segunda-feira, 22 de junho de 2026

VOLODYMYR ZELENSKY x KAROL NAWROCKI

 ⚠️  Zelensky devolve a mais alta condecoração da Polónia por correio convencional

Zelensky devolve medalha à Polônia após Kyiv homenagear batalhão ucraniano que massacrou poloneses na Segunda Guerra; entenda — Foto: Reprodução: AFP e X

Zelensky e outros oito altos responsáveis ucranianos, incluindo três ex-presidentes, ministros e diplomatas, devolvem as suas condecorações polacas

Uma das mais extraordinárias disputas diplomáticas entre Kyiv e Varsóvia desde o início da invasão em grande escala da Rússia eclodiu em torno da História.

Apenas dez meses após assumir funções, o presidente polaco Karol Nawrocki revogou a Ordem da Águia Branca — a mais alta distinção da Polónia — ao presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.

Nawrocki justificou a decisão citando o decreto de Zelensky que homenageou uma unidade militar ucraniana que ostenta o nome dos Heróis da UPA. Para a Polónia, o legado do Exército Insurgente Ucraniano continua profundamente controverso devido aos massacres de civis polacos em Volínia durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas a decisão desencadeou uma reação sem precedentes por parte da Ucrânia.

Quando o presidente Volodymyr Zelensky devolveu a Ordem da Águia Branca, num gesto de inequívoco sarcasmo ucraniano, teria enviado a condecoração através da Nova Poshta em vez dos canais diplomáticos. Para milhões de ucranianos, a Nova Poshta é muito mais do que uma empresa privada de entregas. É um símbolo de eficiência e resiliência, ao ponto de muitos ucranianos residentes na Polónia brincarem dizendo que a Nova Poshta funciona melhor na Polónia do que os próprios correios polacos. 

A mensagem era impossível de ignorar.

E ele não estava sozinho.

Até ao momento, o Presidente da Ucrânia e outros oito altos responsáveis ucranianos devolveram as suas condecorações polacas, e outros poderão seguir o mesmo caminho.

Numa extraordinária demonstração de unidade, a lista inclui atualmente:

* O ex-presidente Leonid Kuchma — Ordem da Águia Branca.

* O ex-presidente Viktor Yushchenko — Ordem da Águia Branca.

* O ex-presidente Petro Poroshenko — Ordem da Águia Branca.

* O ministro dos Negócios Estrangeiros Andrii Sybiha — Cruz de Comandante com Estrela da Ordem do Mérito da República da Polónia.

* O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Borys Tarasyuk — Grande Cruz da Ordem do Mérito da República da Polónia.

* O chefe da inteligência militar Kyrylo Budanov — Cruz Dourada de Oficial da Ordem do Mérito da República da Polónia.

* O vice-chefe do Gabinete Presidencial Ihor Zhovkva — Cruz de Cavaleiro da Ordem do Mérito da República da Polónia.

* O embaixador da Ucrânia na Polónia, Vasyl Bodnar — Cruz de Cavaleiro da Ordem do Mérito da República da Polónia.

O presidente Nawrocki, historiador e antigo diretor do Instituto da Memória Nacional da Polónia, declarou que homenagear formações associadas à UPA era incompatível com a manutenção da mais alta distinção polaca.

Mas a controvérsia levanta questões desconfortáveis.

Desde quando um país soberano decide que figuras históricas, unidades militares, organizações ou ruas outro país soberano pode homenagear?

E desde quando uma divergência sobre a memória histórica justifica retirar a mais elevada distinção estatal ao presidente de uma nação vizinha que luta pela sua própria sobrevivência?

A Ucrânia e a Polónia desfrutam provavelmente das relações mais próximas das suas histórias modernas desde o início da invasão em grande escala da Rússia. Milhões de ucranianos encontraram refúgio na Polónia. A Polónia tornou-se um dos mais fortes apoiantes de Kyiv, política, económica e militarmente. O inimigo comum sempre foi claro: a Rússia.

A História importa.

A memória importa.

As vítimas da Volínia merecem memória e respeito.

Mas muitos observadores questionam se abrir um conflito diplomático público sobre disputas históricas, enquanto os ucranianos continuam a morrer todos os dias sob mísseis e drones russos, serve realmente os interesses de qualquer uma das duas nações.

Os meios de propaganda russos não perderam tempo a celebrar a controvérsia. Propagandistas e comentadores russos apresentaram imediatamente o caso como prova de que a unidade entre a Polónia e a Ucrânia está a desmoronar-se. Imagens e manchetes a ridicularizar a disputa espalharam-se rapidamente pelo espaço mediático russo, transformando a controvérsia numa vitória propagandística para Moscovo.

Vários responsáveis ucranianos descreveram o episódio como um presente para Moscovo. Até o primeiro-ministro polaco Donald Tusk advertiu que a Rússia seria a principal beneficiária das tensões entre Varsóvia e Kyiv.

Talvez essa seja a questão mais inquietante de todas.

Porque, enquanto polacos e ucranianos discutem sobre o passado, a Rússia celebra o presente.

E quando o seu adversário abre champanhe por causa das suas querelas, talvez valha a pena perguntar se a batalha que está a ser travada é realmente a certa.

A História deve ser lembrada.

Mas nunca deveria transformar-se numa arma que ajuda aqueles que procuram destruir o futuro.


#amigosdaucrania

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