terça-feira, 8 de março de 2011

TERROR E FOME NA UCRÂNIA

por Thomas E. Woods, Jr.

Resumo: O genocídio cometido pelo regime comunista soviético na Ucrânia foi uma das maiores tragédias do século XX, e permanece ignorado.

© 2004 MidiaSemMascara.org

Como acontece com todos os regimes totalitários, também o da Rússia bolchevique via com apreensão qualquer expressão de sentimento nacionalista que surgisse em meio aos povos sob seu jugo. A propaganda bolchevique sobre os direitos das várias nacionalidades dentro da órbita da Rússia mascarava o medo do regime diante do poder do nacionalismo.

Em 1918, o líder russo Vladimir Ilich Lenin tentou impor um governo soviético ao povo da Ucrânia, país que havia declarado sua independência apenas um mês antes. Durante o breve período em que durou, este governo tentou acabar com as instituições educacionais e sociais da Ucrânia. Desta época, há até relatos sobre uma precursora da KGB, a Cheka (Comissão Extraordinária Para a Luta Contra-Revolucionária), cujos agentes matavam pessoas pelo crime de falarem ucraniano na rua.

No final daquele mesmo ano, os ucranianos acabaram re-estabelecendo a república. A vitória, no entanto, durou pouco. É certo que, de uma forma ou de outra, Lenin acabaria por querer incorporar a Ucrânia à União Soviética. Garantir o controle daquele território, no entanto, era particularmente importante para Lenin devido aos seus grandes recursos naturais. A Ucrânia possui um dos solos mais férteis da Europa, o que lhe valeu o apelido de "cesta de pães da Europa".

No início de 1919, um novo governo soviético já tinha sido estabelecido na Ucrânia, mas novamente falhou. Esses acontecimentos coincidiram com a Guerra Civil Russa e o apoio de facções rivais contribuiu para que a Ucrânia, pela segunda vez, recuperasse sua independência.

O regime de Lenin aprendeu uma valiosa lição com esses dois fracassos. Segundo Robert Conquest, "chegou-se à conclusão de que a nacionalidade e a língua ucranianas eram dois fatores de suma importância; e um regime que ignorasse isso ostensivamente estava fadado a ser visto pela população como uma mera imposição". Quando os soviéticos conquistaram o controle da Ucrânia pela terceira e derradeira vez em 1920, perceberam que, a menos que fizessem grandes concessões quanto à autonomia cultural ucraniana, seria impossível evitar as constantes insurreições. Durante uma década, então, os ucranianos - com sua cultura e sua língua - foram deixados em paz. Entre os comunistas russos, entretanto, sempre existiu aquela facção que via no nacionalismo ucraniano uma fonte intolerável de desunião dentro das fileiras soviéticas e que achava que, mais cedo ou mais tarde, a situação teria de ser enfrentada de algum modo.

Oito anos mais tarde, em 1928, quando Joseph Stalin já estava no poder, a União Soviética optou por uma política de "requisição de grãos" em grande escala (a expressão era uma maneira eufemística de dizer que se planejava tomar a produção dos camponeses à força). Devido à falta de informação e à sua característica ignorância com relação aos princípios que regem o funcionamento do mercado, as lideranças soviéticas estavam convencidas de que o país estava no meio de uma crise de grãos. Pode-se dizer, grosso modo, que as requisições funcionaram, na medida em que garantiram ao governo os grãos supostamente necessários. Mas, elas abalaram definitivamente a confiança dos camponeses no regime. A partir de então, o fantasma da possível volta das requisições – uma prática que havia sido encarada como uma versão aberrante dos confiscos de grãos empreendidos por Lenin na época da Guerra Civil Russa – assombraria para sempre os camponeses. Naturalmente, eles se sentiam agora muito menos incentivados a produzir, pois sabiam muito bem que os frutos de seu árduo trabalho podiam ser facilmente confiscados por um regime sem lei, o mesmo que confiscara, em 1928, os próprios grãos cuja liberdade de produção e venda havia prometido aos camponeses.

Uma vez que a abolição da propriedade privada constituía um aspecto importante do programa marxista, era apenas uma questão de tempo até que o regime decidisse embarcar em uma jornada de coletivização das fazendas. Os camponeses seriam então amontoados em enormes fazendas estatais, as quais não apenas satisfariam as exigências da ideologia marxista, como também resolveriam o problema prático do abastecimento de grãos nas cidades, onde o proletariado soviético trabalhava arduamente na realização de uma rápida industrialização. Fazendas estatais significavam grãos estatais.

Alguns especialistas tentaram avisar Stalin de que suas metas, por demais ambiciosas tanto para a indústria como para a agricultura, eram ridiculamente incompatíveis com a realidade. Um de seus economistas então simplesmente explicou: "Nossa tarefa não é estudar economia, mas mudar a economia. Não estamos submetidos a nenhuma lei. Não há fortalezas contra as quais os bolcheviques não possam investir".

Juntamente com a política de coletivização, Stalin conduziu uma campanha brutal contra os latifundiários, ou kulaks, cuja resitência à coletivização já era esperada. A idéia de que apenas aqueles indivíduos definidos como kulaks se oporiam à coletivização era uma fantasia de Stalin; toda a população do campo estava unida nessa oposição. Até o Pravda divulgou um incidente envolvendo mulheres ucranianas que tentaram bloquear a passagem de tratores que chegavam ao campo para serem usados em fazendas coletivizadas. As mulheres gritavam: "O governo soviético está trazendo de volta a escravidão!"

Stalin constantemente falava de sua política de "extinção dos kulaks como classe social" Eles eram os inimigos públicos do campo. De fato, com o passar do tempo, a definição de kulak foi-se tornando tão elástica que o conceito – assim como as terríveis punições impostas àqueles que nele se encaixavam – podia ser aplicado a praticamente qualquer camponês.

Segundo um livro oficial de história do Partido Comunista, "os camponeses expulsavam os kulaks de sua terra, 'deskulakizavam-nos', levavam seus animais de criação e os encaminhavam às autoridades soviéticas para que fossem presos e deportados". Como descrição do terror empreendido contra os kulaks, esse relato não serve nem como piada de mau gosto, uma vez que era o governo que dirigia as perseguições. Ao fim, de acordo com uma testemunha ocular, para que um homem estivesse condenado, bastava que "tivesse contratado pessoas para trabalhar para ele como assalariadas ou [que tivesse] sido dono de três ou quatro vacas".

Em 1929, cerca de 20 milhões de propriedades familiares podiam ser encontradas nas áreas rurais da Rússia. Cinco anos depois, todas elas estavam concentradas em 240 mil fazendas coletivas. Ao longo da história da União Soviética, contudo, não são poucos os casos em que se permitiu a certas pessoas possuirem alguns acres de terra para uso particular. E quando Mikhail Gorbachev subiu ao poder em 1985, as propriedades particulares, que totalizavam 2% das terras soviéticas, eram responsáveis por 30% da produção de grãos no país – uma verdadeira humilhação para aqueles que vociferaram que a agricultura socialista tornar-se-ia mais eficiente que a capitalista, ou que poderiam mudar a natureza humana ou reescrever as leis da economia.

Na mesma época em que deu início à coletivização forçada, Stalin também ressuscitou a campanha anti-nacionalista contra a cultura ucraniana, suspensa desde 1920. Foi na Ucrânia que a política de coletivização de Stalin encontrou a mais forte resistência, muito embora o processo, mesmo lá, já estivesse praticamente concluído em 1932. Não obstante, Stalin considerava a persistência do sentimento nacionalista ucraniano uma ameaça permanente ao regime soviético, o que o levou à decisão de resolver, de uma vez por todas, o que via como o problema da lealdade na Ucrânia.

O primeiro estágio desta política de Stalin na Ucrânia dirigiu-se aos intelectuais e às pessoas ligadas à cultura, milhares das quais foram presas e receberam simulacros de julgamento. Cumprido o objetivo de privar o povo ucraniano daqueles que seriam os líderes naturais de futuros movimentos de resistência, Stalin se voltou para o próprio campesinato, que era o verdadeiro portador das tradições ucranianas.

Apesar do adiantado estágio em que se encontrava o processo de coletivização na Ucrânia, Stalin declarou que a guerra contra os perversos kulaks ainda não estava acabada – eles tinham sido "derrotados, mas não exterminados". Para supostamente combater os kulaks, Stalin agora começaria uma guerra contra os poucos fazendeiros independentes que ainda existiam e dentro das próprias fazendas coletivas. A esta altura, qualquer indivíduo que, por qualquer motivo, pudesse ser classificado como kulak já tinha há muito sido afugentado, assassinado ou enviado a campos de concentração. A estratégia da campanha seria, portanto, aterrorizar os camponeses comuns. Eles deveriam ser destruídos, física e espiritualmente, e sua identidade como povo lhes seria sugada à força.

Stalin começou a estabelecer metas de produção de grãos impossíveis de serem cumpridas sem que os próprios camponeses morressem de fome. O não-cumprimento dessas metas era considerado sabotagem deliberada e, por fim, Stalin acabou por autorizar o confisco da produção para que se cumprissem as metas. Um historiador conta a história de uma mulher que foi presa com um de seus filhos por ter tentado colher um pouco de seu próprio trigo. Após ter conseguido fugir da prisão, a mulher juntou umas coisas e fugiu para a floresta, onde viveu com seu filho por um mês e meio. As pessoas eram condenadas a dez anos de prisão por colherem batatas ou até por arrancarem espigas de milho nos pequenos sítios que o governo lhes permitia possuir.

Os militantes comunistas - alegando que os sabotadores estavam por toda parte, negando-se a fornecer alimentos às cidades e desafiando as ordens de Stalin - faziam buscas em propriedades privadas. Os mais gentis deixavam uma quantidade módica de alimento para as famílias e os mais cruéis levavam tudo.

O resultado era bastante previsível: as pessoas começaram a morrer de fome, em contingentes cada vez maiores, ao ponto de que o camponês que não aparentasse estar morrendo de fome era considerado suspeito pelos soviéticos. Conta um historiador que "um militante, ao fazer uma busca na casa de um camponês cujo corpo não tinha ficado inchado, finalmente encontrou um saco que continha farinha misturada com cascas esfareladas e folhas, jogando-o então no açude do vilarejo".

Conquest cita o depoimento de um militante:

"Eu ouvia as crianças... engasgando, tossindo aos gritos. Era aterrorizante ver e ouvir tudo isso. Pior ainda era tomar parte nisso... Eu explicava a mim mesmo e me persuadia de que não devia me deixar enfraquecer e me entregar à compaixão... Estávamos cumprindo nosso dever revolucionário. Nós estávamos recolhendo grãos para a pátria socialista...
Nossa grande meta era o triunfo universal do Comunismo e, para atingir essa meta, tudo era permitido – mentir, enganar, roubar, matar milhares e até milhões de pessoas...
Era assim que eu raciocinava, eu e todos os meus colegas, mesmo depois... de descobrir o que realmente significava a 'coletivização total' – como eles 'kulakizavam' e 'deskulakizavam', como eles despiam impiedosamente os camponeses durante o inverno de 1932-33. Eu mesmo participei, rastreando o campo, procurando por grãos escondidos... Junto com os outros, eu esvaziei armazéns de camponeses idosos, tampando meus ouvidos ao choro das crianças e às lamentações das mães, pois eu estava convencido de que estava realizando a grande e inevitável transformação do campo; de que no futuro as pessoas que viviam ali estariam em melhores condições por causa disso...
Naquela terrível primavera de 1933, eu vi pessoas morrendo de fome. Eu vi mulheres e crianças de barriga inchada, ficando azuis, respirando ainda, mas com os olhos vagos, sem vida... Eu [não] perdi minha fé. Como sempre, eu acreditava porque queria acreditar."

Em 1933, Stalin emitiu uma nova ordem de busca, cuja execução começou em março daquele ano em uma Ucrânia devastada pela fome. Pouparei o leitor de descrições gráficas do que aconteceu então. Direi apenas que havia cadáveres por toda parte e o fedor da morte era tão intenso que deixava o ar pesado. Vários casos de loucura e até canibalismo foram documentados. Cada família de camponeses reagia de modo diferente à lenta morte por inanição:

"Dentro de uma choupana qualquer, a situação era de guerra. Todos se vigiavam atentamente e brigavam por migalhas de pão; a esposa havia-se tornado inimiga do marido e vice-versa; a mãe odiava os filhos. Em outra choupana, o amor era sagrado. Eu conheci uma mulher que tinha quatro filhos. Ela contava lendas e contos de fadas às crianças, para que elas esquecessem que estavam famintas. Mal conseguia mover sua língua, mas encontrava forças para tomar seus filhos nos braços, mesmo que mal conseguisse levantá-los quando não havia ninguém entre eles. O amor sobrevivia dentro dela. As pessoas então começaram a perceber que onde havia ódio os cadáveres se multiplicavam mais rapidamente. Mesmo assim, o amor não salvou ninguém da morte. Todo o vilarejo pereceu. Toda a vida se extinguiu."

O número de ucranianos mortos na fome de 1932-33 foi de aproximadamente 5 milhões. Mas, segundo Conquest, se forem computadas outras catástrofes ocorridas entre 1930 e 1937, incluindo-se as inumeráveis deportações de supostos "kulaks", atinge-se a estarrecedora cifra de 14,5 milhões. Mesmo assim, seria um pequeno milagre se 1% dos alunos que cursam a minha disciplina a cada ano tivesse sequer ouvido falar desses acontecimentos.

Já me referi várias vezes aqui ao historiador Robert Conquest, um excelente estudioso da história da União Soviética, e gostaria de pedir encarecidamente a todos que se interessem por esses acontecimentos que leiam seu extraordinário livro The Harvest of Sorrow (A Colheita Maldita). Parece um romance, mas a história que ele conta é bem real.

Depois de todas as acusações contra "A Paixão de Cristo", Peggy Noonan perguntou a Mel Gibson, sem cerimônia: "O Holocausto aconteceu, certo?"
Gibson, estarrecido, surpreso com o fato de que alguém precisasse recorrer a ele para confirmar a veracidade de fatos históricos, respondeu que sim, claro que aconteceu. Acrescentou ainda que o século XX está repleto de atrocidades e nenhuma delas deveria ser esquecida. Mencionou então a tragédia na Ucrânia, onde o regime de Joseph Stalin matou de fome 7 milhões de pessoas, deliberadamente.

Obviamente, a resposta serviu apenas para reafirmar a perversidade de Gibson na cabeça daqueles que já o desprezavam. Como, por exemplo, Abe Foxman, presidente da Anti-Defamation League (Liga Anti-Difamação), que disse ter ficado chocado e desgostoso com as observações do diretor. Segundo Foxman, "ele não entende nem de longe a diferença entre se morrer de fome e pessoas sendo cremadas pelo simples fato de serem o que são". Então foi isso que aconteceu na Ucrânia – as pessoas simplesmente "morreram de fome".

(Publicado originalmente por lewrockwell.com)
Tradução: Evandro Ferreira - evandroferreira.outonos.com.

Este artigo foi publicado pela primeira vez em 11 de maio de 2004 (O Cossaco).

sexta-feira, 4 de março de 2011

O HOLOCAUSTO "ESQUECIDO"

O relato abaixo é a transcrição “ipsis literes” do texto constante de um opúsculo que, em 23/11/1983, foi ofertado a um dos membros do farol da democracia representativa, pelo autor: o padre ucraniano Valdemiro Haneiko, então, vigário da paróquia de S. João Batista, da igreja ortodoxa ucraniana, situada na cidade de Apucarana - Paraná.
A divulgação nesta nossa página, das palavras de uma pessoa que sentiu na pele as atrocidades perpetradas pelos Bolcheviques na sua terra natal, se constitui num irrefutável testemunho de que, certamente, se reveste da insuspeição que valida as narrativas sérias e isentas de fatos históricos.
Além da reposição de ocorrências históricas que vêm sendo falseadas por seguidores da doutrina que alicerçou o genocídio, ocorrido na Ucrânia, aqui cabe um alerta à brava gente brasileira, descendente de patriotas que, por várias vezes, repudiaram àqueles que a imagem e semelhança dos que molestaram os ucranianos, continuam no mesmo intento de agrilhoar o nosso povo que, anteriormente, já mostrou a sua capacidade de salvar a si mesmo e, agora, voltando às ruas, clama por mais um basta à atuação dos que não desistem de nos impingir uma doutrina fraudulenta, cuja práxis é amoral e desumana.
Segue-se o relato do padre Valdemiro Haneiko:

CINQUENTENÁRIO DA FOME NA UCRÂNIA (1931-1933)
Pe. Valdemiro Haneiko
O ano de 1933 foi fatídico para os destinos da Ucrânia. Uma fome terrível artificialmente planejada e executada pelo regime russo para subjugar de uma vez para sempre a Ucrânia - ciosa de sua liberdade e da intangibilidade de suas riquezas culturais e materiais.
Amante de suas tradições e costumes milenares, inconformada com as pretensões dos soviéticos, resistiu heroicamente numa luta feroz e sem tréguas na qual tombaram centenas de milhares de seus filhos patriotas e heróicos.
Para abastecer a sua máquina bélica com fins imperialistas, os russos atingiram os extremos de selvageria, submetendo a Ucrânia e reduzindo os camponeses ao regime da escravidão, sem direito ao pão que produziam para a sua sobrevivência. Os métodos então adotados pelos russos não se explicam, nem se desculpam no auge da civilização humana. Foi uma luta pelo pão para sobreviver por parte dos ucranianos e por parte dos russos para fortalecer a máquina imperialista para o domínio do mundo, apoiada nas riquezas inesgotáveis da Ucrânia.
O ano de 1983 é o cinqüentenário (em 2011: 78 anos) da Fome imposta ao povo ucraniano pelo imperialismo russo.
Vamos recordar neste ano aqueles dias catastróficos da Ucrânia, num mar de sangue e de terror, quando sete milhões de ucranianos tombaram na luta pela própria subsistência pelas armas e pela planejada fome para quebrar a resistência patriótica dos que defendiam o seu solo sagrado.
A luta entre as forças para conservar a vida e fugir da morte, na Ucrânia, prolongou-se por diversas etapas, porque o povo ucraniano ama sua terra. O povo se sente intimamente ligado à terra que oferece grandes riquezas e capacidade de frutificar. Conhece as verdades eternas, conhece seu Criador, conhece o espiritual, como conhece o material. Stalin foi sincero quando afirmou, durante a guerra, que o camponês da Ucrânia lhe dava mais trabalho do que Hitler. As imensas perdas da Ucrânia em todos os setores que as lutas da Fome Organizada pela Rússia provocaram, dão testemunho do horrendo e mortal crime perpetrado pelos russos imperialistas contra os camponeses ucranianos.
Quando a história do séc. XXI examinar as causas da derrota do imperialismo comunista há de constatar que a resistência ucraniana foi um dos principais fatores. O mundo conheceu a terrível fome que assolou a Ucrânia, organizada artificialmente pela política soviética, entretanto, até o presente, não se analisou o porquê da fome, nem como um acontecimento isolado, a não ser em estrita relação com os sucessos políticos da URSS desse tempo.
Não pretendemos cobrir completamente os complexos acontecimentos que se relacionam com a grande carestia e fome de 1931 e 33. Desejamos apenas apresentar um esboço maior que demonstre a sua origem e recorde as mais precisas verdades fundamentadas em testemunhos idôneos dos fatores relativos à fome na Ucrânia.
A UCRÂNIA
Antes de entrarmos no problema da fome, pretendemos dar outras informações úteis e necessárias para um melhor conhecimento desse país como nação.
Qual o lugar que a Ucrânia ocupa no mundo? Como seus recursos naturais, sua posição geográfica, seu solo, seu clima e suas riquezas minerais influenciaram decisivamente sobre a sua história?
Tudo isso, sem dúvida, influiu no desenvolvimento econômico e teve uma influência direta sobre a sua história política.
A Ucrânia situada na parte Sul da Europa Oriental, ao Norte do Mar Negro, é a sua base geográfica, política e econômica. Os rios Dniepr, Dom, Dniestr, Buh são importantes meios de comunicação e linhas vitais da economia nacional, como também fontes de energia hidrelétrica. Um solo excelente, considerado como o mais fértil do mundo. O húmus negro e profundo é dos mais produtivos do universo. Excepcional temperatura, bom clima, luz, calor e precipitações atmosféricas regulares favorecem o cultivo de todas as plantas típicas da zona temperada. Antes da II Guerra Mundial, a Ucrânia era cognominada de “Celeiro da Europa”. A agricultura foi sempre a sua riqueza nacional. As grandes jazidas de carvão, os depósitos de ferro, de petróleo, manganês, gás, mercúrio, grafite, mármore, porcelana, caolin, sais - são recursos que oferecem ilimitados horizontes para um desenvolvimento econômico do País. A combinação do solo, clima e uma população ativa constitui um complexo exclusivo, natural e ao mesmo tempo econômico. Nesses termos, a Ucrânia seria uma nação completamente independente territorial e economicamente, pois o desenvolvimento harmonioso de suas indústrias poderia satisfazer todas as necessidades de sua população plenamente.
Entretanto, como a Ucrânia é uma imensa planície, com ausência de barreiras naturais limítrofes, sempre favoreceram a invasão de seus vizinhos que cobiçavam as suas terras férteis e daí as lutas contínuas contra os mesmos na defesa do direito de viver em estado próprio, lutas que nem sempre foram vitoriosas. Uma luta de mil anos que mantinha a existência nacional alternada contra as hordas tártaras sob a direção mongólica do séc. XIII ou contra os turcos, polacos, russos. A última e mais sangrenta guerra para dominar a Ucrânia foi a da Alemanha nazista e da Rússia Soviética. Nessa, a Ucrânia foi derrotada e anexada pela União Soviética. E o povo ucraniano foi escravizado e as suas terras ocupadas.
A UCRANIA DENTRO DO SISTEMA POLÍTICO E ECONÔMICO SOVIETICO
A queda do tzarismo na Rússia em 1917 e a tomada do poder pelos bolcheviques em outubro do mesmo ano, determinou o curso dos acontecimentos numa repercussão fatal para a Ucrânia. O conflito armado entre a República Nacional Ucraniana, constituída em 1917 e a Rússia bolchevista continuou desde o ano de 1918 até 1921.
Nesse período de 1918 até a primavera de 1921, surgiu uma ordem específica econômica que mais tarde se denominou de “Guerra Comunista”. Foi introduzido o “monopólio do pão”. O comércio foi proibido. Toda a indústria e pequenos negócios foram nacionalizados e sua administração entregue aos soviéticos. Os Bancos foram também nacionalizados. Foi estabelecida uma economia que funcionava sem dinheiro. Com o desaparecimento dos Bancos, desapareceram também os impostos pagos com dinheiro. O Estado exigia serviços sem retribuição. O movimento cooperativista foi extinto e o comércio doméstico sofreu uma transformação completa. Foi introduzido o trabalho compulsório. Os operários e os empregados perderam o direito de mudar do ofício por iniciativa própria.
A "Guerra Comunista" determinou o fechamento dos mercados e de toda sorte de operações comerciais, eliminando o estímulo e pretendendo um maior rendimento no campo de trabalho ao reduzir as condições econômicas a um estado primitivo e adquirindo as instituições governamentais o domínio completo. Essa era a característica da "guerra Comunista" - dominar tudo. Cabe destacar que a luta da Ucrânia para sustentar a sua independência nacional foi cruenta.
O conflito deflagrado entre a Ucrânia e a Rússia Soviética entre os anos de 1917 e 20 foi uma guerra para obter o domínio político e econômico da Ucrânia. Por isso a "guerra Comunista" se apresentava com uma política armada de roubo e saque. O primordial da luta foi conseguir o pão ucraniano. Já dizia Lenin: "Não sobreviveremos sem o pão da Ucrânia" e a luta pelo socialismo era a luta pelo pão. "E se editavam decretos para obrigar os camponeses a entregar todas as colheitas, podendo reter uma mínima quantidade, insuficiente para a manutenção da família”. Os camponeses se negavam a entregar as colheitas sem o pagamento. Então forças armadas entraram nos campos da lavoura para saquear tudo quanto pudessem, o trigo para o governo e o resto para eles mesmos. Só depois de duras e sangrentas batalhas o Exército Vermelho abriu o caminho para o pão, porque conquistou a Ucrânia. Depois se vangloriavam de que a ”Ucrânia é nossa, uma Ucrânia cheia de riquezas e do pão que é nosso". "Temos quatro centros militares de abastecimento". "Temos uma massa enorme de trabalhadores". E os olhos dos lavradores russos estavam fixos na Ucrânia, aguardando a ordem para se apoderarem das propriedades ucranianas, onde, ao se estabelecerem mais tarde, trouxeram os maiores horrores para as aldeias e para o povo ucraniano.
Enfim o povo ucraniano foi forçado e entregar não só o trigo, mas também a carne, aves, manteiga, frutas, mel, numa palavra todos os víveres. A Ucrânia estava reduzida a uma colônia de exploração econômica e qualquer manifestação cultural era considerada como contra revolucionária e sujeita à destruição. Foi proibida a circulação de jornais ucranianos, a imprensa foi confiscada e as escolas fechadas. Aqueles que falassem em ucraniano eram fuzilados como elementos perigosos ao regime. No solo soviético só o idioma russo é permitido, afirmavam os soviéticos.
Tudo isso revoltou profundamente a alma da nação ucraniana. Daí os levantes contra os soviéticos, segundo declarou o representante de Moscou na Ucrânia, Raskovsky. A revolta contra a Rússia continha os slogans da independência da Ucrânia sob o mando comunista e ucraniano esquerdista social democrático. Nesse período mais de um milhão de insurgentes tomaram as armas contra os russos, conseguindo liquidar mais de 40 mil soldados do Exército Vermelho e membros das agências coletivas de trigo.
A política econômica desse tempo trouxe uma completa desintegração da economia russa. Diante do roubo governamental das colheitas, as áreas do cultivo foram reduzidas ao mínimo necessário para prover a própria subsistência. Assim a colheita de 1920 foi 65% menor do que a do ano anterior. O mesmo fenômeno se deu em todas as outras atividades industriais. Nessa crise aguda desencadeada pelo próprio poder, a população padecia de carência de todo o essencial, como o pão, cereais, carne, açúcar, roupas, sapatos, sal, fósforo, sabão, querosene, combustíveis:
Numa inflação galopante a moeda caía numa velocidade catastrófica. Basta dizer que em 1921 as mercadorias aumentarem 7.918 vezes de preço. A população vivia semi-faminta. As casas das cidades e vilas, depois de nacionalizadas, não tinham dono. Ninguém se interessava pelas residências que aos poucos se deterioravam e ruíam. Os serviços públicos de água, luz, esgoto, instalações sanitárias eram péssimos. A crise econômica soviética provocou a fome de 1921.
Finalmente Moscou se deu conta de que para se apoderar da Ucrânia deveria conformar-se com as condições existentes no país. Foi mudado o sistema político também em relação à Ucrânia. Agora a conquista deveria ser feita por meios pacíficos, como uma nação igual às demais da União Soviética. Assim se formou como uma conquista a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1922. Contudo Moscou considerava a Ucrânia como uma colônia de exploração e de saque. Essa política era mais traiçoeira, mais sutil: a Rússia Tzarista recusava admitir a existência de uma Ucrânia, mas a Rússia Comunista, tendo conquistado a Ucrânia pela força das armas e com a ajuda dos comunistas ucranianos, estabeleceu uma República Socialista Soviética da Ucrânia, que segundo a Constituição poderia exercer uma autoridade independente e poderia tornar-se independente da URSS.
Com o estabelecimento do governo ucraniano, o terror diminuiu e começou uma nova fase política favorável à Ucrânia. Muito se conseguiu num período relativamente curto. Toda a educação, mesmo superior, foi ucrainizada. A ciência ucraniana, a literatura e a arte tiveram grande êxito. Publicaram-se numerosas obras literárias ucranianas. As cidades ucranianas russificadas por séculos, eram reucrainizadas. A correspondência oficial foi ucrainizada. Nicolau Skrypnyk, Co¬missário da Educação, escrevia em 1927: "durante o período dessa revolução temos publicado mais livros ucranianos do que durante 130 anos de existência da literatura ucraniana”.
O vertiginoso desenvolvimento ucraniano em todos os setores das atividades chegou a assustar os políticos russos. E Volubiev chegou a afirmar que: "desde a revolução, a economia ucraniana cessou de ser um suplemento da economia russa: está agora, em termos iguais".
O progresso vertiginoso da Ucrânia molestava a Moscou, porque diante de seus olhos se realizava um movimento cultural que se convertia em uma outra política. Stalin afirmava: "que a luta por um movimento cultural da Ucrânia assumira proporções de uma luta geral contra Moscou, contra os russos em geral e contra a cultura russa na Ucrânia".
Em 1930 começa a repressão russa na Ucrânia. Foi criado um Tribunal que dava aos bolcheviques o direito de liquidarem com selvageria a muitos ucranianos dignos, expoentes no campo cultural: acadêmicos, professores, líderes. Os soviéticos condenavam em massa, sem julgamento: intelectuais, camponeses e operários. Stalin percebeu que a violência colonizadora agrícola na Ucrânia estava longe de submetê-la aos seus interesses imperialistas. Daí a sua decisão de dispersar as forças do renascimento ucraniano, a liquidação da política ucraniana a atemorizar todos os setores na nação.
Começou uma nova etapa de vida na Ucrânia: a coletivização compulsória da agricultura para desenvolver uma grande indústria mediante trabalho dos camponeses e assim aumentar a potência bélica soviética. Os camponeses se negavam a trabalhar nas granjas coletivas e em conseqüência a sua liquidação em massa ou a sua deportação para os campos de concentração de trabalhos forçados. Foram assim centenas de milhares e talvez, milhões de lavradores arrancados à força de suas propriedades. A coletivização forçada não produziu os resultados esperados. De ano em ano, as colheitas diminuíram. As ameaças soviéticas aumentavam. Essa situação crítica preconizava graves acontecimentos, na Ucrânia.
PLANEJAMENTO E PREPARAÇAO DA FOME
No início da coletivização obrigatória, os lavradores da Ucrânia tomaram uma atitude de decidida oposição contra o governo e sistematicamente se recusaram a acatar as suas ordens no setor agrícola. Uma crítica mordaz foi feita contra o governo da Ucrânia pelo representante do Politibüro de Moscou, denunciando as falhas na aplicação das economias agrícolas que não agradavam. Os camponeses forçados a entrar na coletivização, sabotavam as obras e se recusavam a trabalhar. Essa recusa era considerada como greve contra o governo, criando uma situação embaraçosa ao mesmo. Com as greves dos camponeses, os planos do governo foram profundamente afetados. Em conseqüência surgiram medidas severas contra os grevistas. Moscou decidiu usar meios mais violentos e cruéis para quebrar as greves. Ficou decidido reduzir à fome os camponeses e privá-los da propriedade individual. Para atingir a fome foram feitos inúmeros decretos nos fins de 1932 e nos primeiros meses de 1933. Decisões ativas e firmes contra os "pequenos burgueses" foram tomadas para combater as hesitações, desordens, falta de disciplina e atitude anti-social dos camponeses. Depois se decretou a proteção da propriedade socialista. A idéia máxima dessa propriedade socialista como propriedade comum que o governo afirmava ser sagrada e quem quer que atentasse contra ela deveria ser considerado inimigo comum, e, portanto, o governo devia se precaver contra o roubo e o furto. Esse decreto levantou uma onda de terror em todas as aldeias. Todos sofreram injustiças e perseguições com a aplicação de penas severas ao menor deslize. A finalidade dessa onda de terror era curvar os inconformados com a nova política imposta pelo governo soviético.
O verão de 1932 foi palco de uma cruel luta entre as autoridades e os camponeses pela posse do pão. O governo procurava se apoderar de todo alimento e os lavradores fizeram o possível para impedir. Foram então criadas brigadas armadas para o recolhimento de todos os víveres. Invadiram casa por casa, buscando alimentos escondidos nos forros, nos porões, nos colchões, nas paredes. Elas se distinguiram pelo espírito de destruição e crueldade extrema, chegando ao cúmulo de examinarem as fezes para saber que alimento os camponeses consumiam. A história do futuro há de admitir que em sua campanha contra os camponeses durante a primavera e verão de 1933, ao regime soviético se opôs a um povo unido em frente sólida, incluindo a todos desde os mais graduados até o último camponês mais pobre.
Em janeiro de 1933 os comunistas ucranianos foram acusados de não cumprir o plano da colheita de grãos. Foi então designado como chefe do governo ucraniano, Liubchenko, ambicioso e obediente, quando as resistências em certas regiões foram quebradas. Em curto espaço de tempo foram removidos 237 ucranianos de seus postos de secretários regionais; 249 do partido comunista como chefes de comitês e 158 dos comitês executivos. Além disso, foram enviados 10 (dez) mil homens para quebrar a oposição de resistência nas granjas coletivas.
Do partido comunista ucraniano houve apenas um homem que ousou abertamente se opor à política soviética - Skrypnyk que se colocou vigorosamente a favor de seus companheiros contra a espantosa injúria levada a efeito pela coletivização, pedindo que o pão produzido pelos camponeses deveria ser utilizado pelos mesmos para salvar a vida deles e somente o restante entregue a Moscou.
A destruição da Ucrânia e de seus intelectuais continuou sem interrupção.
Milhares de ucranianos, entre os maiores intelectuais foram condenados à morte ou enviados para as masmorras soviéticas. A situação era tal que os ucranianos não se atreviam usar o seu próprio idioma e de ler seus livros, porque era perigoso, ocasionando uma condenação criminal. A Ucrânia ficou assim reduzida a um campo de batalha após a luta: destruição, morte, miséria, fome, pobreza, desânimo e sem nenhuma perspectiva de um futuro melhor.
O governo soviético ao assumir o poder, seu maior objetivo era explorar o trabalho dos lavradores e se apoderar de suas colheitas. Um observador ocidental dizia: "A fome foi deliberadamente imposta como um instrumento da política nacional, como último meio de quebrar a resistência dos camponeses ao novo sistema pelo qual eram despojados do direito de ser donos de suas propriedades e granjas e obrigados a trabalhar sob as condições que o estado impunha e entregar tudo aquilo que ele exigia".
Fontes oficiosas soviéticas dão como resultado dos anos econômicos de 1932, e 33 nos dão provas exatas que a fome na Ucrânia foi deliberadamente organizada e executada por Moscou. O que mais se destaca e mais impressiona durante a fome na Ucrânia, foi de um lado, uma colossal colheita de grãos para alimentar e de outro lado, a falta de alimentos para aqueles que os produziram a custo de suor. Sem dúvida foi uma Fome Política, porque não foi resultado de nenhuma catástrofe natural ou de esgotamento de recursos da nação. O governo se dispôs a dar aos lavradores uma lição mediante o atroz e horrendo método da fome para forçá-los a trabalhar duramente nas granjas coletivas.
ORGANIZAÇAO DA CAMPANHA DA FOME
A campanha da colheita de grãos de 1932-33, com a criação de brigadas especiais para o confisco de toda a alimentação, motivou a fome em massa da população rural ucraniana. Um testemunho estrangeiro da fome nos seus começos, afirma que a Ucrânia estava absolutamente sem pão: uma população faminta. Somente os territórios russos não estavam afetados pela fome. No início de 1933 se vendiam cães e gatos, cuja carne era considerada urna verdadeira iguaria. A fome relaxava o moral, os homicídios e suicídios se sucediam constantemente. A degradação humana desceu ao nível dos animais. Comentava-se o horrível canibalismo, como a venda de carne humana. Havia numerosos casos de mães sacrificarem seus próprios filhos para matar a fome. Havia tantos cadáveres que as autoridades se sentiam impotentes para retirar da vista pública, cadáveres que se encontravam nas estradas, nas ruas e nas aldeias.
SUPRESSÃO DOS EFEITOS DA FOME E A CONSOLIDAÇÃO DO SISTEMA DA ESCRAVIDÃO COLETIVA
Ao iniciar a fome e as mudanças demográficas, sobrevieram grandes repercussões políticas e econômicas que tiveram ressonância não só dentro da Ucrânia, mas em todo o território soviético. As autoridades soviéticas puderam constatar pessoalmente o significado político e as conseqüências demográficas da situação que era impossível esconder ante os olhos dos estados satélites e do resto do mundo. Resumindo, os êxitos alcançados na agricultura e na coletivização dentro do Plano Qüinqüenal, a imprensa comunista admitiu a ocorrência de muitos tropeços cruéis e terríveis na luta entre o governo e a população camponesa. Admitiu que a coletivização fora forçada; que houve insurreição anti-soviética; que houve destruição de implementos e de máquinas agrícolas e das colheitas, às vezes, de tipo armado; que muitos ativistas foram fuzilados e suas instalações incendiadas; que houve sabotagem em massa; que até houve colaboração entre comunistas e elementos contrários ao governo. Entretanto, jamais mencionaram que houve miséria, fome, reconhecendo como nefasto e ilógico esse crime para a história, pois os protagonistas da luta eram lavradores do campo e o proletariado russo. Para se justificar diante das massas trabalhadoras ucranianas que pessoalmente foram testemunhas dos trágicos acontecimentos, os comunistas oficialmente fizeram circular uma versão dos fatos explicando que não houve realmente miséria, nem fome, senão para aqueles que foram objeto de confisco por recusar-se colaborar nas granjas coletivas. E para se apresentar como inocentes do crime cometido instituíram um Tribunal onde foi julgado um grupo de agrônomos responsáveis pelo problema econômico. Para o mundo exterior davam uma explicação diferente. Atribuíam as notícias referentes à miséria, à imaginação criativa dos redatores capitalistas e burgueses, enquanto que realçavam o êxito alcançado pelo Plano Qüinqüenal. Em tal situação, as notícias relativas a miséria da Ucrânia constituíam somente uma parte das notícias sensacionalistas que o mundo logo esqueceu.
A cínica advertência de Stalin diante do Partido de que "a exploração, a desocupação e a pobreza das aldeias estavam desaparecendo paulatinamente" era também transmitida aos países do exterior. Ainda para o cúmulo, o comunista Herriot, Primeiro Ministro Francês, a quem os comunistas puderam vendar os olhos durante a sua visita a Ucrânia em 1933, reforçou incondicionalmente as afirmações de Stalin em referência à miséria. Herriot somente viu e visitou aquilo que os comunistas já prepararam com antecedência: granjas coletivas bem organizadas, camponeses bem vestidos, escolas bem freqüentadas, os habitantes da vila sorridentes agradecendo a honrosa visita. Nisto os comunistas soviéticos são mestres.
E agora, ao recordarmos esses acontecimentos de triste memória, que tanto enlutaram a nação ucraniana saibamos que seus filhos tombaram heroicamente em defesa do seu patrimônio nacional. A eles, as nossas homenagens sinceras e as nossas preces fervorosas. O inimigo invasor venceu uma batalha, mas não venceu a guerra. Do sangue derramado e da vida consumida pela horrível fome surgirão, como surgiram sempre na existência de 4000 mil anos da história da Ucrânia, novos heróis que continuarão a luta até a vitória final. Os homens podem ser destruídos pela morte, mas as idéias são eternas, não se destroem pelas armas. A idéia da Independência Nacional Ucraniana está viva, qual chama incandescente.
Como complemento de tudo quanto afirmamos neste nosso histórico sobre a Fome na Ucrânia queremos, em linhas gerais, dar alguns tópicos da súplica dos Bispos Católicos Ucranianos da Província Eclesiástica da Ucrânia Ocidental, dirigida a todos os homens de boa vontade, para chamar a atenção do mundo sobre as atrocidades inomináveis da Ucrânia Oriental praticadas pelo regime bolchevista.
Eis o seu clamor: “A Ucrânia agoniza. A população perece de fome. O sistema antropófago do capitalismo de Estado baseado na injustiça, no engano, o ateísmo e a corrupção, conduziu um país rico a uma ruína completa".
O Santo Padre Papa Pio XI protestou veementemente contra tudo aquilo que no bolchevismo se opõe ao cristianismo, a Deus e à natureza humana. "Protestamos diante do mundo inteiro, contra a perseguição das crianças, dos pobres, dos enfermos e dos inocentes. O sangue dos lavradores famélicos e escravizados que cultivam o solo ucraniano clama aos céus pedindo vingança. Imploramos aos cristãos do mundo, a todos que crêem em Deus que se unam a nós no nosso protesto e que façam conhecer a nossa dor nos rincões mais remotos da terra”.

[Sobre este assunto, ler também o livro "Escolhi a Liberdade" de Mikhail Voslensky]

------------------------------------------------
Leia também, nesta mesma página, o artigo:

UM POUCO DE HISTÓRIA DA UCRÂNIA - 27/02/2011

GÊNESE DA UCRÂNIA - 24/02/2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

EDITORIAL DO FDR

Novo blog no ar 03/03/2011


Registramos com satisfação a inauguração de um novo blog conservador, conduzido por Anatoli Oliynik e sua amiga e conterrânea Oksana Kowaltschuk, Notícias da Ucrânia , cuja finalidade é a de informar aos seus leitores as novas tentativas de dominação da Ucrânia pelos comunistas.

Quanto ao Anatoli, é conhecido dos amigos que acompanham o trabalho realizado pelo Farol da Democracia. Recomendamos por exemplo a leitura do “A Utopia”, dentre os muitos que podem ser garimpados em seu blog. Este artigo, publicado aos 21 de fevereiro de 2011, confirma a firmeza de seu pensamento conservador, tão necessário à formação moral e intelectual da nossa juventude, estimulando os leitores a enfrentar a vida com coragem e competência.

Anatoli e Oksana, de origem ucraniana, têm entre seus parentes próximos as testemunhas mais concretas das barbaridades perpetradas pelos comunistas durante a ocupação e domínio de seu país, quando o genocídio imposto à população, de morte pela fome, passou a ser conhecido como “Holodomor”.

As imagens e história verídica, sob a forma de documentário sobre o Holodomor podem ser assistidas no filme “The Soviet Story”, onde inclusive muitos mitos se desnudam, expondo verdades escondidas: a íntima parceria e similaridade entre o nazismo – nacional socialismo – utilizado hoje pelas esquerdas para estigmatizar qualquer um que se oponha aos interesses comunistas, como sendo de extrema direita e o comunismo, extrema esquerda.

Apesar de estarem em pólos opostos no eixo socialista, em o sendo, igualam-se na crueldade, no desprezo pela vida, na corrupção, na característica de banalizar na sociedade e no homem a falta de princípios e de coragem para enfrentar seu projeto individual de vida.

Se o filme choca pelas verdades e pelas imagens extraídas de documentários de origens absolutamente confiáveis, os conhecimentos pessoais e as verdades cruas que Anatoli e Oksana têm a apresentar sobre este período trágico da história da Ucrânia compõem um acervo valioso. Têm, assim, tudo para transformar a tragédia num caso exemplar para que a população brasileira pare e reflita sobre a insensatez em aderir às promessas socialistas que hoje ocupam o “imaginário coletivo” da massa sem lideranças políticas preparadas e descomprometidas com o futuro da nação.

Vale a pena estudarmos a história deste país, contada a partir de pessoas que o amam, que sofreram perdas irreparáveis, pois sua versão, comprovadas pela chacina de mais de sete milhões de pessoas numa população de cerca de onze milhões à época, para sustentar a propaganda internacional do falido progresso comunista, veiculadas por um blog singelo, fala mais alto que todo o revisionismo histórico russo e da mídia comprometida, sobre a Ucrânia.

Vale a pena acompanharmos e – se possível até – empenharmos ajuda a esse pequeno país para resistir ao gigante insaciável que mais uma vez ronda a antiga presa com sanha assassina e anti-cristã.

A minha experiência pessoal, por trabalhar há alguns anos com duas empresas ucranianas, me autoriza recomendar lutarmos contra a divisão da nação, prática imposta pelos socialistas para o enfraquecimento do Moral Nacional, do sentimento de Civismo e de união entre os cidadãos. No Brasil, conduzido pelos movimentos de “minorias” na Ucrânia, desde o domínio russo, a extinção da nacionalidade por chacina, por estupro da sociedade mesclando raças e a criação de uma inexistente divisão de povos.

Quem sabe, se conseguirmos de alguma maneira ajudar à pequena Ucrânia, conseguiremos também perceber um caminho que nos ajude a fazer algo pelo Brasil na rejeição de todo e qualquer engodo socialista.

Desejamos sucesso ao trabalho do Notícias da Ucrânia!

Jorge R. Pereira, FDR
------------------------------------------
Publicado no Editorial do Farol da Democracia (FDR) é mais que uma notícia, mas uma homenagem aos editores deste blog. Que DEUS te pague, JORGE ! 

terça-feira, 1 de março de 2011

ESCLARECIMENTO AO LEITOR

Iniciamos com a publicação deste relato histórico que nos apresenta o primeiro herói ucraniano e sua luta na busca da liberdade para o seu povo que vivia e ainda vive na opressão há quase quatro séculos.
Na seqüencia, publicaremos uma série de denúncias das mais vis barbaridades cometidas contra uma nação pela psicose de uma ideologia utópica, cruel, sanguinária e genocida: o comunismo.
Este resgate da história e das denúncias faz-se necessário para o que o leitor saiba o que aconteceu antes e possa comparar o que está acontecendo no presente momento e assim formar sua própria opinião a respeito da ideologia que vitimou a Ucrânia e que se expande a passos largos no resto do mundo.
O Cossaco. 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

UM POUCO DE HISTÓRIA DA UCRÂNIA

Como a Ucrânia caiu nas garras de Moscou há 356 anos, e nunca mais conseguiu completa liberdade!

SOB A BANDEIRA DE BOHDAN KHMELNYTSKYI
Bohdan Khmelnytskyi (1595-1657)
Os cossacos, enrijecidos em muitas lutas, força militar muitas vezes solicitada pelo rei polonês, desejavam para si igualdade de direitos.
Porém, o rei polonês desejava diminuir seu número e designava o território que poderiam ocupar para sua sobrevivência. Diversas restrições na vida religiosa, processual, ensino e idioma ampliavam-se sobre toda a nação ucraniana. Igrejas ortodoxas transformavam-se em igrejas católicas; não aceitavam as queixas se os requerimentos endereçados à justiça estivessem em língua ucraniana. Surgiram revoltas, protestos. Nos anos 30 do séc. XVII pipocavam insurreições contra os poloneses que, apesar de sua amplitude e apoio popular, não alcançaram êxito. Os ucranianos continuavam escravizados na própria terra.
Em 1648 rebelaram-se os aldeões, a pobreza citadina, o clero, a classe abastada das cidades, a pequena nobreza. Essa rebelião transformou-se em guerra nacional, que durou 10 anos. Sua meta era libertar-se do domínio estrangeiro.
Encabeçou está guerra de libertação nacional Bohdan Khmelnytskyi. Ele nasceu em 1595, numa  família pequena burguesa. Teve boa educação: dominava o idioma ucraniano, polonês, latim, turco e tártaro. Em 1620 lutou contra os turcos. Desde meados dos anos 40 ativamente preparava a insurreição contra Polônia.
A primeira luta aconteceu em "Zhovti Vody" (Águas amarelas) e foi vitoriosa. Seguiram-se "Korsunska" e "Pylavetska", também vitoriosas. No início de novembro de 1648 quase todas as terras foram libertadas do jugo polonês. Afirmava-se o país ucraniano-cossaco. O governo pertencia ao "Hetman", Bohdan Khmelnytskyi, mas as decisões de maior importância surgiam do conselho cossaco. Nos assuntos referentes à governabilidade do país, o "hetman" era auxiliado pela "starshyna" geral (termo usado na Ucrânia , nos séc. 16-18 e designava os cossacos de maior destaque).
A capital do país cossaco era Chyhyryn (y = ê).
Política inteligente, talento militar e grande autoridade de Bohdan Khmelnytskyi favoreceu o reconhecimento do país ucraniano por vários países.
Em 1651, entre os dias 18 a 30 de junho, aconteceu a batalha de Berestetshko, uma das maiores batalhas da guerra da Libertação Nacional. Os tártaros lutavam ao lado dos cossacos, mas, como freqüentemente acontecia, debandaram em 20/06, passaram para o lado polaco. Bohdan Khmelnytskyi ao tentar alcançá-los foi aprisionado. Por 10 dias os cossacos resistiram mas o recuo tornou-se inevitável.
Extenuado pela longa guerra contra Polônia, Bohdan Khmelnytskyi viu-se obrigado a procurar novos aliados. Em tártaros não podia mais confiar porque, em várias batalhas, nos momentos próximos da decisão, eles traíam.
Então "hetman" procurou ajuda com o "czar" moscovita. O encontro com os enviados do "czar" aconteceu em "Pereiaslav", em janeiro de 1654 e depois em Moscou. Já em março, em Moscou, foi assinado o acordo ucraniano-moscovita. Este documento previa direitos iguais, bem como total independência ucraniana. No entanto o "czar" não pensava respeitar o acertado. E, em 1659, novo acordo foi estabelecido, no qual a independência da Ucrânia teve fim.
UCRÂNIA DOS 'HETMAN"
Com o acordo de Bohdan Khmelnytskyi os cossacos se fortaleceram - formando o Exército do Zaporizhzha (zh pronuncie j), o que começou a inquietar os vizinhos. Ofensivas contra a independência da Ucrânia aumentaram depois da morte de Bohdan Khmelnytskyi. Com subornos, revoltas e conspirações, os estrangeiros trouxeram desavenças entre os líderes cossacos e aguçaram a disputa pela "bulava", símbolo do "hetman".
Tais fatos criaram condições favoráveis para uma guerra fratricida cruel, a qual dividiu a Ucrânia cossaca em Ucrânia Livoberezhna (esquerda) e Pravoberezhna (direita), cada qual com seu "hetman" (É claro que a ambição pessoal também contribuiu).
Essa divisão foi confirmada em 1667 entre Polônia e Moscou. A da esquerda, com Kiev, pertenceria a Moscou; a da direita à Polônia. A terra cossaca, Zaporizhzha, aos dois países, mais tarde - só a Moscou.
Desde 1659 com cada "hetman" recém-eleito, o "czar" estabelecia acordos que, cada vez mais limitavam os direitos da Ucrânia: aumentava-se o percentual do exército russo nas terras cossacas e que devia ser mantido pelos ucranianos; os "hetmans" não podiam manter contato com outros países, e exigia-se que os cossacos participassem com os militares russos nas diversas guerras promovidas por Moscou, e também que executassem  serviços pesados nas construções.
Havia escravidão na Ucrânia, como na Rússia.
Assim a maior parte da Ucrânia ficou mais de trezentos anos sob o domínio russo, não só os setenta anos da União Soviética!
Oksana Kowaltschuk

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ENTREVISTA COM O PATRIARCA FILARET DA UCRÂNIA

Patriarca Filaret de Kiyv (Ucrânia)


Tyzhden, 11.02.2011

Quando o mal se transforma em bem.

Patriarca de Kyiv e toda Rus-Ukraina (Rus - primeiro nome da Ukraina, ver artigo anterior) Filaret sobre a ocupação dos templos do Patriarcado de Kyiv e o embuste do “Mundo Russo”.

Com métodos de Stalin o Patriarca Cirilo considera que o cisma só pode ser superado com ajuda do governo, isto é, com violência, como foi destruída por ordem de Stalin, a Igreja Autocéfala na Ukraina nos anos 1930 e 1944.

Em Ukraina espalham-se notícias de que a Igreja Ortodoxa Russa pretende destruir o Patriarcado de Kyiv. Ukrainskyi Tyzhden (Semana Ukrainiana) reuniu-se com o Patriarca Filaret para confirmar ou desmentir essa informação.

U.T.: Sua Santidade, isto é verdade?

- A verdade é que a ROC-MP (Russian Ortodox Church - Igreja Ortodoxa Russa - Patriarcado de Moscou) quer superar o cisma na ortodoxia ucrainiana. Naturalmente, nós também queremos que a ortodoxia na Ukraina seja única. Mas, enquanto nós queremos unir todos os ortodoxos e criar uma igreja ortodoxa independente de Moscou, com sua própria organização e estrutura, a ROC-MP quer união, mas com subordinação ao seu Patriarca. Este é o problema com Moscou. E, esse plano se encaixa na política da FR (Federação Russa) e na política geral do Patriarca Cirilo. O Patriarca de Moscou julga que o cisma só pode ser superado com ajuda do governo, isto é, com violência.

Ele reafirma o seu parecer com exemplos como a destruição, por ordem de Stalin, da Igreja Autocéfala Ukraina nos anos 1930 e 1944. Ele também cita exemplos de situações que surgiram na Rússia com outros cismos da igreja, chamando a atenção para o empenho do governo para a resolução dos mesmos. Para o Patriarca Cirilo a interferência do governo nos assuntos da Igreja - é normal. Em sua opinião, a cúpula superior do país deve intervir nos assuntos religiosos e resolver esse problema, é claro, a favor de Moscou.

U.T.: É possível na Ukraina, a chamada versão búlgara de 2004?

- Na Bulgária, a divisão na igreja aconteceu somente após o colapso da União Soviética. As forças democráticas chegaram ao poder e descobriu-se que o Patriarca Maxim foi nomeado pelos comunistas com violação de leis canônicas. Alguns bispos e clero colocaram-se contra ele - e houve a divisão da igreja. O ex-rei Simeão assumindo o cargo de Primeiro-Ministro da Bulgária, resolveu privar os oponentes de seus templos e devolvê-los ao Patriarca Maxim. Ou seja, a separação das igrejas foi interrompida pela ação da autoridade. Em resposta, alguns sacerdotes recorreram ao Tribunal de Estrasburgo. A sentença deste Tribunal é que Bulgária transgrediu a lei e ordenou ao governo devolver as igrejas e pagar indenização em dinheiro.

Esta “opção doce” gostariam de aplicar aqui, isto é, liquidar a UOC-PK (Igreja Ortodoxa Ukrainiana - Patriarcado de Kyiv), através do auxílio do poder. Mas esse é somente o desejo dos adversários do Patriarcado de Kyiv, visto que o atual Presidente da Ukraina é pró-Rússia, então ele deve satisfazer a vontade de Moscou.

Executar a tarefa de Moscou assumiram em todos os cantos da Ukraina, desde o ano passado até agora. No entanto, em localidades onde o poder atua de forma mais sensata, ele não interfere nesses assuntos. E, onde o governo local quer demonstrar que apóia somente a Igreja frequentada pelo Presidente, exercem forte pressão e até pelo caminho da apropriação forçada apossam-se de nossos templos. Por exemplo, na aldeia Kamianka, distrito Telmanivskyi, em Donetsk, apareceram empresários que ofereceram dinheiro para reconstrução do templo aos sacerdotes e à comunidade, pelo que a Igreja deveria passar para o Patriarcado de Moscou. Além disso advertiram-se os paroquianos que, se eles, voluntariamente não o fizessem, seria aplicada a força. Mas o bispo de lá, apesar de ser russo, defende firmemente a posição da UOC-PK e diz que ele mesmo está pronto para morrer, mas o templo não entregará. Então a pressão acalmou-se por algum tempo.

Na província de Vinnytsiia alguns funcionários administrativos escolhiam o clero da UOC-PK e deram como proposta final passar para UOC-PM. Da mesma forma em Donbass. Dizem que vão ajudar, facilitar e oferecer assistência financeira, mas o nosso clero recusa.

Em Makarov, província de Kyiv, através de imposturas conduziram os cidadãos para UOC-PM. Falsificaram os documentos sem conhecimento dos paroquianos. Aqui estão todas as evidências de ato criminal. Alguns deputados locais encaminharam pedido de explicações à Procuradoria Geral. Os órgãos que devem averiguar este assunto (milícia, procuradoria) recusam-se e propõem aos crentes apelar à justiça, primeiro ministro, presidente. Recusam-se porque os paroquianos forneceram testemunhos escritos de que sua vontade foi falsificada, que o padre, o qual se desligou da UOC-PK falsificou os documentos e registrou as alterações nos estatutos paroquiais, juridicamente transferindo-os para o Patriarcado de Moscou.

U.T.: Foi registrado no Parlamento um projeto de lei para conceder às igrejas o estatuto jurídico. Os especialistas independentes acreditam que a finalidade deste projeto é para faclitar a captura das igrejas do Patriarcado de Kiev.

- No geral, seria bom se a Igreja recebesse o status de pessoa jurídica. Mas agora, quando a Igreja na Ukraina está dividida, somos contra a adoção de tal lei, pois ela dará ao Patriarcado de Moscou o direito, através da justiça, à reivindicação de propriedade que eles acreditam sua, mas que atualmente, de acordo com os fiéis, está nas mãos do Patriarcado de Kyiv.

Todo mundo sabe que a justiça pode ser pressionada, e comprada. E então, entre os arroubos pela propriedade desencader-se-á a hostilidade religiosa. Todos nós lembramos o que aconteceu no oeste da Ukraina no início dos anos de 1990, quando o sangue foi derramado. Com forcados e machados ia um contra outro. Nós não queremos que isso aconteça de novo e pior, se espalhe por toda Ukraina. Portanto, nós nos dirigimos ao Presidente, Primeiro-Ministro, Parlamento, para que pensem nas conseqüências que este ato poderá trazer. Encrespar o mar é fácil, como acalmá-lo?

U.T.: Ocorreram quantos casos de transição de sacerdotes da UOC-PK para UOC-PM?

- Por enquanto dois. Revelou-se que eles, os padres Bohdan Lisychenko e Valery Zhyhuts foram atraídos pelo dinheiro. Mas, seus paroquianos não querem. Em geral, os crentes do Patriarcado de Kyiv não apóiam a transição para o Patriarcado de Moscou. Tomemos, por exemplo, o ex-arcebispo George, de Donetsk (uma das regiões mais russificadas da Ukraina), que em 2008 declarou sua transição para o Patriarcado de Moscou, mas, suas paróquias não o acompanharam. Sem elas o Patriarcado de Moscou não o aceitou. E ele foi forçado a passar para a Igreja Grego-Católica.

Nós não nos afligimos muito com estes casos de pessoas não moralmente ilibadas se afastarem de nós. Mesmo entre os apóstolos escolhidos pelo Salvador havia um traidor - Judas. A Igreja assim purifica-se.
Ao Patriarcado de Kyiv pertencem os ukrainianos patriotas convencidos que desejam ter sua igreja, que amam sua pátria, sua terra e desejam ter sua igreja independente. Eles nunca irão para Moscou.

Se considerarmos esse problema no geral, é surpreendente. Ele trabalha a favor da UOC-PK. Pode parecer que todos estes fatos ilegais, pressões, deveriam destruir o Patriarcado de Kyiv, mas é o oposto. Devido a grande publicidade alcançada, os cidadãos sentem-se ultrajados, não só na Ukraina, mas também na Europa e Estados Unidos, porque lá também temos nossas igrejas. Os fiéis pedem aos seus governos que ajudem. Assim acontece a consolidação, a união da comunidade e organizações comunitárias em torno do Patriarcado de Kyiv. E eu vejo nisso a providência de Deus. Deus transforma o mal no bem. Assim como foi em 1995, quando morreu o Patriarca Volodymyr. Todos lembram aquela “Terça Sangrenta”. São aqueles terríveis acontecimentos que unificaram a comunidade em torno da UOC-PK. E desde então o Patriarcado de Kyiv cresceu rapidamente. Desde então o presidente Kuchma, que era contra o Patriarcado de Kiev teve que nos aceitar nas mesmas condições da UOC-PM. Assim esperamos que Viktor Yanukovych, que declarou ser presidente de toda Ukraina, decida esta questão. Isto é, tenha a mesma consideração a todas as igrejas, de fato, não somente em discurso.

U.T.: E há casos de transição do Patriarcado de Moscou para o Patriarcado de Kyiv?

- Na Província de Poltava, numa aldeia, toda comunidade decidiu mover-se do PM para o PK, mas o governo impede. Fabricaram uma decisão judicial e selaram o templo. Então no Natal as pessoas oraram na rua, próximo a igreja. Tem outro exemplo na Província de Chernihov. É sempre a iniciativa dos fiéis.

U.T.: Pode o Patriarca de Kyiv contar com o apoio do Patriarca Ecumênico?

- Nós não temos grandes esperanças porque ele não pode nos ajudar. Não que não queira, ele não tem esse poder. Aqui devem agir as leis da Ukraina. As paróquias, como pessoas jurídicas, têm direito de escolher livremente sua subordinação a esta ou aquela igreja. O Estado deve apenas assegurar a execução das leis, e não como agora, quando o Patriarcado de Moscou nos tira uma paróquia, o governo registra isso até com falsos documentos e em poucos dias. Já quando a paróquia quer sair do Patriarcado de Moscou - o governo lhe causa vários obstáculos.

O Patriarcado Ecumênico de Constantinopla ajudará se admitir a Igreja do Patriarcado de Kyiv como Igreja Autocéfala. Porque, quando isto acontecer, para Igreja Ukraina Independente convergirão todos, até Patriarcado de Moscou.

U.T.: Como Sua Santidade avalia o relatório do Primaz da UOC-PM Metropolita Volodymyr no Conselho Episcopal que recentemente realizou-se em Moscou. Parece que ele não quer ser fantoche do Patriarca Cirilo, e que nisto é apoiado pela maioria dos bispos ukrainianos.

- O objetivo estratégico do Patriarca Cirilo - é tirar da igreja ukrainiana o direito à independência e autonomia. Ele assumiria o título de Patriarca de Kyiv, teria sua residência em Kyiv - Pecherska Lavra, se tornaria um cidadão da Ukraina, obteria a dupla cidadania. E apesar do fato de que isto é proibido na Ukraina, ele espera que o governo ukrainiano satisfaça seu pedido, do qual ele necessita para exercer maior influência no país. Quando a Igreja é independente e autonoma, ele não pode, através da pessoa do Metropolita Volodymyr imiscuir-se nos assuntos da UOC-PM. Suas frequentes visitas à Ucraina devem demonstrar que o verdadeiro lider da UOC-PM não é o Metropolita Volodymyr, e sim ele, Patriarca de Moscou, Cirilo.

Cirilo encontrou-se com Viktor Yanukovych, sem o Metropolita Volodymyr, contra a permissão da etiqueta, e abençoou o recém-eleito presidente da Ukraina. A bênção deveria ter sido do Metropolita Volodymyr.

No verão do ano passado o Patriarca Cirilo voou para Criméia, ao encontro do Presidente, sozinho, sem o Metropolita Volodymyr. Então, quando Cirilo veio a Dnipropetrovsk, Volodymyr retirou-se de lá e voltou a Kyiv - com ele a maioria dos bispos. Por isso, posteriormente, quando Cirilo oficiava na Catedral de Santa Sofia, teve de declarar publicamente que ninguém quer arrebatar a independência e a autonomia da UOC-PM.

É a luta interna entre o Metropolita Volodymyr e o Patriarca Cirilo. É por isso que no Conselho Episcopal o Metropolita Volodymyr afirmava que a independência e autonomia da igreja ukrainiana não é algo novo para Ukraina, apenas a devolução do que ela possuía e lhe tomaram.

Então podemos concluir que Volodymyr continuará defendendo a independência e a autonomia da igreja e Cirilo terá que ser mais moderado. Caso Cirilo não alivie a pressão, Volodymyr tem uma saída: união com a UOC-PK, o que Moscou teme.

U.T.: Em sua opinião, qual é o perigo para Ukraina e nossa ortodoxia que traz a pregação da “Paz Russa”? E, se a expansão global da ROC (Russian Ortodox Church - Igreja Ortodoxa Russa) está relacionada ao fato de que ela está perdendo a Rússia?

- “Rusky Mir” (Paz Russa) é um invólucro atraente como outrora “comunismo - futuro luminoso”. Sob a “Paz Russa” oculta-se o novo império russo, domínio russo e a igreja imperial russa. O Patriarca Cirilo inventou “Russky Mir” para primeiramente haver a união espiritual em torno de Moscou, em seguida - união política, e finalmente - territorial. Ou seja, para restaurar o império russo. Mas estes seus desejos são irrealizáveis, porque não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Agora temos novos tempos.

Quanto a expansão da Igreja Ortodoxa na Ukraina, agora o número de paróquias da ortodoxia ukrainiana dos dois patriarcados, de Kyiv e Moscou, supera o número da Rússia. Rússia 12 mil - Ukraina 15; na Rússia temos próximo de 100 bispos - Ukraina mais de 100; na Rússia há 67 dioceses - Ukraina 85. Segundo o Ministério do Interior na última Páscoa ukrainiana vieram à igreja 11 milhões de cristãos de 47 milhões de habitantes. Na Rússia, de 142 milhões de pessoas visitaram os templos 8 milhões. Na Ukraina celebraram a Páscoa quase 25% da população, já na Rússia - 5%.

De acordo com os prognósticos dos analistas políticos, dentro de 30 anos Rússia não será mais um estado cristão. Mesmo hoje em Moscou, com 9 milhões de habitantes, os russos são apenas 31%. Contando com os ukrainianos, georgianos, bielorrússos, armênios e outros cristãos - 49%; muçulmanos - 34%.

Enquanto o nascimento dos muçulmanos é muito maior, então dentro de poucos anos o seu número será muito maior que o número de cristãos em Moscou. No Natal, em Moscou, vieram às igrejas próximo de 100 mil crentes, já no dia santo dos muçulmanos “Kurban Bayram” (Eid al Adha - Festa do Sacrifício) havia 70 mil.

A administração, tanto da FR como da ROC está preocupada. Por isso eles aferraram-se tanto à Ukraina, esperando que ela seja sua salvação.

U.T.: O porta-voz do Patriarcado da Igreja Grego Católica ukrainiana, padre Ihor Yatsiv recentemente declarou que, embora não tenha havido casos de sacerdotes deslocarem-se para Igreja do Patriarcado de Moscou mas, quando o governo ukrainiano dá preferência absoluta a uma das confissões, então, consciente ou inconsciente, causa tensões inter-religiosas, e isto significa “hoje - eles (PK), amanhã - nós. Ihor Yatsiv, entre outros assuntos, lembrou que o presidente Yanukovych esqueceu de felicitar os ucrainianos grego-católicos por ocasião do Natal.

- Prognosticar não podemos. Isto não poderá realizar-se, mas tais intenções podem acontecer. Já que até agora entre o PM e o Vaticano prosseguem debates por causa da Igreja Grego-Católica ukrainiana. E é por isso que o Patriarcado de Moscou não participa de encontros com o Papa. Assim comportava-se o Patriarca Alexy, e comporta-se o Patriarca Cirilo.

Para que a reunião possa acontecer, colocam duas condições ao Papa: resolver o problema com os grego-católicos ukrainianos. Em outras palavras, fazer como se eles não existissem, para que voltem a ortodoxia russa. Somente após isso haverá reunião. Então o PM tem dois problemas: Patriarcado de Kyiv e ukrainianos grego-católicos.

U.T.: A Comissão religiosa governamental deixou de existir. Como o Estado coordena suas relações com as igrejas. Continua “de fato” um diálogo oficial do governo com as organizações religiosas além da UOC-PM?

- A Comissão religiosa governamental realmente ajudava resolver equívocos interconfessionais. Agora que esta Comissão foi extinta, para ocupar-se com intrigas que surgem, de tempo em tempo, não há ninguém.
A inscrição das paróquias agora é feita pelo órgão que lida com todo e qualquer tipo de estatuto. Os assuntos religiosos passaram para o Ministério da Cultura. Tal determinação rebaixa a condição da igreja, e a igreja é a alma da nação. Igreja não valorizada o mal, primeiramente, é para o Estado.

U.T.:Este ano Sofia Kyivska vai comemorar seu milênio…

- Esta é uma celebração global de todos os cristãos. Nós todos celebramos: a UOC-KP, a UOC-PM e os católicos gregos. A UOC-PM pediu ao governo que lhe dessem a Igreja Sofia em definitivo. Quando soubemos, também entramos com pedido de serviço alternativo, porque pela lei é possível. O presidente e o primeiro-ministro ao receberem os dois pedidos, negaram a eles e a nós. Nós celebramos na Santa Sofia muitas vezes. Também celebramos junto com outras confissões. Lá houve a entronização do Patriarca Msteslav e Patriarca Volodymyr.

Desejo aos crentes na Ukraina, como Sofia que é a sabedoria, serem inteligentes, tolerantes e sobreviver até que una-se toda a ortodoxia ukrainiana em uma única igreja ortodoxa. E Sofia não será apenas um museu, mas um ativo templo ortodoxo. Desejo que todos vivam em paz e amor ao próximo, porque nossos adversários querem que briguemos, é vantajoso para eles. Nossa força - na união. UOC-PK existe, não pelo Patriarca Filaret. Muitos pensam que enquanto Filaret vive, também vive o Patriarcado de Kyiv, e quando ele morrer o Patriarcado desmoronará. O Patriarcado de Kyiv existe devido a vontade de Deus. Desejo à nação ukrainiana a independência de seu país.

O site http://cerkva.info, do dia 21.02.2011 informa que a Justiça da Província de Donetsk decidiu entregar o templo do Patriarcado de Kyiv a UOC-PM.

Em 15.02.2011 a justiça de Donetsk decidiu que a igreja ortodoxa na aldeia Kamianka, (citada no início da entrevista) distrito Telmanivskyi, que pertencia ao Patriarcado de Kyiv desde 1996, deve passar para o Patriarcado de Moscou.

O Patriarcado de Kyiv vai recorrer à instância superior.

--------------------------------------------------------------------------
Entrevistadora: Olena Chekan
Tradução: Oksana Kowaltschuk
Fotoformatação: A. Oliynik
———————————————————————