, embora ainda a pouco tempo atrás eram categoricamente contra.

U.T.: O senhor também afirma que o Ocidente não queria mudanças democráticas na União Soviética.

- Durante a União Soviética o Ocidente estava muito interessado neles. A maior parte do "establishment" aspirava preservar a União Soviética. Mitterand disse diretamente a Gorbachev, provavelmente em 1991, que nós necessitamos de União Soviética forte. "Só então poderemos controlar todo o espaço entre Paris e Moscou. Isto quer dizer que o Ocidente não desejava o colapso da União Soviética, e de todas as maneiras procurava impedir. Eu tenho documentos que provam que a Igreja Católica pressionava Lituânia, para que ela não exigisse a independência. Na verdade o Papa não sabia sobre isso, era trabalho dos cardeais. Os países escandinavos tentavam influenciar os Estados Bálticos. Porque os requisitos para a separação levarão a uma completa restauração - assim diziam pessoas ocidentais.

Um dos fetiches do "establishment" político ocidental é a estabilidade: somente que a eles aparece a preocupação, que em algum lugar pode haver transgressão da estabilidade, eles fazem de tudo para evitar isso. A desagregação lhes parece instabilidade - não entendem que a URSS era uma criação artificial, que forçosamente manteve-se por décadas, que ela devia desintegrar-se. Exigir preservação da estabilidade em tempo de mudanças revolucionárias - significa que você apóia o status quo, o que é insensato. Isto sempre me lembrava o menino da anedota, o qual queria, no dique, fechar o buraco com seu dedinho.

Lembro, como assustavam a todos nós com a desintegração da URSS. Sendo que não apenas a propaganda de Kremlin, mas também o Ocidente. Lembro, eu, em 1989 discutia com uma pessoa muito influente e respeitada em Washington - e foi me dito que, para nós do Ocidente, Ukraina independente não é necessária. E, como vocês sabem, a administração americana até o final criava resistência à independência da Ukraina. Em 1991 vós visitou Bush-pai e no seu célebre discurso em Kyiv exortou os ukrainianos à não separação. Foi engraçado, simplesmente ridículo, mas eles amavam tanto seu ídolo Gorbachev, que estavam decididos por ele fazer as barganhas mais óbvias.

URSS desintegrou-se praticamente sem sangue. Exceto em ocasiões quando houve provocações pelo próprio Gorbachev: Tbilisi, Vilnius, Baku. Mas não foi como a guerra intestina dos russos e bálticos, georgianos e russos. O movimento provocativo foi introduzido. A maioria da população russa reagiu com surpreendente calma ao fato de que pedaços do antigo país proclamavam sua independência. Não houve manifestações ou protestos sobre esta questão.

ÁGUIA DUPLA PARA FEDERAÇÃO

U.T.: Como o senhor avalia as chances de Putin-Medvedev à próxima presidência da Rússia?

- Eu nunca considerei seriamente a figura de Medvedev. Lembro como o colocaram, sim colocaram - nunca ninguém o escolheu. O político que não tem sua base, não pode ser independente. Ao longo dos anos passados na presidência, muito pouco mudou. A própria base ele não construiu. E, em geral, se comportou com muita obediência. Ele e Putin desempenham um certo jogo policial, o mau e o bom: o ministro ocupa-se com uma posição mais dura, o presidente parece assumir o rosto liberal do regime Putin. Todos esses jogos nós conhecemos. Eles vem desde os tempos do comunismo. Nós acostumamos com isso. Não nos enganarão!

Acontecem sobreposições quando os Ghost-writer que escrevem para Putin e Medvedev, o que devem dizer e quando não conseguem entender-se a tempo. Então, às vezes pode parecer que há algum tipo de confronto. Não há confrontação e não pode haver. O resultado de futuras eleições foi decidido com antecedência.

U.T.: Conseguirá o governo central da Rússia conter o separatismo das regiões, que cresce?

- Se tudo continuar transcorrendo como agora, Rússia, sem dúvida, continuará a decompor-se. Mas os cidadãos, a partir disto, serão beneficiados ou perderão - eis a questão. Ganham alguma coisa - perdem outra. Rússia como Estado sempre foi construída a partir do telhado, não dos fundamentos. Por isso lá nunca houve autogoverno. Eu vivo na Inglaterra, freqüentemente vou a Estados Unidos. Lá o desaparecimento do governo federal praticamente não afetará a vida das pessoas, porque as questões básicas vitais são decididas pelo governo local. Nos Estados Unidos - estados, na Inglaterra - condados. Então o governo central é de pouco interesse dos cidadãos. Pelo contrário, ninguém gosta dele, porque é ele que arrecada os impostos.

E na Rússia quando o governo central cai ou enfraquece, tudo começa desmoronar. Foi assim de 1917, e 1941, e 1991. Quando começa a crise, o país arruina-se completamente. Por quê?`Porque esta é uma forma artificial. Não está sobre nenhum apoio. O governo local - fundamento da democracia. Sem ele é totalmente impossível dirigir um país. Eu vivi um bom tempo na Suíça. Lá, a unidade básica de poder - Cantão. Abaixo está a comunidade. Ela também tem um poder bastante importante. O governo federal ou confederativo é mínimo, é mais decorativo. Os governantes geralmente ocupam cargos como resultado da rotação. Um ou outro, não importa quem. Portanto, embora a Suíça seja um país multinacional, vive pacificamente, não há conflitos lá. Claro, a Rússia, sendo multinacional, além de ter extraordinário tamanho, muitos fusos horários, não pode ser controlada a partir de um ponto em algum lugar do Kremlin. Isto é uma loucura, simplesmente absurdo. E por isso, toda vez, quando este Kremlin enfraquece, tudo começa a se desintegrar. Quando completa-se a fragmentação e cada fragmento consegue governo próprio, em princípio devemos considerar isto positivo. Não obstante surge a pergunta: que países serão esses? É pouco provável que sejam democracias parlamentares...

PATINS PARA OPOSIÇÃO

U.T.: O senhor concorda que, o projeto chamado "oposição forte e de princípios" na Rússia, na presente etapa falhou completamente?

- Eu não diria assim - falhou. O fato é que, nas condições que prevalecem hoje na Rússia, criar oposição é praticamente impossível. De um lado, forte pressão das autoridades do estado através dos poderes legislativo e executivo, quando não lhe deixam nenhum campo legal para atividade política. É impossível registrar o seu partido político, porque isso depende do estado, mas o estado não quer as forças de oposição política. É impossível você se candidatar nas eleições, porque atrás há muitas falsificações, e a mídia de base é fechada para todas as pessoas aptas para oposição. E ainda repressões, tentativas de reprimir protestos fisicamente quando se manifestam nas ruas ou praças.

Por outro lado, enquanto vigoram esses preços para petróleo, acontece um significativo suborno de todos. Especialmente isso se aplica, normalmente, nas grandes cidades, porque para o país todo os petrodólares não são suficientes. E, eles não são extraídos para serem distribuídos. Mas, ainda sim, uma parte dessa receita incrível é gasta para suborno social, para que a população não caia ao extremo, não vá aos protestos.

Na Rússia percebe-se o empobrecimento, muitos falam sobre isso. Tudo se torna mais caro, mais e mais pessoas permanecem além da linha da pobreza. E, a qualquer tempo, na base de tais tendências virá o momento, quando as massas sairão às ruas. E o que lhes restará fazer? Afinal não se tratará apenas da eletricidade, gás, etc. - elas já não poderão comprar sua comida. Mas, isto ainda é perspectiva. A oposição atual está imprensada de dois lados: um - é a pressão de cima, outro - população muito apática, que ainda não morre de fome. E nisso, por algum tempo, o país pode existir, mas, repito, apenas por algum tempo.

U.T.: Na Rússia atual, o senhor vê individualidades fortes que possam lançar um sério desafio para o atual sistema russo?

- As individualidades aparecem no processo. No processo de confronto, luta. Elas existem, mas podem revelar-se apenas quando são construídas. E assim, costumeiramente, ocupam-se de alguns negócios próprios, trabalho, profissão, retardam isso, não querem. Por exemplo, a situação começou piorar, e de repente manifestou-se o famoso músico Yuri Shevchuk. É uma individualidade muito forte, mas não quer ocupar-se com política, deseja dedicar-se à música. Mas eu sei: se nada mudar, Shevchuk, com suas características pode tornar-se líder de multidões.

CONTEXTO UKRAINIANO

U.T.: O que deve fazer Ukraina, para realmente defender sua independência?

- Com a vizinhança da Rússia a posição é mais tranqüila que antes. Naturalmente a FR vai aproveitar todas as possibilidades políticas dentro da Ukraina, como faz agora. Apoiará as mais próximas forças políticas ao seu regime, as incentivará e ajudará, em uma palavra, jogará com elas. Mas intervir fisicamente ela já não poderá. Rússia enfraquecerá.

Ukraina tem um problema próprio muito específico. É na Rússia que há a tendência para divisão em vários pedacinhos. E vocês tem a tendência absolutamente clara de divisão em duas partes. Isso é muito perigoso. Porque pode acontecer a qualquer momento e, é provável que seja associado à violência de guerra civil. Por isso, a principal preocupação dos políticos ukrainianos - como evitar o conflito, que acordos alcançar, que programas aprovar, para evitar tal cenário. Esse problema para vocês é número um. Absolutamente não é a Rússia. Ela agrava esse problema, porque interfere nele, joga com ele, e isto o torna ainda mais agudo.

U.T.: Para quem é confortável na Rússia, para Ukraina, como país independente deixe de existir? Isso poderia ajudar a própria Rússia?

- Claro que pode. Há regiões que simpatizam com Ukraina, que pensam como conseguir maior autonomia e até mesmo independência, e que eram favoráveis aos Estados Bálticos, quando eles se separaram em 1991, e a Ukraina... Seus exemplos mostram, que eles, na Rússia, podem fazer o mesmo. Em geral na Rússia, esse elemento de grande país, não mais tão grande assim, mas muito barulhento, impertinente. E, visto que o governo o incentiva, ele adquiriu considerável visualização. E, se você tentar defini-lo estatisticamente, revela-se que é uma pequena parte marginal da população, diz-se infectada por vírus, a qual nada de bom fez na vida e independência não lhe é necessária.

Vladimir Bukovskii - Escritor, ativista político e social, cientista e neurofisiologista. Quando, aos quatorze anos soube, através dos relatórios de Nikita Khrushchev dos crimes de Stalin tornou-se um ferrenho opositor da ideologia comunista.


Tradução: Oksana Kowaltschuk

quinta-feira, 7 de julho de 2011

TRIBUNAL NA UCRÂNIA VIRA CIRCO

Julgamento de Lutsenko

É uma vergonha o que se sucede dentro de um "Tribunal" na Ucrânia. Juízes fajutos e imorais, processos inquisitoriais adredemente fabricados para extinguir oposições políticas, enfim, o grau máximo da vergonha, da indecência, da imoralidade, do barbarismo de um governo comunista.
O Editor.


Ukrainska Pravda, 06.07.2011

Na sessão do tribunal, 4ª feira, 06.07.2011 aconteceram incidentes.

Durante analise de um vídeo, um dos deputados do partido B'iút (Tymoshenko) exclamou em tom bastante elevado. O juiz pediu que a pessoa levantasse. Todos os deputados presentes levantaram. O juiz insistiu que o responsável declinasse seu nome, porque houve perturbação da lei. Como todos se levantaram, o juiz concluiu que todos perturbavam a ordem na sala do tribunal. Aí o deputado M. Kosiv se apresentou e pediu que o tribunal fosse conduzido corretamente. Disse que esteve em tribunais da União Soviética, pelo artigo 62, devido a publicação de jornal clandestino, e sabe que os tribunais na União Soviética eram muito mais corretos que este.

Depois disso o juiz pediu à milícia para retirar o deputado M. Kosiv da sala. Entretanto, o deputado aproveitando de sua imunidade parlamentar não aceitava sair. O juiz determinou, impreterivelmente, a retirada do deputado e anunciou intervalo.

Os deputados resistiram. Para retirar M. Kosiv teriam que retirar todos, ou trazer o Ministro de Assuntos do Interior.

A milícia não conseguiu, mas o deputado acabou saindo sozinho porque se sentiu mal. Acabou indo ao Pronto Socorro.

Durante o incidente chamaram os "milicianos" armados do "Berkut" os quais podem usar a força.

O advogado da Tymoshenko pediu o afastamento do juiz. Houve gritaria na sala. O juiz exigiu que o responsável se levantasse. Levantou o deputado Suslov. Não atendeu à ordem do juiz para sair. Houve empurra-empurra entre a milícia e os simpatizantes da Tymochenko. Aí entrou o pessoal do "Berkut" que começou usar força. Então o deputado avisou que sairia. Saíram com ele mais alguns deputados.

No reinício da sessão Tymoshenko pronunciou uma palavra inaudível. Ao pedido de explicações do juiz ela disse haver pronunciado "neliud" (desumano, cruel). O juiz não aceitou a explicação, pediu novamente. Ela repetiu "neliud". Então o juiz disse que não foi esta a palavra, que ela teria usado uma palavra imprópria, e mandou que ela saísse da sala. Ela resistiu, mas acabou saindo quando o "Berkut" apareceu.

Próxima sessão, quinta-feira, dia 07.07.2011.

Tradução: Oksana Kowaltschuk

Excertos das últimas sessões do Tribunal de Lutsenko

O tribunal não aceitou a petição de Lutsenko para afastar o juiz Vovk, contra o qual foi aberto inquérito em assunto criminal. Também há a questão de quebra de juramento do juiz Vovk, segundo Lutsenko. Os procuradores concluíram que o inquérito contra o juiz não atrapalha o caso Lutsenko.

O advogado de Lutsenko, Oleksii Bahanets, acha que qualquer que seja a decisão... haverá motivo para dúvidas.

Como o juiz também está sendo acusado criminalmente, Lutsenko diz ao juiz: "O senhor precisa condenar Lutsenko, caso contrário, o aprisionado será o senhor!" e, novamente pede o Tribunal de Jurados. "E, como o senhor está 100% dependente dessa questão criminal, penso que isto me dá o direito de me dirigir não ao senhor... mas aos mandantes":

"Senhor Presidente Yanukovych, com todos seus plenos poderes não sou eu, mas o senhor, teme a mim e a Tymoshenko".
"No dia da Constituição eu vi, senhor Yanukovych, sua soberba e satisfação no encontro com os jornalistas (1). Para o senhor, isto parece ser bom. O senhor - único dono da Ukraina... seus amigos - autoridades criminais com sangue nas mãos - seus inimigos políticos, donos de suas vidas, estão engaiolados. No Maydan - silêncio... (2) Mas, senhor Yanukovych, é apenas aparência de estabilidade. Guarde minhas palavras. Sua política: ‘para mim, caviar; aos inimigos, prisão; à nação, ataúde’ não terminará bem!"

E, intrigado, pergunta: "Por que o computador do Pecherskyi Tribunal continuamente determina exatamente este juiz?"

Lutsenko desmente a declaração dos governantes que os processos criminais contra a oposição estão enquadrados na luta contra corrupção: "Eu nego categoricamente esta afirmação, baseando-me nos materiais de minha investigação e investigações de meus colegas", disse ele. A seguir relacionou alguns, dentre muitos, delitos de partidários do presidente:

"A atual justiça restabeleceu o caso contra Melnechenko, o que o acusa, automaticamente, de gravações ilegais, e coloca uma cruz no processo contra Kuchma... fica entendido que a justiça é seletiva (3). O caso Piskun que, contra lei, fechou o processo contra Melnechenko, e agora, que o processo foi declarado fechado contra lei, é reaberto. Sentará no banco dos réus o deputado regionalista Piskun? Porque a mim me incriminam por ter dado prosseguimento ilegal num assunto de pesquisa operacional".

"Aprisionarão os ex-ministros do interior Bilokin e Tsusko? Foi demonstrado por centenas de cartas sobre contagem de estágio de seus subordinados, palavra por palavra, vírgula por vírgula, análogos à única carta que assinei eu".

"Não aprisionarão o amigo do Partido das Regiões Chernovetskyi (prefeito) pela pilhagem de Lviv?"

"Não responderá Stelmakh (ex-presidente do Banco Nacional da Ukraina) que roubou dezenas de bilhões?"

"Os ukrainianos sabem que os ‘regionais’ não irão contra os seus. Para eles, o governo de Yanukovych elaborou uma nova lei. O corpo submerso no Partido das Regiões - não é submetido a nenhuma lei. Arquimedes vira-se no caixão. Mas a lei do Yanukovych é somente para os amigos do atual governo", acrescentou ex-ministro.

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(1) Yanukovych escolheu seis jornalistas a dedo, aqueles que não lhe fazem nenhuma crítica, e lhes mostrou parte de sua luxuosa residência (parte porque a área é bem maior, mas Yanukovych diz que não é dele só que estão surgindo novas e riquíssimas construções, e muitos comentários). No ano passado ele disse aos jornalistas que os convidaria, eles ficaram cobrando, mas só um grupinho foi convidado.


Jornalistas (escolhidos a dedo) visitam a residência do presidente da Ucrânia

Veja mais fotos clicando no link: http://www.pravda.com.ua/articles/2011/06/28/6338987/ - O.K.)

(2) Maydan significa praça. Referência a Maydan é referência à Revolução Laranja, que em 2004 ocupou a Praça da Independência, em Kyiv (por vários dias, sob a neve), em protesto às eleições fraudadas que deram como certa a eleição de Yanukovych para Presidência. Houve o 3º turno e Yanukovych perdeu. Infelizmente se elegeu, com algumas fraudezinhas, em 2010. - O.K.)

(3) Aqui a referência é ao assassinato do jornalista Gongadze, que denunciava todas as arbitrariedades do ex-presidente Kuchma, e que teria sido assassinado por ordem dele. O caso foi chocante porque não encontraram a cabeça da vítima. A pouco tempo teria sido encontrada, mas a mãe não acredita e lamenta não ter condições para promover a perícia no exterior. O caso rola a mais de dez anos e nada se decide - O.K.)

Tradução: Oksana Kowaltschuk
Foto formatação: AOliynik

quarta-feira, 6 de julho de 2011

DA RUSSIFICAÇÃO À POBREZA

Tyshdyn, 10.06.2011
Oleksii Sokyrko

Imposição do idioma russo - apenas um aspecto da exportação russa de seu modo de vida.

O termo parece bem familiar. Hoje até os manuais escolares animadamente explicam sua essência: russificação, dizem, é política direcionada para afirmar e fortificar a superioridade da política nacional russa na Ukraina e outros países, com a ajuda da transmissão ou introdução de pessoas de nacionalidade não russa, para a língua e cultura russa e sua posterior assimilação.

O tratamento popular deste fenômeno conduz sua genealogia partir do limite dos séculos XIX - XX quando o braço político do movimento de libertação nacional lutava contra todos os tipos de restrições na área de expressão e de imprensa ucrainiana.

Em seguida, já durante a era soviética, este tratamento transformou-se em flagelação revelada na política cultural e educacional da URSS. No entanto, a russificação desde o seu início não se aplica apenas ao idioma e bordados.

Russificação Econômica: obuses em vez de manteiga

Na maioria das vezes a russificação é compreendida como introdução e cultivo do russo, que deve eliminar e nivelar o que é especificamente seu, autêntico. Na verdade, a opressão e a assimilação foram e são apenas parte das medidas de russificação. Sua outra função é preservação e desenvolvimento daqueles componentes da cultura local ou práticas sociais que, por definição, forem úteis para a metrópole, prometendo reforçar sua autoridade local.

A russificação, tradicionalmente e com justiça, é identificada como propagação, na Ukraina, da influência política russa, quando, após a revolução dos cossacos no século XVII e uma série de guerras com a Polônia e Turquia, cada vez mais do território ucrainiano caía sob o domínio do "czar ortodoxo branco". No entanto, o início da russificação não se relaciona, absolutamente, com a esfera cultural-educacional, mas sócio-econômica. Defendendo com zelo positivo, que isto acontecia graças às conquistas russas da era imperial à vida econômica ukrainiana.

Os contadores de histórias da frente ideológica sempre sublinhavam a acessibilidade da Ukraina aos mercados externos para venda de produtos (principalmente agrícolas), à conversão do território ukrainiano do sul e "Livoberegia" (parte do território à esquerda do rio Dnipró - O.K.) no celeiro da Europa. A amarga verdade consiste em que, todas essas modificações, antes de tudo, contribuíam para a preservaçãoo dos direitos econômicos alheios a Ukraina, fato percebido no século XVIII. Não é nenhum segredo que o "acesso" para os mercados ocidentais dos comerciantes ukrainianos não ocorria pelos caminhos da rentabilidade, como acontecia na Idade Média, mas por intermédio da Rússia e através dos centros de trânsito da metrópole.

A ideologia do comércio exterior da Rússia não tinha nada em comum com a filosofia da livre troca, característica do mundo ocidental, e era centrada exclusivamente nas necessidades do estabelecimento do poder econômico, e domínio político. Pela introdução gradual das restrições à exportação estratégica de mercadorias importantes e direcionamento de fluxos do comércio em seus postos de trânsito, Rússia rapidamente estabeleceu, completamente novas para os ukrainianos regras do jogo, onde o comércio podia ser bem sucedido apenas para os "seus". No futuro próximo mantiveram-se nele, principalmente aqueles que conseguiram apoio e proteção de nobres influentes ou os favoritos do czar.

Outro fruto amargo foi a entrada dos produtores ukrainianos no mercado comum russo, elogiado por muitos historiadores da época imperial e da União Soviética. A agricultura na Ukraina tinha seu caráter orientado para exportação. Os pseudopatriotas se alegravam muito com o status da Ukraina como alimentadora da Europa enquanto silenciavam que, além fronteira prevalecia a venda de cereais forrageiros, os quais eram re-exportados para as colônias, e não para os consumidores europeus.

O desenvolvimento dinâmico na fabricação do açúcar na Pravoberezhna Ukraina (terras à direita do rio Dnipró - O.K.) tornou-se guloseima que acariciou a vaidade citadina, também tornou-se uma espécie de "milagre econômico", apenas com a ressalva, que as condições de trabalho nos engenhos de açúcar eram extremamente difíceis. E, a rede de empresas não resolvia o problema do desemprego e baixos padrões de vida. Embora a Ukraina era considerada quase uma capital européia da fabricação de açúcar, a média de consumo de açúcar de seus habitantes de posses intermediárias, por ano, era menor que de seus vizinhos europeus.

O crescimento industrial da segunda metade do século XIX foi, comprovadamente, projeto "russo", porque o governo controlava todo investimento, aspirando utilizá-lo não para benefício da prosperidade do país, mas para o desenvolvimento de estrategicamente importantes setores, orientados para as necessidades do Exército e da Marinha. O princípio de Bismarck "projéteis ao invés de manteiga", atraía investidores estrangeiros devido a garantia de venda de seus produtos (armas, navios, aço, trilhos, vagões, carros, equipamentos industriais) consumidos pelo governo. A revolução industrial do Império e, posteriormente, a industrialização soviética professavam praticamente as mesmas prioridades econômicas: predomínio da extração de matérias-primas e indústria pesada sobre a indústria leve e alimentícia. Na véspera da Primeira Guerra Mundial as exportações ukrainianas de produtos acabados representavam menos de 20%, o restante eram matérias primas e produtos semi-acabados.

A não otimização do desenvolvimento da indústria e da agricultura, projetada e estimulada aos interesses da comunidade minoritária, impedia o desenvolvimento do consumo interno. O atraso do modelo imperial da economia realmente conservou as antigas formas de alimentação e costumes culturais ukrainianos. O consumo excessivo de pão e cerais, que compensavam a falta de proteínas e gorduras na dieta, o consumo elevado de álcool, que era, implicitamente, incentivado pelo monopólio estatal - todos esses rudimentos do cotidiano arcaico sobreviveram com sucesso a civilização imperial, tornando-se um dos códigos básicos da civilização soviética.

O retrocesso na área de comunicações, sobre a qual o Google escreveu, considerando-a como uma doença crônica da Rússia, tornou-se um fato estabelecido para Ukraina. A irracional e frágil construção de estradas e ferrovias, o atraso nas tecnologias, o desvio e roubo de fundos tornaram-se para sempre a marca russa nesta esfera. Os projetos referentes ao transporte freqüentemente transformavam-se em propaganda, que encobriam a verdadeira insegurança: cenas de construção da estrada de ferro Trans-Siberiana, onde o futuro czar Nicolau II, segurando um carrinho de mão, entraram em todos os manuais escolares de história, e depois de algum tempo reencarnaram-se na propaganda de outro projeto de Potemkin, agora já soviético BAM (estrada de ferro na Rússia asiática, de Baikal a Amur - O.K.) Com notas comuns a eles ressoam os atuais projetos de infra-estrutura referentes a Euro - 2012 da pós-soviética Ukraina.

Russificação social: filas em vez de barricadas

A mais brilhante manifestação de "russificação" social - participação das elites ukrainianas no desenvolvimento do império russo e soviético - freqüentemente utiliza-se como argumento a favor da proximidade destas formações e sua ideologia à mentalidade ukrainiana. À causa de exatidão distinguiremos: "khokhly" (termo pejorativo usado pelos russos em relação aos ukrainianos - O.K.) - construtores do império - não é apenas Rosumovski, Bezborodkos, Troshchynski e Kochubeí (membros da elite ukrainiana - O.K.), mas centenas de milhares de camponeses e cossacos ukrainianos, com os quais Petersburgo "em prol da russificação" povoava Kuban, Criméia, Leste siberiano e Cazaquistão.

O fato marcante da política social da metrópole era: todas as medidas regulatórias relativas à sociedade ukrainiana eram direcionadas somente para duas camadas sociais: nobreza e camponeses. Os primeiros obtinham perspectivas de carreira e perspectivas militares no exército imperial, perdendo em troca a sua [condição] social - política de auto-suficiência e, em seguida a própria identidade. Os camponeses, ora com chicote, ora com bolo de mel, eram atraídos para uma mítica "terra e liberdade" camponesa. No entanto, a política dos governos imperial e soviética sucessivamente ignorava e marginalizava a terceira camada - a classe média.

Os direitos de propriedade na legislação dos impérios, para grupos não privilegiados, sempre pareceram ilusórios e as liberdades políticas estavam completamente ausentes. Em geral, tal situação não dava oportunidade para desenvolvimento da burguesia, como portadora de outros princípios estabelecidos na independência, responsabilidade e iniciativa.

Em compensação a "russificação social" sempre se preocupava com a preservação da estrutura hierárquica da sociedade. O topo, tradicionalmente ocupavam os "escolhidos" e protegidos pelo regime político, funcionários e oficiais, aos quais poderiam se juntar outras categorias de "servidores do povo". Em condições de ineficiência crônica do aparato administrativo e econômico, estas categorias tinham, além da influência no governo, acréscimos e vantagens preferenciais - desde acesso a bens da civilização ocidental, efetivo tratamento de saúde e quotas de alimentos em distribuidores especiais. O restante da sociedade era tratada como massa amorfa, despersonalizada, sem independência, sem possibilidade de demonstrar seus dotes, sua vocação, sem sua própria individualidade. Devendo ser seu principal valor a submissão total e fé no Estado forte (czar, chefe). As aspirações sociais não eram dirigidas na sua auto-realização e aperfeiçoamento próprios, mas na procura de caminhos ao número de "eleitos" e, então apossar-se dos benefícios a eles destinados.

A liberdade pessoal em estruturas coletivistas de comunidades rurais ou brigadas Stakhanov (O movimento Stakhanov, iniciado em 1935 e direcionado aos trabalhadores para que alcançassem sempre maiores recordes de produção. Os que se distinguiam eram apontados como exemplo a seguir. O. Stakhanov, operário de minas de carvão, foi o primeiro a alcançar alta produção. Daí o nome. - O.K.). As brigadas Stakhanov sempre foram anomalia e desafio aos valores tradicionais.

Os pontos de referência e orientação paternalista sempre tiveram como conseqüência a passividade e boa direção - o mais valioso resultado comum de projetos de russificação. Exatamente eles davam a possibilidade à metrópole moldar novas comunidades não somente na igualdade de identificação, mas também na massa física dos homens - precisamente assim tornou-se possível o fenômeno da "nação soviética", população que se manteve até agora, praticamente em todas as repúblicas da antiga União Soviética.

No entanto, o sucesso social da russificação foi e permanece um dos mais duvidosos e limitados. As razões para isso são muitas – desde a memória social ukrainiana surpreendentemente duradoura (como a dos camponeses, os quais, como argumentam os psicólogos sociais, com intuitiva e subconsciente desconfiança ao governo causada por experiências traumáticas do Holodomor [morte pela fome] e coletivização de suas propriedades, vive e trabalha durante, no mínimo 4 - 5 gerações) para elementar falta de jeito e superficialidade de realizar iniciativas concretas.

Investindo tempo e muito dinheiro no nivelamento das diferenças sociais e étnicas entre as "fraternas” repúblicas soviéticas, a falecida URSS, finalmente colidiu, no final de sua existência com a explosão dos oprimidos àquele “nacionalismo”, e ressurgimento das tradições sociais, as quais ela tentou, sem sucesso, erradicar.

A falha sistêmica da russificação foi a sua não construção. Examinando as conseqüências da russificação na Criméia, que aos olhos da sociedade russa era análoga à civilização de selvagens, o publicista russo Yevgeny Markov com desolada sinceridade declarou: "A questão do benefício da população deve ser resolvido com uma lógica completamente imparcial e sincera... Olhemos o assunto diretamente nos olhos e coloquemos a mão no coração, falemos honestamente, se nós verdadeiramente demos vida melhor ao tártaro da Criméia?"

Russificação cultural: "pobres, porque parvos, parvos porque pobres"

O plano da russificação cultural parece ser o mais visível. No entanto, ele é muito mais amplo e ameaçador que a circular de Valuev que proibia a impressão de livros em língua ucrainiana em 1863 (Rússia czarista) ou o passo acelerado da música pop russa na televisão ukrainiana.

O resultado global da russificação ukrainiana - é inoculação de valores e motivações do novo sistema, especificamente na vida cotidiana. São os hábitos e opiniões sociais que nos falam pela boca das personagens [irônicas] de Skovoroda[1] (1722-1794) e Nechui-Levitskyi[2] (1838-1918): "o chefe sempre tem razão", "não se mostre", "mas, eu preciso disso?" E assim por diante.

A indiferença social e letargia espiritual, na verdade são mais terríveis que os gostos primitivos que acalentam o culto massivo do "Ruskyi mir" (Mundo russo). Neste sentido os efeitos da russificação estão presentes, mesmo nos locais onde ecoa a língua ukrainiana, mas em hospitais e tribunais tratam as pessoas de acordo com seu nível social e espessura de sua carteira.

Outro trauma civilizacional, por assim dizer, causado pela russificação - surgimento em nosso léxico cultural dos termos "província" e "capital". Antes da era russificacional a paisagem cultural do saber não conhecia tal divisão devido a específica homogeneidade européia na Ukraina - tanto as maiores quanto as menores cidades criavam o fundamento econômico e cultural, substrato da vida regional, no qual os centros educacionais e fortes centros comerciais podiam não coincidir necessariamente com a capital administrativa e os domicílios dos poderosos. A reformatação da era imperial trouxe ao país uma nova e coordenada rede, na qual esta homogeneidade rapidamente desapareceu junto com os velhos centros culturais e econômicos (é pouco provável que alguém, hoje, reconheça em Kamianets-Podilskyi, Bila Tserkva, Koropa, ou Novhorod-Siverskyi antigas cidades "estrela"). Os centros de peso foram deslocados, em grande parte para as artificialmente destinadas pelo governo novas células, as quais não foram capazes de autodesenvolvimento, e o esclarecimento das possibilidades e perspectivas passou a ser determinado não com naturais habilidades da região ou localidade mas próprios do império divisões hierárquicas entre o "centro" e "cercanias". Então o provincianismo não era mais de categoria geográfica, antes essência, qualidade.

Imunidade contra russificação

Os modelos de russificação eram e são muito necessários para manter a integridade e a influência do império. Mas, são eles assim tão poderosos e efetivos? O calcanhar de Aquiles da russificação é total indiferença a qualquer identidade em cuja base foram inteiramente colocados os valores dos cidadãos (a primazia dos direitos individuais, o individualismo, a tolerância, o construtivismo social, etc.) Porque até mesmo os cidadãos russificados nem sempre se dão bem com os valores e as condições do "mundo russo", mesmo que sejam russos étnicos. O modelo russificado do sistema social e cultural propõe um país não efetivo, instabilidade material e passividadde social privando a possibilidade da escolha. Esse modelo antinatural do progresso é um obstáculo para um genuíno desenvolvimento não só de Lviv, Kolomeia, ou Lutsk (cidades da Ukraina ocidental que sofreram menos anos de domínio e russificação - O.K.), mas igualmente a Luhansk, Djankoy ou Kherson (cidades na região da Ukraina que sofreram mais anos de domínio e russificação - O.K.).

Russificação e sua nova forma nunca terão chance lá, onde as pessoas preferem ser cidadãos e não vassalos!

Tradução: Oksana Kowaltschuk
Foto formatação: AOliynik


[1] Filósofo, pedagogo, escritor, professor e tradutor ukrainiano - O.K.
[2] Professor lingüista, prosador ukrainiano – OK.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

TRIBUNAL DA INQUISIÇÃO NA UCRANIA CONTINUA

"Julgamento" de Yulia Tymoshenko

A sessão do tribunal, de 29.06.2011 durou apenas 1 (uma) hora.

Por várias vezes o juiz observou a falta de respeito da Tymoshenko em não levantar quando falava.

"- Eu já lhe disse uma vez, que precisa levantar perante o tribunal.”, disse o juíz.
“- O senhor não representa o tribunal. O senhor é uma farsa. E, a julgar pela sua decisão, no sábado, ao ignorar todas as minhas solicitações, ignorando a lei, a Constituição, todos os meus direitos, o senhor não representa a justiça. Portanto, levantar perante o senhor, eu não vou!", disse Tymoshenko.

Em seguida o juiz pediu a Tymoshenko seu passaporte (identidade) e declarar seu sobrenome, nome e patronímico (usa-se nesta ordem. Patronímico é o sobrenome derivado do nome do pai ou de um antecessor - O.K.), data de nascimento e local de moradia.

Tymoshenko se recusou a responder, lembrando que todos esses dados estão escritos em seu passaporte, bem como nos autos do processo. E acrescentou: "Meu sobrenome é igual ao de milhões de pessoas, as que não acreditam nos tribunais ukrainianos corrompidos, dependentes, injustos.

Depois disso foi entregue o relatório da sessão.

Ainda o juiz esclareceu que, por lei, se o réu não recebeu o relatório da sessão, somente o recebendo na sessão posterior, ele terá três dias para se familiarizar com o documento. Como a sessão anterior terminou às 23 horas (gente, das 10 às 23 horas?) no sábado, e o documento só foi entregue na presente sessão, portanto ela está sendo adiada para o dia 04.07.2011.

No entanto, o advogado da Tymoshenko argumentou que, se o último dia do prazo cai no final da semana, como é o caso, então o prazo, pela lei, deveria terminar na terça-feira. "Mas, parece que o juiz está com muita pressa.", concluiu o advogado.

Tradução: Oksana Kowaltschuk

domingo, 3 de julho de 2011

"Freedom House": Ukraina - no beco sem saída - igual ao mundo árabe

A maioria dos antigos países soviéticos têm os mesmos indícios de "vulnerabilidade a crises imprevistas”, tais como as que ocorrem no Oriente Médio e Norte da África.

Aproximadamente 80% da população da ex-União Soviética vive sob o domínio autoritário em países que são potencialmente perigosos para essas nações em um futuro próximo.

O relatório diz que na Ukraina, exemplo na região com reformas anteriores "realizou-se a diminuição de indicadores democráticos em cinco de oito parâmetros investigados". "Freedom House" também constata, na Ukraina, tendências autoritárias e ausência no aperfeiçoamento da democracia, como é constatado também em outros países pós-soviéticos, e países do Oriente Médio e Norte da África.

Os autores do documento "Nações na Estrada" enfatizam que o colapso das reformas na Ukraina acontece sob a liderança do presidente Viktor Yanukovych.

"No relatório, que abrangeu 29 países notamos, em especial, a erosão continua da democracia nos países da ex-União Soviética, exceto os países bálticos" - disse Freedom House.

"O estudo descobriu que os líderes, as autoridades, na maioria desses Estados autoritários não só permanecem no comando, como não realizam iniciativas sérias para reformas democráticas. Eu penso que algo semelhante nós vimos nos países do Oriente Médio e Norte da África" - disse Walker.

Tradução: Oksana Kowaltschuk

sábado, 2 de julho de 2011

Piora a situação dos direitos humanos na Ukraina - "Anistia Internacional"

Assim foi considerado nosso país em seu último relatório, pela organização "Anistia Internacional".

Foi constatado aumento de torturas e tratamento desumano nos serviços estruturais de poder, restrições à liberdade de expressão e de reunião, e grandes manifestações de xenofobia.

Em geral, "Anistia Internacional" fixa os limites da liberdade de expressão durante o último ano em 89 países, a tortura - em 98, julgamento injusto - em 54 países.

Ukraina está em cada uma dessas listas, anunciou na apresentação do relatório em Kyiv, a representante da "Anistia Internacional" Tatyana Mazur.

"É a primeira vez que Ukraina está mencionada no comunicado da imprensa. Nossos observadores e voluntários distinguem a deterioração dos direitos humanos fundamentais. Durante o ano passado aumentou o número de relatos de tortura em centros de detenção na polícia" - disse ela, e lembrou os fatos mais comentados como o espancamento na prisão de Vinnytsia, o caso do Andrii Bondarenko que foi encaminhado pelo tribunal três vezes para exame psiquiátrico e do refugiado de Abkhazia Tamaz Kardava que morreu depois de espancamentos, e pelo fato de que na prisão não lhe foi dada a assistência médica adequada.

Tradução: Oksana Kowaltschuk

sexta-feira, 1 de julho de 2011

RESGATANDO A VERDADE HISTÓRICA NA UCRÂNIA - II

Fuzilamentos de prisioneiros em junho-julho de 1941. Como isto aconteceu.

Ukrainska Pravda
- Istorychna Pravda (1)
- Ihor Derevianyi (2)

Assim não fizeram nem os poloneses em 1939, nem os nazistas em 1944.

A milícia da União Soviética fuzilava em massa - com armas automáticas, pelas janelinhas destinadas ao fornecimento de alimentos. Ou lançava granadas para as câmeras. Algumas dessas câmeras foi preciso emparedar para evitar propagação de doenças - e exumar os restos mortais somente com a chegada do inverno.

Junho de 1941 é lembrado na Ukraina Ocidental não somente com o ataque da Alemanha nazista, também com massacres sanguinários, cometidos por supostamente seu governo, na retaguarda.

Trata-se de, até para hoje, fenômeno inédito, mesmo na prática do Comissariado do Povo dos Assuntos Internos (NKVD) da União Soviética - execuções em massa de presos políticos nas prisões da Ukraina Ocidental no final de junho - início de julho de 1941.

A "Verdade Histórica" fornece exemplos de três justiçamentos desse tipo: nas prisões de Lviv, nas minas de sal em Salina e na prisão de Lutsk. O texto de hoje é dedicado a assassinatos em massa em Lviv.

Primeira página da relação dos fuzilados na prisão Nº 3 em Zolochev. São nítidas as observações no documento - determinação da sentença pelo chefe da investigação do setor do UNKGB (Comitê Popular Ukrainiano da KGB) na Província de Lviv, Shumakov, e imposição de sanções para execução da sentença pelo procurador da Província de Lviv, Kharytonov. Duas pessoas decidiram o destino de milhares... Arquivo do Centro de Pesquisa do Movimento de Libertação TSDVR.

No exemplo de Lviv pode-se mostrar com exatidão o trabalho secreto dos "valorosos combatentes da contrarrevolução".

Em Lviv havia três prisões: Nº 1 - Lontskoho, Nº 2 - Zamarstynivska e N° 4 - Brygidky. A prisão Nº 3 ficava no Castelo Zolochev, a 70km de Lviv - para cá eram mandados os presos quando as prisões de Lviv estavam superlotadas (e eram superlotadas: a prisão na Lontskoho, com limite até 1500 pessoas chegou a comportar 3638 presos).


Lado esquerdo do documento anterior. A inscrição em vermelho, feita pela mão do investigador Shumakov: "Instrução para fuzilar os inimigos da nação". E sobrenomes - Barenleym, Didukh, Krachkovskyi, Tsverling, Bonder, Mazurchak, Kotyk...

Nas prisões de Lviv em 22 de junho de 1941 havia 5424 prisioneiros. A maioria era acusada de crimes nos termos do artigo 54 do Código Penal da URSS, isto é - atividades contra-revolucionárias.

Pelo "Processo 59", em dezembro de 1940, em Lviv condenavam as pessoas porque elas eram - ukrainianas.

As medidas oficiais imediatas para solucionar o problema da superlotação vieram sob a ordem Nº 2445/M, do Comissário de Segurança do Estado, Merkulova, de 23.06.1941, e a ordem do chefe da Administração de Prisões da NKVD URSS, capitão da Segurança do Estado, Filippov, em 23.o6.1941.


Parte do lado direito do documento anterior. A anotação com tinta preta - autorização para morte - escrito com a mão do procurador da Província de Lviv, Kharytynov: "Fuzilar como inimigos da nação, sanciono".

No primeiro documento verificava-se o tempo limite de todos os prisioneiros, e a distribuição daqueles que estavam sujeitos à deportação para os campos de concentração do Gulag, e aqueles que necessariamente era preciso fuzilar (Dessa tarefa incumbia-se a NKGB). Para evacuação alocaram-se 204 vagões.

De acordo com a instrução da NKVD URSS, de 29 de dezembro de 1939, um vagão deveria conter trinta deportados, então os vagões indicados seriam suficientes para evacuar 6900 prisioneiros. No entanto evacuaram apenas 1822 dos 5000 planejados.


Petro V. Stashynskyi (1904 - 1941) nascido na aldeia Borshchovychi, na Província de Lviv. Aprisionado em 09.10.1940.  Membro do "Prosvita" (pela educação), organização "Força" e OUN (Organização dos Nacionalistas Ukrainianos). Acusado nos termos do Artigo 54pm. 6,11 do Código Penal. Fuzilado na prisão Nº 1 da cidade de Lviv, à rua Lontskoho (Hoje esta rua denomina-se Stepan Bandera, ficando a prisão com o nome Lonstkoho. - O.K.) em 26.06.1941.
A foto é anterior aos anos da guerra, na Praça do Mercado em Lviv. TSDVR (Arquivo do Centro de Pesquisa do Movimento de Libertação).


3602 permaneceram nas prisões de Lviv. E o que aconteceu com os comboios - os documentos não falam.

As execuções começaram em 22.06.1941 - foram fuzilados os condenados à morte. Do relatório intercalar do chefe da prisão UNKVD da Província de Lviv, Lerman, sabe-se que a partir de 24 de junho, nas prisões de Lviv e Zolochev foram fuzilados 2072 presos.

Em 26 de junho confirmaram as relações dos fuzilados - ainda 2068 pessoas foram submetidas à destruição. Elas foram mortas em 24-28 de junho.


Cadáveres dos prisioneiros fuzilados na prisão Lontskoho, Lviv, 1º de julho de 1941. Algumas câmeras os alemães precisaram emparedar para esquivar-se de epidemias. Segunda exumação realizaram em fevereiro de 1942, quando vieram fortes geadas. Arquivo TSDVR.

Desta forma na Província de Lviv foram fuzilados 4140 prisioneiros. No entanto os cálculos não fecham: ficaram nas prisões 3602 pessoas mas fuzilaram mais.

A resposta para esta pergunta fornecem os relatórios de Lerman: aqui havia também a chegada de novos prisioneiros. Os documentos da prisão sobre estas pessoas não formalizavam-se adequadamente.

Na maioria dos casos não relatavam nem os motivos das acusações, mas seguramente, os classificavam como partícipes da OUN, espiões, diversionistas - ou seja, pessoas que deviam ser fuziladas.





Exumação de prisioneiros
  
Processo de exumação de prisioneiros fuzilados. 03.07.1941 na cidade de Lviv. Para realização destes trabalhos, os alemães obrigavam os judeus de Lviv. Arquivo TSDVR.

Este é apenas um fragmento da trágica estatística, compreensão dividida por Stalin. A imagem verdadeira revela-se quando olhamos o mapa inteiro da Ukraina Ocidental - quase 24 mil assassinados.

Inicialmente aplicavam a prática usual da NKVD: individualmente, em câmeras especiais, o tiro na nuca. Com a aproximação da frente da batalha, mas os planos ainda não foram executados - fuzilavam em massa: levavam os prisioneiros para as câmeras no porão e através da porta para passagem do alimento disparavam com armas automáticas.

A janelinha abria - o prisioneiro, ao invés da comida para sustentáculo de sua vida, via o meio da destruição... último objeto que via na vida.



Os habitantes de Lviv procuram entre os fuzilados seus parentes no pátio da prisão Nº 1 da cidade de Lviv, 03.07.1941. Arquivo TSDVR.

E nos últimos dias - lançavam granadas dentro das câmeras. Ou abriam a porta da cela. Os prisioneiros saíam para o corredor, pensando que seriam libertados, mas neste momento eram fuzilados com armas automáticas.

Os corpos eram levados por caminhões e enterrados em lugares especiais, os quais agora, gradualmente são descobertos pelos arqueólogos.

Na região do Pré Cárpatos recentemente abriram uma sepultura comum. Parece que são vítimas de 1941.

No entanto, antes da chegada dos alemães os chekistas, apressadamente enterravam os assassinados nos quintais e no subsolo. Mais tarde as escavações dessa hecatombe tornaram-se material de propaganda nazista - certamente não por razões humanitárias.

Houve também a destruição dos prisioneiros evacuados para as províncias centrais e orientais da Ukraina - nas prisões de migrantes de Uman, Kyiv e Kharkiv. Estas cidades eram chamadas de pontos intermediários onde havia a mistura de presos para evitar rebeliões e êxodo em massa durante a deportação.



Propaganda nazista dos fuzilados em prisões - principalmente ukrainianos, poloneses (que aqui viviam devido ao anterior domínio) e judeus - chamando-os "folksdoychamy". Inscrição do correspondente alemão Hubner na foto das conseqüências de execução de prisioneiros em Massa. Arquivo TSDVR.
(O texto em alemão, segundo tradução livre de uma amiga, fala sobre o reencontro com cenas macabras. Os familiares dos massacrados, os quais foram retirados de covas comuns, tentam identificar seus parentes. Eles tampam o nariz diante do forte odor, devido ao estado adiantado de putrefação. Polônia 1939. Nos países ocupados pelos alemães foi anunciado que os russos queriam eliminar o inimigo político, nestas pessoas. - O.K.)

Separadamente merece recordação a tragédia Zalishchytska em Ternopil, quando uma ponte ferroviária sobre o rio Dniester, por raciocínio tático foi destruída, justamente quando dos dois lados vieram comboios com 7 vagões cada. Cada um dos 14 vagões tinha entre 50 e 70 prisioneiros.

NKVD resolveu o problema rapidamente: os vagões foram banhados com produto incendiário e jogados no rio. As margens do Dniester neste local são muito altas e íngremes - ninguém sobreviveu.

Claro, a propaganda soviética "pendurou" todos esses crimes nos nazistas (como também os fuzilamentos dos prisioneiros de guerra poloneses) e, infelizmente, esses mitos andam como fantasmas, mesmo nos dias de hoje.


Surpresa e horror no rosto da moça de Lviv que acabou de entrar no pátio da prisão. 03.07.1941, Lviv. Arquivo TSDVR.

A sociedade ocidental vivenciou o choque do que viu. Afinal, coisa semelhante Polônia não fez no início da II Grande Guerra em 1939 (quando abriram as prisões e libertaram todos os prisioneiros políticos, até avisaram: movam-se para o leste, porque na linha de frente os ex-prisioneiros podem ser fuzilados.

Mais tarde, em 1944 atos assim não praticaram os nazistas (a administração deixou os prisioneiros de campos de concentração vivos antes da chegada dos Aliados). E, este ato terrível, na própria incongruência do assassinato em massa dos presos, tornou-se um dos principais fatores do enraizamento da posição antissoviética da então geração e gerações futuras.

Todos os anos a comunidade de Lviv vem às prisões para lembrar os mortos, e a antiga prisão Nº 1 - Prisão Lontskoho agora é Museu Memorial de todas as vítimas de regimes de ocupação.


(1) Verdade ukrainiana - Verdade histórica
(2) Ihor Derevianyi é historiador e colaborador científico do Museu de Memória Nacional das vítimas de regime de ocupação "Prisão na Lontskoho"

Tradução: Oksana Kowaltschuk
Fotos dos arquivos de TSDVR
Fotoformação: AOliynik