segunda-feira, 21 de agosto de 2017

UCRÂNIA COLOCA LÊNIN NO LIXO

Estátuas de Lênin vão parar em lixões e depósitos
Por Luis Dufaur

O fotógrafo suíço Niels Ackermann palmeou a Ucrânia durante três anos juntamente com o jornalista francês Sébastien Gobert de “Libération”.
Eles foram registrar que fim tiveram as inumeráveis estátuas de Lenine hoje desaparecidas dos locais públicos.

A cabeça do monumento Dinipropetrovsk foi doada ao Museu Histórico Nacional, mas acabou posta de lado.

Sabia-se que elas haviam sido derrubadas durante o reerguimento do povo ucraniano contra o domínio russo representado pelo regime de Yanukovych (2010-2014).
Mas essa atitude em face das estátuas do tirano acentuou-se ainda mais após aplicação da lei de “desovietização”, de maio de 2015.
Pareceu uma viagem aos porões artísticos do inferno. Os resultados ficaram compilados no álbum “Procurando Lenine” (Looking for Lenin, ed. Noir sur Blanc, Montricher, Suíça, 2017, 176 p.).
Mas o álbum acabou mexendo em algo que ia além do registro fotográfico.
Ele permitiu narrar de modo diferente a história recente da Ucrânia, as relações de força ditatorial contra o povo, as decepções dos iludidos com o comunismo e as nostalgias da era soviética que ainda subsistem como fantasmas de uma casa assombrada.
O fotógrafo ficou pasmo ao constatar que cada ucraniano tem alguma coisa a contar sobre Lenine e a ação comunista com que ele tentou esmagar o país, massacrando milhões, expropriando as propriedades particulares, fechando a Igreja Católica e tentando fazer desaparecer por completo a alma, a cultura e a identidade nacional ucraniana.
Mães de família, professores, policiais, políticos, operários, camponeses, todos têm uma história de dor para contar, até o momento em que não mais havia na sua aldeia uma estátua do assassino de massa russo.

Os ucranianos deixaram bem claro o que pensavam da emblemática estátua do ditador em Kiev
Niels conta que as derrubadas de imagens de Lenine começaram antes mesmo da queda de Yanukovich. Uma delas chegou a ser jogada por terra na Ucrânia ocidental antes da extinção da URSS.
A primeira onda de desmantelamentos do odiado líder comunista se deu na década de 1990.
Após a Declaração de Independência da Ucrânia – em 24 de agosto de 1991, a qual foi ratificada em plebiscito por 90% da população –, em quatro ou cinco anos foi suprimida a metade das 5.500 estátuas que a URSS havia espalhado por tudo quanto é canto.
Em 8 de dezembro de 2013 começou em Kiev a leninopad [“queda dos Lenines”], quando uma estátua principal do tirano comunista, no centro da capital, foi desatarraxada e estraçalhada, caracterizando o início da revolução libertadora.
O povo se jogou encima dela e a estilhaçou com golpes de marreta, picas e paus, com uma ferocidade que fez lembrar os alemães derrubando o Muro de Berlim.
Não era uma revanche contra o homem Lenine, mas contra o regime que ele fundou e a estátua encarnou, contra o passado soviético e a política atual de Putin, explicou o fotógrafo.
Um site anunciava uma a uma as localidades em que “os Lenines” iam sendo arrancados, e a onda crescia em velocidade.
Das aldeias e regiões rurais até as grandes cidades, todos corriam para se livrarem daqueles demônios de pedra ou aço, enquanto as forças policiais mudavam de posição e acompanhavam o movimento patriótico.
A terceira fase foi a da descomunistização oficial, iniciada em maio de 2015. Além dos “Lenines”, todos os símbolos comunistasnomes de cidades e de ruas, estátuas de outros líderes comunistas – foram sendo suprimidos e, sempre que possível, recuperados os antigos nomes.


Pichada e abandonada em Slovyansk
O mapa dos “Lenines” execrados recobre todo o território ucraniano.
Um jovem de Kharkiv, segunda maior cidade do país, descreve o que sentiam inúmeros corações: “Eu me tornei homem naquela tarde, fazendo cair a Lenine”.
Nas cidades do Leste, os separatistas pagos por Moscou ainda se reúnem ao pé de sua estátua.
Para os habitantes de Kharkiv, derrubar o símbolo do mal foi uma questão de guerra ou de paz. Para os jovens, foi como arrancar as próprias raízes do mal, destruindo seu insolente monumento como condição para uma ordem pacífica.
Os restos das estátuas – recobertos de grafites, com as cores ucranianas e increpações a Putin, com quem eles são identificados – acabaram em barracões, lixões públicos, galpões abandonados, ou com algum nostálgico marxista.
No momento da revolução libertadora, os ucranianos se regozijaram liquidando o símbolo de todos os horrores, a encarnação da política estrangeira putinista.
Hoje é lixo, e o álbum retrata isso.

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